Estas eleições seriam sempre para a direita perder. Mesmo com líderes catitas e apreciados pelo seu eleitorado. Porém, não precisávamos de estar neste estado de pré-calamidade a ver se PSD e CDS têm os piores resultados de sempre ou se conseguem escapar com mais 2 ou 3%. Afinal António Costa é muito pouco gostado – mesmo se conseguir uma maioria absoluta, ficará pelos 40% de votos ou um bocadinho menos.

Verdade: PSD e CDS até poderão beneficiar de algum voto útil anti maioria absoluta – porque votar nas novas agremiações à direita, cada uma mais suspeita que a outra, é tirar votos a quem pode eleger deputados (PSD e CDS). Em todo o caso, convém darmos uma volta pelos equívocos em que a direita se passeou até aqui.

Primeiro equívoco. Não se perceber que o país cresceu, o desemprego baixou, as contas públicas continuaram controladas. Quem está num partido tende a residir numa bolha desfasada da realidade, e os apoiantes trauliteiros das redes sociais são um primor de sectarismo. Mas os partidos à direita andaram e andam por aí aos gritos como se estivéssemos à beira de um abismo. Primeiro gritaram que vinha o diabo. Depois, austeridade (sim, e então? Toda a gente sabe e está habituada há dez anos pelo menos). A seguir que o PS destruiu os serviços públicos – que dantes, sugerem, funcionavam com eficácia de relógio suíço.

O PS não fez reformas? Vamos acender incensos para louvar os deuses. Quem é que queria que o PS fizesse reformas com o apoio do BE e do PCP? Esteve quieto (quase sempre) a regar as contas públicas e foi o que fez melhor.

Incêndios de 2017? Passos Coelho ficou calado ou a falar de suicídios inexistentes, Assunção Cristas demorou a acordar. Nepotismo florescente no governo? Foi mais a comunicação social que a oposição a protestar. Mas resolveram gritar como se num cenário apocalítico – enquanto as pessoas vivem normalmente, tendo vivido já pior, e se questionam o que ingeriram estes sofredores de apoplexia.

Segundo. Não entenderam que em 2015 PSD e CDS tiveram uma vitória poucochinha – não, não foi ao som de trombetas. Não entenderam que a passividade com que toda a gente aceitou a geringonça demonstrava pouca saudade da coligação. Não entenderam que – por muito injusto para quem não foi autor da bancarrota – a governação durante a troika foi traumática para o país, com dificuldades atrozes para famílias e empresas, de uma forma que no PSD e CDS parecem não vislumbrar o alcance. Não está sarado.

Por fim, não entendem por que diabo os descontentes que já votaram PSD e CDS afinal vão votar no PS e no PAN (ou abster-se) – em vez de irem votar nas novas agremiações. Os eleitores são tão, tão à direita, tão conservadores e tão sensíveis às casas de banho e à ideologia de género – que vão votar à esquerda ou no PAN.

Terceiro. CDS e Cristas. Depois de ter conquistado o eleitorado lisboeta com um discurso pragmático e pouco ideológico – mobilidade, habitação e assistência social às populações vulneráveis – e de se mostrar uma mulher moderna, partidária das quotas e por aí, Cristas prometia ser a líder da direita moderna e urbana. Mas às tantas entenderam cavalgar a onda populista e ultraconservadora, acreditando que lhes traria muitos votos. Nuno Melo mostrou apego ao Vox espanhol, disse coisas trauliteiras sobre imigração, fotografou-se com armas. Cristas pronunciou-se contra umas passadeiras arco-íris numa freguesia de Lisboa. Perante um viral manifesto obscurantista de uma senhora do CDS à volta dos direitos das mulheres (que foi generalizadamente odiado na direção do partido), a presidente não entendeu que tinha de se distanciar do que ali era dito, permitindo que ficasse associado ao CDS. As figuras do líder da JP com o magno assunto casas de banho foram indigentes. E, em cima, a crise da contagem do tempo dos professores.

Resultado? O eleitorado reacionário não gosta de Cristas e continuou a não gostar. A direita urbana que votou nela em Lisboa não se revê nestas derivas do tempo da outra senhora e foi para outros lados.

Quarto. Rui Rio – que curiosamente em termos de ideias está apelativo – preferiu fazer oposição ao seu grupo parlamentar, em vez de ao PS, e desprezar ostensivamente o eleitorado lisboeta. Até lhe custa vir tão a sul. Para quê? Afinal na área metropolitana de Lisboa só mora 30% do país. A ninharia de dois milhões de votos. Não há problemas nenhuns da população a conhecer, nem discursos a testar e afinar, menos ainda votos a ganhar. Ficará contrariadíssimo por ter de se deslocar abaixo do Mondego se eleito deputado para a Assembleia da República. Esse local cheio de gente sem qualidade, diz-nos, num ótimo convite à abstenção. Os eleitores provavelmente aceitarão o repto.

Quinto. Nem temos sorte com as novas forças políticas. A Aliança é um projeto para dar emprego político a Santana Lopes, nada mais. A IL é uma brincadeira de miúdos – no twitter há quem lhes chame ‘gestores de mesada’. Além do profundo conservadorismo (vários deliraram com o dito manifesto obscurantista do ponto terceiro), querem destruir o estado social. Bom, destruir para os outros, os mais pobres, porque para os membros da IL (e semelhantes) pedem que estado lhes pague cheques-escola e garanta seguros de saúde públicos como a ADSE. Entre outras originalidades. A IL só existe porque foi insuflada pelas pessoas do PSD e CDS que querem dar às atuais lideranças maus resultados. (Se houver maioria absoluta do PS, agradeçam também a estas almas.) O Chega, bem, não preciso de dizer nada, certo? Sempre nos rimos com o programa plagiado, as medidas repetidas para fazerem número e os erros ortográficos.

Cristas e Rio estiveram francamente bem nos debates e entrevistas da pré-campanha. Foi uma pena que tenham desperdiçado tanta boa vontade, com erros crassos e acumulados, antes disso. Temos de votar neles – contrariar a maioria absoluta oblige – mas na verdade merecem vergastadas dos eleitores.