Depois da anexação da Crimeia pela Rússia e da desestabilização da situação na Ucrânia, os sonhos de alguns geopolíticos russos começaram a tornar-se cada vez mais audaciosos e ambiciosos, indo já de “Lisboa a Vladivostok”.

A ideia da criação de uma zona de segurança europeia de “Lisboa a Vladivostok” foi avançada por Charles de Gaulle e relançada em Junho do ano corrente pelo Presidente russo Vladimir Putin.

Mas alguns geopolíticos russos têm uma interpretação muito especial dessa ideia. Em 2007, Mikhail Iuriev, presidente da Liga dos Industriais da Rússia, publicou um livro – “Terceiro Império” – onde, entre outras coisas, preconiza a divisão do mundo em cinco “continentes civilizacionais”: Império Russo (Eurasiático) de Lisboa até Vladivostok, Federação Americana do Alasca até ao Cabo Horn, República Celestial do Tibete até à Nova Zelândia, Califado Árabe, que inclui a África, e Confederação Indiana.

Isto poderia parecer um simples delírio, mas não é, pois o texto do citado livro voltou a ser publicado em partes pela revista Odnako (Todavia). Esta revista, acabada de sair para as bancas, é dirigida por Mikhail Leontiev, porta-voz da petrolífera Rosneft, uma das maiores empresas públicas da Rússia, que patrocina também essa edição dedicada à geopolítica e ao papel de Moscovo na futura partilha do mundo.

Eis apenas um extrato: “O Império Russo ocupará o território da Euroásia histórica: quase toda a União Soviética (sem algumas das repúblicas da Ásia Central) mais a península à esquerda no mapa, chamada Europa”.

Mas já que estamos com previsões, é curioso ler na página em língua portuguesa da Voz da Rússia, órgão de propaganda oficial russa, o artigo “Início de cenário catastrófico marcado para o ano 2016”. Segundo a autora Natalia Burkova, “o nome da vidente cega búlgara Vanga é um exemplo ilustrativo de previsões que se concretizaram. Alguns consideram que mais de 80% do que previu aconteceu. Principalmente, de acordo com as suas previsões, a Rússia voltaria a ter poder com o “príncipe Vladimir”, o que condiz perfeitamente com o nome de Vladimir Putin”.

Numa entrevista publicada este domingo (23-11-2014) pela agência russa TASS, o actual Presidente russo não excluiu a possibilidade de se vir a recandidatar a um novo mandato de seis anos em 2018.

Não acredito muito em futurologia, mas preocupa-me o facto de os adeptos da messiânica teoria “Rússia – Terceira Roma” ou de outras teorias claramente expansionistas como, por exemplo, a “defesa do mundo russo”, estarem cada vez mais presentes na vida política e nas estruturas do poder da Rússia.