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O mundo ao contrário

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Se o seu depósito é mais importante do que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

“Se gosto de ti, se gostas de mim, se isto não chega, tens o Mundo ao Contrário.”
(Xutos & Pontapés, O Mundo ao Contrário)

No instante em que estou a escrever estas palavras ainda se vive nos restos da tempestade a que se chamou de crise energética, que é uma crise porque uns quantos operadores de maquinaria de transporte entraram em greve e, por razões que me escapam, o mesmo tipo de operadores espanhóis não poderiam abastecer os postos nacionais. Não sendo possível recorrer a esta hipótese, certamente pelo facto de os derivados do petróleo para lá de Badajoz terem composições diferentes, as autoridades portuguesas entenderam ser mais adequado mobilizar as forças policiais e militares a operar a dita maquinaria e a obrigar os ditos operadores a operar sob ameaça de violência. Interromperam-se férias de ministros, fizeram-se conselhos de ministros “eletrónicos” e conferências de imprensa diárias; tudo para que você, que me lê, tivesse o depósito com gasóleo nas férias. Deixe-me dizer-lhe, no entanto, que se o seu depósito é mais importante que aquilo que os filhos dos motoristas sentiram quando a polícia os foi buscar a casa, é porque tem o mundo ao contrário.

Neste período de férias, as notícias revelaram-nos que uma mãe com uma gravidez de risco teve uma complicação no Algarve no dia 1 de Agosto e foi ao hospital de Portimão, de onde foi encaminhada para Faro, acabando o bebé por nascer na Amadora no dia 3 de Agosto, onde veio a falecer instantes depois. Os especialistas dizem-nos que, provavelmente, o bebé não teria hipóteses de sobrevivência, mesmo se fosse atendido em Portimão, ou em Faro para onde os planos o mandariam de seguida. Ou em Évora, que seria o hospital seguinte. Ou em Almada, para onde seguiria antes de ir para a Amadora. E estou razoavelmente certo de que os especialistas têm toda a razão, provavelmente o bebé não sobreviveria. Mas esse é um problema da natureza. O meu problema, que deveria ser o seu, é que tudo me diz que não fizemos o máximo que estava ao nosso alcance para salvar este bebé. Se tivéssemos feito, haveria recursos em Portimão, em Faro, em Évora, em Almada e na Amadora, e seria certo que não teríamos feito uma mãe com uma gravidez de risco andar de ambulância 300 km na iminência de perder um filho. Quanto mais não seja, por respeito àquela mãe. Ninguém interrompeu férias, não houve requisição de polícias e militares, nem um grupinho de Whatsapp a que pudéssemos chamar de “conselho eletrónico”. Deixe-me dizer-lhe, no entanto, que se o seu depósito é mais importante que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

No mesmo dia em que se noticiam as negociações entre os camionistas e o governo surge também a notícia de que duas meninas de 10 anos, gémeas, foram retiradas de uma garagem onde viviam, de acordo com o relatório da PSP, em condições deploráveis e insalubres, não iam à escola e presenciavam agressões físicas e psicológicas dos pais. O detalhe é que a Comissão de Proteção de Menores já tinha sinalizado a situação há 6 anos. Repito, há 6 anos. As crianças passaram boa parte da sua infância, dos 4 aos 10 anos, nessas condições e “nós sabíamos”. Em sua defesa, a Comissão de Proteção de Menores refere que já tinha informado o ministério público em 2016 relativamente à violência doméstica. Ou seja, quando as crianças tinham 7 anos. “Nós já sabíamos” há 6 anos, sendo que há 3 “tínhamos” a certeza da situação destas duas meninas. Não foi declarada nenhuma emergência, nem sequer se achou por bem mandar um GNR ou um PSP ir a esta casa buscar ninguém durante os 6 anos em que já se sabia ou nos 3 anos em que se tinha a certeza. Deixe-me dizer-lhe, no entanto, que se o seu depósito é mais importante do que aquilo por que estas duas meninas passaram, se tem mais importância do que as consequências que isto vai ter na vida delas, é porque tem o mundo ao contrário.

Claro que nada disto se resolveria se os ministros criassem gabinetes de crise, ou se declarassem situações de emergência, já que o problema não reside nos ministros. Estes, basicamente, estão a responder àquilo que são as prioridades da vida de quem me está a ler. Posso garantir a quem me lê, que o gasóleo nos outros países também viaja de camião e que nos outros países também há greves. Esta coisa de haver motoristas de camiões que fazem greves não é uma originalidade portuguesa, como podem imaginar, e nos outros países não se monta um estado de guerra porque há uma greve. O problema está naquilo que são as suas prioridades de vida e na solidariedade que tem para com os seus semelhantes. É por isso que não se criam conselhos de ministros “eletrónicos” (seja lá o que isso for) para salvar a vida de um bebé em risco ou a infância de duas meninas. Porque você, meu caro, tem o mundo ao contrário.

Podem acusar-me de demagogia porque a questão energética é um problema nacional que nos afeta a todos, como alguém me disse em “debate eletrónico” (o Facebook é agora requalificado como “debate eletrónico”), mas o problema é mesmo esse, não é? O problema é que a vida daquele bebé não é um problema nacional. É por isso que as greves dos professores não dão origem a declarações de emergência, embora ponham em causa a educação de todos os nossos filhos. Ou greves de médicos e enfermeiros que põem em causa a vida de milhões de pessoas e não levam, decerto, a GNR a casa de ninguém. Ou, ainda, greves dos transportes que colocam em risco o emprego das pessoas mais pobres e que se têm de deslocar mais para chegar a um emprego onde não podem faltar não conduzem, de facto, a requisições civis. A razão pela qual temos um estado, a razão pela qual somos independentes dos espanhóis ou dos franceses explica-se por sermos nós, à partida, os mais indicados para cuidar dos nossos. E enquanto não admitirmos que isto não se está a verificar, temos o mundo ao contrário.

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor)
* Co-Fundador da Closer, Vice-Presidente da Data Science Portuguese Association, Professor e Investigador

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