O conceito ”rigor”, outrora conceito-chave dos meios de comunicação social, não passa hoje de uma vaga ideia à qual já não se dá o devido valor. Aquele que não se guiar por esse princípio, estará, inevitavelmente, a caminhar para uma sociedade medíocre e pouco desenvolvida. Quando a falta de rigor, informação desleal e a falta de transparência se cruzam, atingimos uma fatalidade ainda maior: a tentativa de alteração da realidade, por outras palavras, o revisionismo histórico.

Sim, o revisionismo histórico é real e há muitos exemplos que o confirmam.

No passado dia 21 de novembro, no decorrer de uma conferência de luta contra o anti-semitismo, o actor Sacha Baron Cohen, afirmou que se o Facebook existisse na década de 1930 este teria permitido que Hitler publicasse anúncios a promover a “solução final” de judeus – um ataque à rede social por permitir que sejam colocados a circular anúncios de carácter político, mesmo que estes sejam falsos e transmitam ideias de ódio. Sacha Cohen esteve bem em levantar este problema. Contudo, se mudarmos para os meios tradicionais de difusão de informação, entenda-se revistas, jornais ou panfletos, também estes veiculam informação tendenciosa, mesmo que (por vezes) essa não seja a intenção. Ainda assim, este quadro não é exclusivo da comunicação social ou das redes sociais.

Quem frequentar a linha de metro de Lisboa é provável que se confronte com o mural da Associação 25 de Abril (na paragem Baixa-Chiado). No mural é possível ler uma afirmação duvidosa: esta indica que Portugal foi o país europeu que mais tempo viveu sobre a alçada de um regime ditatorial, mais precisamente entre o ano de 1926 e 1974. Ora aqui está uma afirmação falsa que pretende adulterar factos históricos: antes do ano de 1926 e depois do ano de 1974, vigorou um regime ditatorial na Europa de Leste de 1922 a 1991, conhecido como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Não seria do interesse dos órgãos superiores que administram o Metropolitano de Lisboa agir em conformidade com o conceito de “rigor”?

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Infelizmente o caso não é único. Ainda este ano, durante um programa televisivo, a historiadora Raquel Varela afirmou que o ditador António Oliveira Salazar tinha centenas de milhares de mortes nas suas mãos. Invocou como argumento um modelo militar norte-americano de cálculo de mortes. É sabido que durante o período do Estado Novo existiram (bastantes) momentos de repressão, de censura e de ataques à dignidade humana. Ainda assim não é sério apresentar dados a partir de um grau de (enorme) exagero sem justificação fidedigna. Mais uma vez uma deturpação completa da realidade daquele tempo. Neste caso a situação é mais crítica. Acontece que a Raquel Varela é historiadora e, por isso, deveria saber que todo o historiador tem de fornecer sempre indicações claras das suas fontes. Não foi isso que aconteceu.

Na semana passada, o CDS apresentou um texto que procurava celebrar a data do 25 de novembro de 1975. O texto recebeu votos a favor do CDS, PSD, IL, CHEGA e ainda de 7 deputados do PS — acabando por ser aprovado na Assembleia da República. A questão aqui é muito simples: porque é que existiram votos contra um acontecimento fundamental para a estabilidade de Portugal? Também a resposta é simples: estamos, mais uma vez, perante uma tentativa de revisionismo histórico. Houve uma clara demonstração dos partidos de esquerda de tentar branquear o papel decisivo que o 25 de Novembro teve para a democracia em Portugal. O próprio deputado do PS Sérgio Sousa Pinto afirmou que o seu voto era exatamente contra este revisionismo histórico.

Chegamos a um desfecho complexo. Se não há rigor na informação e pouco ou nada se pode fazer para travar a propaganda (desonesta) a que estamos sujeitos, como é que podemos diferenciar a verdade da mentira e os factos históricos (consensuais) do revisionismo histórico?

Vivemos na época de “Fake News”, da informação tendenciosa e da incapacidade que o indivíduo tem em saber o que é verdade ou não. Nunca poderá ser posta em causa a liberdade de expressão, nem poderá haver lugar para qualquer tipo de censura (mesmo que em busca da veracidade de informação). Ainda assim, é necessário que existam mecanismos que permitam ao indivíduo saber o que é verdade ou não – se entrarmos num mundo sem rigor científico, literário ou de factos, rapidamente cairemos em desgraça. A propaganda deve servir para o bem comum e não para difundir mentiras. É imperativo apelar ao bom rigor da informação e à sua transparência.

Devemos ser sérios e verdadeiros. Transparência é sinal de progresso e equilibro. Não podemos em momento algum compactuar com aqueles que querem modificar acontecimentos autênticos em conveniência de certas vontades.