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A 21 de Janeiro (as datas que vou referir neste texto são importantes para as situar na informação que havia no momento em que fui escrevendo o que escrevi), no Corta-fitas, blog onde habitualmente escrevo, escrevi um texto em louvor da resistência de António Costa a fechar as escolas.

E procurava explicar as minhas razões para discordar, radicalmente, do fecho de escolas, não pelas razões que Alexandre Homem Cristo e Luís Aguiar-Conraria têm usado e com as quais concordo – muito obrigado aos dois pela persistência e solidez da argumentação contra o fecho de escolas – mas do estrito ponto de vista da gestão da epidemia.

“A hipótese dominante [a que estou agora a chamar o mito do Natal], partilhada pelos especialistas covid, implicaria a mortalidade a subir menos de dez dias depois do Natal, quando normalmente se fala em duas semanas entre contágio e morte …, implica aceitar uma explicação de contágio que pode ser válida para a covid mas deixa sem explicação o resto da mortalidade …, deixa os especialistas sem perceber o que fez a letalidade neste grupo etário [acima de 85 anos] duplicar em 12 a 14 dias …, deixa os especialistas covid sem explicação para o salto brusco na percentagem de positivos … ou, o que é mais interessante, deixando-os perplexos porque o número de casos está a subir menos do que os seus modelos previram e a mortalidade está a subir mais que os seus modelos previram”.

Perante o que me pareciam, já nessa altura, evidentes fragilidades da argumentação que atribui aos contactos do Natal o que se passou em Janeiro, na mortalidade em Portugal – geral e covid –, sugeria que o que se estava a passar tinha uma explicação bem mais sólida na meteorologia, especificamente na anomalia meteorológica que ocorreu entre 24 de Dezembro e 19 de Janeiro.

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O que, em qualquer caso, não significa negar que os contactos do Natal não tenham tido alguma influência, mas apenas que essa não é a razão primordial para a situação, sem qualquer paralelo, de semanas seguidas com a mortalidade global mais de 50% acima do que seria de esperar, face à informação de mortalidade dos dez anos anteriores.

“A mortalidade global explica-se melhor a partir da sua relação com as condições sinóticas [o conjunto das condições meteorológicas num determinado momento] em detrimento do contágio covid, podendo a mortalidade covid explicar-se como dependente destes factores de risco globais para a população acima dos 85 anos. A mortalidade começa a subir logo a 28 de Dezembro, o que é mais compatível com as condições meteorológicas que com os tempos de infecção e desenvolvimento da doença, fornece uma explicação sólida para o aumento da letalidade e da percentagem de positivos”.

“…  dentro de uma semana será mais fácil avaliar o que de facto se está a passar: não foi feito confinamento nenhum nos termos em que estes especialistas entendiam como necessário e o que vier a ser feito hoje [21 de Janeiro] só tem reflexos, na melhor das hipóteses, daqui a uma semana.

Se, nessa altura, dia 27, os números de casos (em média de sete dias, que neste momento anda pelos 10 mil e quinhentos) estiver próximo dos 37 mil que previram, a letalidade e a percentagem de testes positivos se mantiver nos níveis da primeira quinzena de Janeiro e a mortalidade continuar a subir como até agora, cá estarei para responder pelo que escrevo hoje.

Mas se a mortalidade global começar a descer, a mortalidade covid se mantiver, subir pouco ou descer, a letalidade e a percentagem de positivos descer e o número de casos – em média de sete dias – estiver abaixo do meio do intervalo previsto por estes especialistas (entre 37 e 14 mil, ou seja, abaixo de 26 mil dentro de uma semana) – então talvez seja altura de reavaliar os modelos que andam a ser usados”.

A 22 de Janeiro, Carlos Antunes, provavelmente o mais influente modelador da covid, dá uma entrevista notável ao Público, com o título expressivo “O medo vai ter de voltar” em que defende, com base no mito do Natal, que só é possível diminuir o nível dos contágios de forma relevante em oito semanas com um confinamento brutal, contrapondo dois meses e meio para se ver algum abaixamento relevante nos contágios no caso de não serem adoptadas as medidas que defende.

As coisas não se passaram exactamente como escrevi a 21 de Janeiro, mas a 27 de Janeiro, partindo deste modelo de interpretação alternativo ao mito do Natal, referia num novo post os evidentes sinais de abrandamento no crescimento do número de casos, enquanto os modeladores covid, partindo do mito do Natal, continuavam a prever milhares de casos a mais que os que se verificaram, o pico de incidência lá para Fevereiro e números de internamentos, cuidados intensivos e mortes verdadeiramente assustadores.

