Congresso do PSD

O PSD está uma coisa muito deprimente

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A disputa pela liderança do PSD lembra um penoso regresso ao passado, uma disputa fulanizada sem propostas diferenciadoras e sem a capacidade de dizer ao país o que ele precisa de ouvir. E quer ouvir.

Deve haver poucas coisas mais deprimentes do que a actual corrida à liderança do PSD. Pela ausência de ideias novas, pela vetustez dos protagonistas, pelo desinteresse do país, pela percepção de que ali não há alternativa credível ao actual estado das coisas.

Nem sei bem por onde devo começar, pelo que começo pelo óbvio: quando uma corrida à liderança do maior partido da oposição é reduzida, pelos próprios, a uma espécie de concurso para saber quem pode ser melhor a ganhar eleições fica-se de imediato com a ideia de que apenas estamos a debater quem é o mais capaz para as perder por pouco – o que é em si mesmo uma receita para perder por muito.

Há quem defenda que a política é hoje quase só um jogo de personalidades, mas defendê-lo é não perceber nada do que está a mudar na política. É não perceber que todos os fenómenos eleitorais recentes, do americano Trump ao britânico Corbyn, do francês Macron à catalã Arrimadas, resultam não apenas da singularidade dos seus protagonistas, mas sobretudo de protagonizarem projectos políticos fortes e afirmativos que despertaram o entusiasmo de certas faixas decisivas do eleitorado. Mais: como estes exemplos demonstram, isso tanto pode acontecer nos extremos do espectro político e ser detestável, como surpreender exactamente naquele centro onde se costuma dizer que se ganham e se perdem as eleições e ser magnífico.

Nem Rui Rio nem Santana Lopes parecem ter percebido que procurarem apenas surgir como políticos bem-comportados, responsáveis e experientes não serve para nada. Tal como não serve para nada deixarem cair umas frases soltas bombásticas (como as de Rio sobre as “doenças do regime”) mas falhas de substância. Tal como ainda é menos produtivo tratarem de se posicionar por referência a Passos Coelho, pois isso apenas os deixa prisioneiros de um jogo de lealdades ou ressabiamentos cuja exibição pública pelas duas candidaturas chega a ser penoso.

Eu sei que o ponto de onde ambos partem não é fácil. Nos últimos anos o PSD deixou-se aprisionar num discurso que valorizava (justamente) a coragem, determinação e rigor com que governara o país nos anos da troika, reconduzindo-o a uma trajectória de crescimento e emprego, mas que ao mesmo tempo dependia de as coisas correrem mal ao Governo para demonstrar que o PS não se libertara da sua congénita tendência para a irresponsabilidade orçamental. Fazendo eu parte daqueles que estão convencidos que as escolhas da geringonça não só não asseguram crescimento económico sustentado no futuro como, num prazo que pode ser mais longo ou mais curto, acabarão por revelar-se desastrosas também a nível orçamental, não creio que seja uma boa estratégia de oposição ficar apenas à espera que António Costa prove o fel das dificuldades no dia em que a factura das “reversões” deixe de estar coberta pela folga dada pelos juros baixos (suportados pelas políticas do BCE) e por um crescimento económico quase exclusivamente dependente do turismo e da procura externa.

Acontece porém que, escutando o que os candidatos à liderança do PSD nos têm para dizer, não se vê como possam eles extrair o partido dessa armadilha, desta espécie de beco sem saída. Não porque não tenham razão nas críticas que fazem às políticas da geringonça e às suas opções orçamentais, mas porque as escolhas do país não são, não podem ser, apenas entre a austeridade dos impostos directos (a de Vítor Gaspar) e a austeridade dos impostos indirectos e das cativações (a de Mário Centeno). A escolha é, ou devia ser, entre um país centrado no que faz e oferece o Estado, e portanto prisioneiro de todas as suas clientelas e dependente dos seus serviços, e um país com mais fé nos portugueses e no seu engenho, mais livre e, por isso, mais aberto à mudança, ao risco e à inovação.

