Não foi um processo consciente mas creio que comecei a discriminar emocionalmente pessoas aí a partir dos meus 16 anos. Em que tipo de discriminação emocional me meti eu, nessa verde adolescência? No fundo, comecei a achar que as pessoas de esquerda valiam mais do que as outras. Escrito assim parece absurdo, eu sei. Mas os leitores sabem que uso estas crónicas como espaço de confissão pública, ainda que as admissões sejam tantas vezes ridículas. A nossa imprensa está cheia de gente que busca por razoabilidade, valor que pouco me comove. Interessa-me sim, quando escrevo, irrazoabilizar-me aos olhos dos outros. Logo, hoje quero reconhecer que na juventude passei a achar que as pessoas de esquerda valiam mais do que as outras.

Como definiria as pessoas de esquerda e por que razão passaram elas a encantar-me mais do que as outras? Sucintamente, as pessoas de esquerda eram para mim as pessoas que sabiam mais do que eu e que tinham uma sensibilidade mais apurada do que a minha. Procurando eu ser mais sábio e sensível, as pessoas de esquerda tornavam-se também uma via para a concretização desse desejo duplo, caso fosse bem sucedido a aproximar-me delas. As pessoas de esquerda encantavam-me porque me prometiam um mundo maior do que o meu (claro que tudo isto revela também que havia demasiada adolescência na minha adolescência).

Não quero ser preciso, científico ou sociologicamente rigoroso na categorização que faço acerca das pessoas de esquerda. Mais do que representarem um programa ou uma visão do mundo, eram pessoas que assim designadas inspiravam a tal sabedoria ou sensibilidade que ambicionava para mim. As pessoas de esquerda liam muito, viam filmes estranhos com prazer, dançavam em concertos de música difícil—tudo isto me fascinava, caramba! Afinal, o que vêem elas que eu não vejo e como posso eu ter acesso às mesmas visões?

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