A 24 de Janeiro, noutro post, afinava a hipótese base de que era mais fácil explicar os números que se observavam partindo do pressuposto de que resultavam de uma situação meteorológica excepcional.

A correcção mais relevante dizia respeito à hipótese de que estávamos perante a sobreposição de dois efeitos diferentes provocados pela anomalia meteorológica: 1) o efeito directo na mortalidade, que está descrito na literatura e que tem um desfasamento de quatro a sete dias entre o extremo meteorológico e a mortalidade; 2) um impacto forte nos contágios resultantes de condições ambientais especialmente favoráveis actividade viral.

A 27 de Janeiro interpretava os evidentes sinais de abrandamento da subida de casos (e, já agora, a mortalidade global tem o seu pico por volta de 24/ 25 de Janeiro, com os casos covid ainda em subida) como a chegada ao pico de casos, quando a generalidade dos modeladores covid continuavam a falar de um pico a ocorrer para 4 ou 5 de Fevereiro.

No dia 29 de Janeiro o Observador, fazendo de caixa de ressonância do mito do Natal, faz uma peça (“Pico nos cuidados intensivos poderá chegar aos 1.100 internamentos diários no início de fevereiro”) que, lida hoje, não pode deixar de causar perplexidade. Nesse dia, volto a frisar, 29 de Janeiro, com o pico de casos já pelas costas para quem quisesse olhar para os dados tal como eles são, Carlos Antunes (não é o único, é apenas o mais visível e influente) prevê 16 a 18 mil casos num pico algures entre 5 e 9 de Fevereiro (entre 8 e 6 mil casos verificados nesses dias) e Maria Luísa Morgado previa 1100 pessoas em cuidados intensivos na primeira metade de Fevereiro (máximo de 904 em 5 de Fevereiro, começando a descer a partir daí).

No mesmo dia 29 de Janeiro escrevia um novo post:

“A minha interpretação pode resumir-se da seguinte forma: após um primeiro momento do impacto direto da onda de frio na mortalidade (mais ou menos a semana de desfasamento que vi na bibliografia que li), faz-se sentir o impacto da onda de frio na evolução da infecção que tem uma evolução bem mais prolongada que a da gripe, o que aumenta o desfasamento em relação aos dados da meteorologia. Enquanto estes dois efeitos se sobrepõem, na primeira fase, a mortalidade total aumenta rapidamente, mantendo-se o peso relativo da mortalidade covid sobre a mortalidade global e à medida que o efeito directo da anomalia meteorológica se vai desvanecendo a velocidade de aumento da mortalidade global decresce e aumenta o peso relativo da mortalidade covid.

A ser assim, as boas notícias é que os impactos directos e indirectos da anomalia meteorológica estão em dissipação e nos próximos dias veremos o pico e posterior descida do número de casos covid, de internamentos e mortes, de letalidade e de positividade dos testes, embora com desfasamento entre eles e, provavelmente, a um ritmo mais lento do que eu pensava e gostaria.”

A 3 de Fevereiro resumi as minhas previsões de curto prazo, partindo de um ponto de vista diferente de quem acredita no mito do Natal:

“O que será de esperar, se o descrito acima estiver certo [era um resumo da minha tese do duplo efeito da anomalia meteorológica que começa a 24 de Dezembro], é uma primeira queda de mortalidade global e covid (esta menos acentuada porque não resulta da doença mas da parte da mortalidade que por acaso é covid) até 9 de Fevereiro (mais ou menos), uma queda dos internamentos a partir de ontem, 2 de fevereiro (os números de hoje apontam nesse sentido, mas não faz sentido tirar conclusões de um número isolado, é preciso esperar mais dias) e o acentuar da queda da mortalidade covid a partir de 9 de Fevereiro, quando à queda da mortalidade global se juntar a queda da mortalidade covid strictu senso.”

Hoje é 10 de Fevereiro, os números dizem respeito a ontem, 9 de Fevereiro, há uma queda acentuada da mortalidade covid e os dados do SICO (sistema de registo da mortalidade em tempo real), à hora a que escrevo, sugerem que amanhã poderá também haver outra diminuição (não tão expressiva) da mortalidade covid, a par da progressiva diminuição dos internamentos gerais e de cuidados intensivos, ao arrepio das previsões da generalidade das pessoas que têm falado ou escrito sobre a epidemia.

Haverá alguma razão para eu dar algum crédito ao mito do Natal com base no qual têm estado a ser feitas previsões atrás de previsões sem qualquer aderência à realidade que depois se verifica?