O primeiro sinal de que tanto Rui Rio como Santana Lopes têm as cabeças presas a referências do passado é a sua insistência na chamada “matriz social-democrata”. Claro que estamos a falar de um partido chamado PSD, claro que estamos a falar do partido fundado por Sá Carneiro, mas 2017 não é 1974 ou mesmo 1980. Arejem as cabeças e não finjam que o mundo não mudou com Thatcher e com Reagan. Abram os olhos e percebam que até a esquerda socialista é outra coisa depois de Clinton e Blair. Não façam de conta e percebam que, na Europa, se sentam ao lado dos cristãos-democratas e já se sentaram entre os liberais. Deixem de ter complexos e afirmem as diferenças em relação ao PS em vez de se sentirem bem no “centro-esquerda”, como se o país tivesse apenas como escolha socialistas ortodoxos e socialistas envergonhados.

Há quem no PSD dê indicações interessantes sobre as linhas de fractura com o PS – e não apenas com o PS da geringonça. Quem defenda, por exemplo, que o partido deve ser pela igualdade solidária, e não pelo igualitarismo social, que deve acreditar num Estado social que liberta, autonomiza e responsabiliza o cidadão e não num Estado social que o cativa, condiciona e infantiliza. Quem acredite que a exigência na educação pode tornar os cidadãos mais iguais em vez de presumir que o facilitismo os trata por igual, tal como defenda que a família e a comunidade devem guiar a educação em vez de ser o Estado a formatá-la. E por aí adiante, já que estas frases estão todas, quase palavra por palavra, num artigo recente de Paulo Rangel, um artigo que era quase um manifesto da candidatura à liderança do PSD que afinal nunca existiu.

O problema é que cada um destes pontos necessita de ser concretizado e defendido com convicção. O problema é que por trás desta visão há uma ideia liberalizadora do papel do Estado e, no PSD e no país, tem-se horror à palavra liberal. O problema é que o PSD (ou pelo menos o aparelho do PSD) está hoje quase tão colado ao Estado como o PS. O problema é que um país envelhecido, dependente e temeroso como Portugal é um país que receia mudanças, é avesso ao risco e onde boa parte da população mais depressa tem inveja de quem triunfa do que está disposta a tentar a sua sorte.

Sempre defendi, mesmo nos anos mais duros da troika, que no discurso do governo de então havia medo de assumir que ao país não bastava ser mais poupado e mais contido – precisava de ser diferente. E ser diferente implicava pensar de forma diferente a relação do Estado com os cidadãos. Num país com muitos pobres a questão não é querer menos Estado social, é defender um Estado social onde o sector público partilhe mais responsabilidades com a sociedade civil (o que incluiu as empresas e o sector social) em nome de uma maior eficiência e de mais liberdade. Da mesma forma que num país já cheio de burocracia e de regras não se deve ter medo de descomplicar fazendo desaparecer regulamentos em vez de pensar que tudo se resolve colocando um “simplex” por trás de cada nova complicação.

Podia continuar a multiplicar os exemplos, mas não vale a pena sequer abrir um debate se não se tiver consciência que num país onde a direita é quase tão estatista e dirigista como a esquerda fazê-lo implicará sempre percorrer o caminho das pedras. Mas se nunca se começar a fazer um discurso político diferente é que nunca sairemos da actual pasmaceira e desta tonta concorrência entre partidos feita apenas de uma mistura de promessas e de juras de rigor orçamental.

Infelizmente nem Rui Rio nem Santana Lopes parecem querer ir buscar a Sá Carneiro aquilo que realmente o diferenciava, e que não era a adesão a uma social-democracia que à época significava algo bem diferente do que significa hoje. E o que o diferenciava era a férrea vontade reformista, a coragem de fazer rupturas e acreditar mais nos portugueses do que nas suas elites bem-pensantes e temerosas.

Infelizmente, repito, o PSD de hoje é uma coisa muito deprimente.

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