Escolhemos, ou escolheu a maioria, que parte significativa dos recursos libertados pela dieta da troika, a descida dos juros e a recuperação da economia fossem canalizados para reverter os cortes salariais na administração pública e a tributação extraordinária das pensões mais elevadas, assim como para reduzir o horário de trabalho – equivalente a um aumento salarial. Ao mesmo tempo escolhemos, ou escolheu a maioria, sem nos darmos conta ou sem nos avisarem, as cativações de despesa e o adiamento de investimentos em cima de adiamentos que datam, pelo menos, do início da crise em 2008.

Quando o primeiro-ministro diz que não é possível dar tudo a todos já está a dizer que fez escolhas. Escolheu dar tudo a alguns, sacrificando outros porque quis, e bem, manter a disciplina orçamental. A questão aqui é se fez as escolhas que melhor servem o desenvolvimento do país. E, neste contexto, coloca-se actualmente o problema essencial do combate às desigualdades, que são muito mais do que as do rendimento. Há desigualdade no rendimento, mas também no território, no acesso a serviços públicos fundamentais, como a saúde ou o transporte público, no tratamento diferenciado entre funcionários do sector privado e público ou ainda entre pensionistas com reformas elevadas e trabalhadores no activo.

Quando a equipa de chefia do hospital pediátrico da Estefânia se demite, como aconteceu esta semana, aquilo a que estamos a assistir é a um efeito de escolhas políticas. Preferiu-se repor rapidamente os salários e reduzir horários de trabalho, sem garantir que existiriam recursos para aumentar o número de médicos ou enfermeiros, quer porque se reduziram com a grande crise de 2008 a 2013 quer porque aumentou a procura de serviços de saúde.

Quando se assiste a mais um incidente nas ligações fluviais entre o sul do Tejo e Lisboa, como aconteceu esta semana no Seixal que tem apenas dois barcos e um está avariado, estamos a ver o efeito de escolhas na aplicação dos recursos escassos do Estado. Catarina Martins tem razão quando diz, como disse no último debate quinzenal, que “há gente que desespera para ir trabalhar e regressar a casa”. Mas ao apresentar a redução dos passes sociais como uma conquista engana-se. Sendo uma medida justa, essa redução do preço acaba por ser paga pelos que andam em alguns transportes públicos com tempo, desconforto e até risco. O tempo que perdem à espera, o tempo que não estão a trabalhar ou com a família. E são apenas alguns que o pagam porque para outros, os que vivem no centro da cidade, a oferta é muita e diversificada – de bicicleta aos novos autocarros da Carris.

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