Rádio Observador

Comunismo

O verdadeiro encanto do comunismo soviético

Autor
772

O apelo do comunismo soviético assentou no culto messiânico do poder de um Estado absoluto e "científico". O comunismo soviético morreu, mas o culto que explica o seu apelo ainda não.

Hoje, tudo pode parecer inacreditável. Há cem anos, em plena I Guerra Mundial, uma seita de revolucionários profissionais, sustentada pela Alemanha, derrubou o governo da república democrática russa em Petrogrado. Como foi possível interpretar esse golpe como uma “revolução de massas contra o czarismo”? Os bolchevistas impuseram uma ditadura implacável. Como foi possível ver nesse despotismo a “emancipação da humanidade”? A União Soviética causou alguns dos maiores desastres humanitários e ecológicos da história. Como foi possível confundir essas calamidades com um “futuro radioso”?

Esteve a verdade escondida entre 1917 e 1991? Não, nunca faltaram provas e testemunhos da tirania comunista, nem sequer arquivos inteiros, como os que Merle Fainsod, em 1958, explorou no clássico Smolensk under Soviet Rule. Em 1976, a partir das estatísticas do comércio externo (as únicas que não estavam falsificadas), Emmanuel Todd previu o colapso de uma União Soviética com o perfil económico de um país do Terceiro Mundo, a exportar matérias-primas em troca de tecnologia e de capitais. A verdade esteve sempre à mostra. Mas enquanto foi poder, o comunismo soviético teve crentes, e ainda hoje os tem, porque não se dissipou de todo a pegada desse poder. O poder: eis a chave de toda esta história.

Se algo distinguiu Lenine na tradição revolucionária, foi a prioridade dada ao assalto e uso da maquinaria do Estado moderno. Era esse o meio para fazer revoluções. Nunca, por isso, perdeu um segundo com utopias. Ninguém o retratou tão bem como Alexandre Soljenitsin, na narrativa Lenine em Zurique: laborioso, céptico, sarcástico, sem ilusões, sem benevolências, compenetrado de que uma revolução era, antes de mais, uma questão de arranjar dinheiro para pagar aos revolucionários. A revolução soviética foi a primeira a ser feita por uma elite militarizada, burocrática e pretensamente “científica”, para quem a ideologia consistia, de facto, numa técnica: a técnica da conquista e acumulação do poder numa sociedade, aproveitando e provocando “crises e contradicções”. Nenhum princípio alguma vez limitou os comunistas. A democracia, que reivindicavam na oposição, era apenas uma etapa para a conquista do poder; o igualitarismo socialista, que invocavam no governo, um pretexto para a concentração do poder no Estado. Nunca coerência ideológica obstou a que mudassem de políticas, nem camaradagem partidária os impediu de se torturarem e matarem uns aos outros.

O comunismo soviético foi acima de tudo uma tecnocracia. Talvez nunca tenha enganado realmente ninguém. O que conseguiu foi fascinar muita gente com o espectáculo real ou imaginário da sua disciplina e mobilização. Por alguma razão, os desfiles militares à prussiana e a exibição de armamento tornaram-se a sua liturgia central. A muitos dos que tinham sido educados, desde o século XIX, no culto messiânico da ciência, da tecnologia, e do Estado, a encenação do poder soviético pôde parecer a consumação do “progresso”. Para aqueles que detestavam a “sociedade burguesa” ou o “imperialismo americano”, a URSS como “super-potência” foi, sobretudo depois da derrota do nazismo alemão, a alternativa e contrapeso. O que importava o Gulag perante tudo isso?

O poder foi a única paixão comunista. Para o conquistar ou preservar, os comunistas estiveram dispostos a tudo. Pactuaram com os nazis, negociaram com os americanos, adoptaram até o capitalismo (na China, por exemplo). Houve só uma coisa a que os regimes comunistas nunca se adaptaram: a democracia liberal. A pluralidade, a discussão, a alternância, o império da lei eram naturalmente incompatíveis com a sua concepção de um Estado absoluto e “científico”. E foi o encanto desse poder e a ilusão das suas possibilidades que desde 1917 predispuseram tanta gente a fechar os olhos à verdade e a deixar-se “enganar”. Não nos enganemos nós, portanto, sobre o verdadeiro encanto do comunismo soviético, porque se o objecto desse encanto morreu, não morreu a predisposição da humanidade para se deixar encantar.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O país onde a política morreu /premium

Rui Ramos
165

As más finanças, a estagnação económica e o envelhecimento demográfico tiraram oxigénio a tudo o que relacionávamos com direita e esquerda em Portugal. Há apenas governo e oposição.

PCP

PCP: partido liberal falhado?

José Miguel Pinto dos Santos
513

Será então que a proposta eleitoralista de taxar depósitos acima de 100 mil euros um desvio liberal de um partido warxista? De modo algum. Não só é iliberal como irá agravar a próxima crise económica.

Liberdades

Liberdade para bons vs liberdade para os maus

Vicente Ferreira da Silva
159

Nazistas, fascistas, marxistas e trotskistas acontece serem todos inimigos da liberdade e da democracia. Hitler e Mussolini tinham mais em comum com Marx e Trotsky do que com qualquer pensador liberal

Crónica

E se o nosso futebol fosse gerido por comunistas?

João Pestana de Vasconcelos
1.496

Se aplicássemos as ideias comunistas ao futebol português, deixaríamos as boas intenções de ajudar os mais desfavorecidos arruinar a sua competitividade. Porque havemos de as aplicar à nossa economia?

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)