O Estado prepara-se para distribuir dinheiro que não tem e surgir como salvador de uma crise sem raiz económica. Há quem se aproveite do Covid-19 para justificar o fim do capitalismo; o fim dos mercados livres; o fim das liberdades económicas, que se baseia na liberdade individual. Perante a paragem da economia, que é o que melhor resume as escolhas diárias que fazemos nas nossas vidas, são cada vez mais os que pretendem que daqui nasça uma nova sociedade. Um novo tipo de vida.

Mas esta não é uma crise normal. Não é fruto de uma bolha que rebentou. Resulta de uma ordem para se parar de trabalhar, de vender e de comprar e de nos fecharmos em casa. É por não ser uma crise normal que os que têm empregos certos, seja no Estado ou nas grandes empresas, estão descansados em casa. Vêem filmes e séries televisivas no Netflix, jogam na Playstation e passeiam-se pelas ruas com o cão justificando para o que não deviam fazer. Há ainda quem aproveite para o jogging diário que um dia normal de trabalho não permitiria.

É uma crise que está a destruir os que trabalham por conta própria. Os que abriram restaurantes e quiosques, lojas e os que investiram no alojamento local. Afecta empreiteiros, canalizadores e padeiros. Tradutores e designers, arquitectos, todos os que trabalham em regime freelancer. São essencialmente os que referi na minha crónica de quarta-feira e que Matthew Lynn menciona na The Spectator. Afecta os responsáveis pelo crescimento económico dos últimos anos e são os que precisam ser apoiados, não com dinheiro mas através de uma desregulamentação da lei laboral e por via de um Estado que prescinda dos seus impostos.

Perante o Covid-19 não precisamos de mudar a sociedade para amanhãs que não cantam, mas de permitir que os que ficaram sem trabalho se levantem rapidamente. Precisamos deles hoje mais do que nunca. Infelizmente, e como é habitual, a maioria da população, imune aos primeiros sinais da crise, anda distraída e não se opõe (apoia até) qualquer medida de cariz socialista e colectivista. Anestesiada que está contra os custos das medidas estatais aceita-as para que não a chateiem. É quando os cidadãos andam distraídos que os poderes se instalam e se propagam. As pretensas ajudas estatais arriscam-se a servir de pouco e a aumentar os poderes públicos. Os que criaram negócios acabarão por cair na mesma. Entretanto, mais despesa pública significa mais impostos e cortes salariais. Um novo brutal aumento de impostos está aí ao virar da esquina, a juntar-se aos cortes dos salários e das pensões. Nessa altura os que têm empregos garantidos acordarão para a realidade que agora não querem ver. Hoje encaram estes dias como um período de relaxe passado em casa; amanhã sairão à rua indignados. Quando tal suceder pode ser tarde, pois nem sequer sabemos se serão Costa e Marcelo a decidir e a promulgar as medidas de austeridade. Mas de três factos não nos escapamos: um Estado ainda mais endividado, uma população descontente e um futuro comprometido.