Pesam-se os tempos presentes e a impressão que se tem é a de um retorno à adolescência quase generalizado, com o seu cortejo de inferioridades, idiotices e atavismos. Inferioridades na relação com Bruxelas, por exemplo, com, aqui e ali, um estilo género Syriza, a esticar a corda num bluff que não engana ninguém e que só nos pode fragilizar ainda mais. Idiotices como aquela mania engraçadista do Bloco de Esquerda, que tem uma paixão tristemente não correspondida pelo humor. Atavismos como os daquelas criaturas que saem ciclicamente das catacumbas do PS para a luz do dia e que se põem, como um senhor chamado Ascenso Simões, a chamar “fascistas” aos outros (no caso, ao eurodeputado Paulo Rangel).

O espectáculo, mesmo aquém dos medos legítimos que inspira, tende para o deprimente. O Governo, no entanto, acha tudo óptimo e vê à sua e à nossa frente um futuro radioso. Afinal de contas, a “austeridade” acabou, não foi? Tudo vai mudar para melhor. E é claro que o Governo tem todo o direito de pensar assim. Mas, se quer pensar assim, pede-se um pouco mais de arrojo. Há uma timidez que não lhe fica bem. A acção governativa exige metas mais vastas. Seguem-se algumas sugestões, colhidas em vários utopistas, à atenção dos nossos ministros.

Primeira sugestão. Declarar que, com o novo sistema de ensino, uma criança de três anos se encontrará já em condições de desenvolver vinte vocações diferentes, uma de quatro anos e meio poderá lavar cento e vinte pratos em meia-hora sem partir um só, e uma de sete anos praticará já trinta ofícios diferentes. Em plena alegria e sem exames, como quer, com toda a razão, Catarina Martins. O novo sistema educacional permitirá ainda que as crianças possuam uma fineza auditiva superior à dos rinocerontes e dos cossacos. E os adultos poderão compor, no mínimo, três sonatas por hora.

Segunda sugestão. Proclamar que os intelectuais e os artistas recolherão em breve infindáveis vantagens pecuniárias na perfeita sociedade pós-austeritária que se está a realizar: vinte ou cem vezes – uma estimativa baixa – o que ganham na sociedade actual.

Terceira sugestão. Garantir que uma nova uniformidade social, a realizar-se em todos os domínios, conduzirá os portugueses à paixão pelas formas geométricas e os levará a deixar muito para trás a “geração mais bem preparada sempre”. Tal paixão pela geometria manifestar-se-á até no plano da alimentação: os portugueses comerão as costeletas de cordeiro cortadas em triângulos equiláteros, a carne de vaca em forma de rombóides e serão apenas vendidos chouriços com forma cicloidal.

Quarta sugestão. Tendo em atenção que a paixão matemática pode levar certos indivíduos a fazerem contas e, assim, a se inclinarem perigosamente para o neoliberalismo, instituir-se-ão simultaneamente Colégios da Desrazão. Nos Colégios de Desrazão ensinar-se-á que o génio e, mais modestamente, todo o pensamento original, é pura e simplesmente ofensivo, e deverá ser militantemente desencorajado. Competirá a cada um pensar como pensam os seus vizinhos. Um venerável Professor de Sabedoria Mundana coordenará todos os trabalhos. Será nomeado em função de um critério único: o de ter feito todo o possível, mais do que qualquer outro ser humano vivo, para suprimir toda a espécie de originalidade. A competição entre os estudantes será, é claro, desencorajada, e uma insuficiente vagueza nas respostas aos exames será considerada matéria suficiente para reprimenda. Se um homem chegar a saber mais do que os seus vizinhos, deverá guardar esse conhecimento para si, até os ter sondado e ter visto que eles concordam, ou são supostos concordar, com ele.

Quinta sugestão. O Governo deve-nos oferecer uma imagem viva do dia-a-dia do tempo novo pós-austeritário do ponto de vista de cada cidadão individual. Eis uma possibilidade. Imaginemos um qualquer cidadão. O cidadão António, por exemplo. António acaba de ter sucesso junto da mulher que cortejava. É um prazer para os seus sentidos e para a sua alma. Ela transmite-lhe no instante seguinte uma patente lucrativa que lhe havia anteriormente obtido: um segundo prazer. Um quarto de hora depois, dirige-o ao salão onde o esperam surpresas agradáveis, o reencontro de um amigo que ele julgava ter morrido: terceiro prazer. Pouco depois, entra um homem célebre, Camões ou Fernando Pessoa, que António desejava conhecer e que vem jantar: quarto prazer. Depois, um jantar magnífico: quinto prazer. António encontra-se sentado ao lado de um homem poderoso, que com o seu crédito o pode ajudar e que a isso se compromete: sexto prazer. No decurso do jantar, chega-lhe uma mensagem que lhe anuncia que ganhou um processo: sétimo prazer. Tudo isto deverá ser apresentado como uma sucessão de acontecimentos absolutamente trivial, e ao alcance de qualquer um, no tempo novo.

Sexta sugestão. Todas estas conquistas, e muitas outras que poderiam aqui ser acrescentadas, deverão ser convenientemente celebradas. Organizar-se-á uma festa cívica. A música será central. Compor-se-á um Hino ao Tempo Novo, cantado simultaneamente por vários coros (digamos: duas mil e quatrocentas pessoas). Terminado o momento musical, António Costa, acompanhado por Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, discursará sobre a purificação da terra que havia sido conspurcada pelo neoliberalismo e lembrará a indissociabilidade da liberdade e do socialismo. Dirigir-se-á em seguida para um grupo de estátuas de papelão simbolizando o Neoliberalismo, o Egoísmo e o PSD e deitar-lhes-á fogo. Do grupo destruído, surgirá uma bela estátua, a estátua da Sabedoria Socialista.

É claro que este exercício contém em si um certo risco. O de as promessas não poderem ser cumpridas e de as pessoas começarem a dizer: “Vocês começam a chatear-nos com essa do tempo novo!”. Mas, enfim, o que vale uma vida sem riscos? E um pouco de exagero nunca fez mal a ninguém.