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Ia escrever sobre o novo Super-Homem, filho de Clark Kent e Lois Lane. Ignoro o que aconteceu ao velho, mas este namora com um amigo japonês de cabelo roxo, combate fogos florestais “causados” pelas alterações climáticas, preocupa-se com a deportação de refugiados em Metrópolis e impede tiroteios em escolas. Só lhe falta reverter a rotação da Terra para recuar na cronologia e conseguir que o progenitor procrie com uma senhora de etnia “minoritária”, de modo a que ele renasça inter-racial. Ou promover a vacinação compulsiva. Eis os principais superpoderes dele: levar a sério os “pivots” da CNN; usar máscara para a Covid mesmo na Fortaleza da Solidão; ser um chato sem redenção. O seu ponto fraco, além da susceptibilidade à kriptonita, é o humor.

Se escrevesse sobre o novo Super-Homem, ligaria o assunto à recente necessidade de a banda desenhada “acolher a diversidade” (jargão em voga). Hoje há super-heróis homossexuais, negros e, provavelmente, muçulmanos, tudo para não “perder a oportunidade” (jargão) de promover a “inclusão” (santa paciência). E lembraria que existem “comics” pelos vistos não regeneráveis, ou indignos de salvação pelas igrejas totalitárias do momento. Nos EUA, a Disney desatou a censurar os seus filmes e parques de diversão. No Canadá, livros de Tintim e Astérix foram literalmente queimados por darem uma “representação negativa” dos povos indígenas (é curioso que só os brancos nunca são indígenas de parte nenhuma. Se o termo não fosse agora considerado insultuoso para os extraterrestres – juro – perguntaria se os caucasianos são “aliens”? ). E por aí fora. Porém, não muito fora daí. É natural que o movimento “woke” (chalupa, em português e seja em que língua for) se concentre em farejar discriminações em produtos juvenis: apenas uma ínfima minoria chega ao “racismo” em Faulkner. A maioria prefere caçar Blyton ou Kipling ou o Capuchinho Vermelho. E suspeito que os recorrentes ataques a Mark Twain se baseiam em versões animadas de “Huckleberry Finn”.

Sucede que não vou escrever sobre o novo Super-Homem, que de resto estará a manifestar-se à porta da Netflix, em San Jose, por causa do “especial” de Dave Chappelle. É sobre isto que vou escrever. No programa, estreado há 15 dias, Chappelle brinca com os transsexuais. Reacções das pessoas normais? Rir; não rir; mudar de “canal”. Reacções dos “woke”? Berreiro doido, exigências de remoção do programa, ameaças ao comediante e a quem o sustenta, reivindicações de aumento salarial aos “transsexuais” que trabalham na empresa de “streaming”, etc. Um branco que julga ser uma negra, autor de uma série da Netflix intitulada “Dear White People”, demitiu-se. Em suma, a ideia é “cancelar” Chappelle, e por “cancelamento” entenda-se a actividade favorita de qualquer fascista que se preze.

Qual foi, afinal, o crime de Chappelle, uma gota no oceano de blasfémias? Lembrar que uma vagina criada cirurgicamente não é bem uma vagina. Nem é piada: é evidência. A piada está na fúria com que os “woke” se atiram às evidências. A gravidez não é exclusiva às mulheres. “Mulher” é conceito “segregacionista” (por favor utilizar “pessoa com colo do útero”). A matemática é uma “construção social”. O método científico é “colonialista”. Esta gente é um maná para a psiquiatria.

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Lamentavelmente, esta gente não vai ao psiquiatra: vai para as universidades, para as televisões, para as “redes sociais” e para a rua, onde grita a pedir punições e a proclamar-se “ferida” na sua “sensibilidade”. Ora a “sensibilidade” de transtornados deve inspirar uma resposta clara: não me interessa. Tal como, para lá do ocasional pretexto cómico ou romanesco, não interessa a sexualidade ou a “raça” de ninguém, não convém valorizar taradinhos que se servem da sexualidade ou da “raça” para se mostrarem “ofendidos”. E que julgam que “ofendido” é estatuto. E que aproveitam o estatuto para tentar eliminar a liberdade alheia.

Ao substituir o que antigamente se chamava conhecimento por clichés e histeria inquisitorial, o movimento “woke” é coisa de fanáticos e ignorantes. Ceder-lhe, um pedacinho que seja, é legitimar o fanatismo e a ignorância. Quando, por compaixão ou cobardia ou oportunismo, o mundo recua perante o avanço dos inquisidores, são as trevas que ganham. E, amputado de verdade, memória, contradição, desgraça e graça, é o mundo que perde. Não é bonita uma paisagem repleta de virtuosos, sobretudo quando a virtude esconde, e mal, o tipo de cegueira redentora responsável pelas maiores vergonhas da História. As vergonhas não se apagam: se possível, evitam-se.

Já não é possível evitar o primitivismo “woke”. É possível vencê-lo? Não sei. Sei que os malucos são menos numerosos do que o respectivo ruído dá a entender. E que as “comunidades” imaginárias que invocam, sexuais, raciais ou o que calha, não são clubes coesos, com cartão de sócio e opinião única. E que as embaraçosas concessões dos “media” e do “show business” acabam quando, por falta de público para lixo anódino, hipócrita e expiatório, se perceber que a alternativa é acabarem os “media” e o “show business”. E que a abdicação de políticos comuns em prol de dementes com ambição e “agenda” é capaz de lhes sair pela culatra em matéria eleitoral. E que, conforme é hábito nas purgas, os doidos concorrem entre si para escolher o mais puro, e destruir os impuros no processo: houve um tempo em que, por exemplo, os fanáticos viam um aliado em Chappelle, sobre quem, reparo, também não escrevi.

No fundo, escrevi sobre o que me apeteceu e da maneira que me apeteceu, mania em perigo e em desuso. Eventuais ofendidos são um bónus.