Suspiro pelo dia em que alguém se decida a escrever um elogio da reactividade em política. Se calhar já foi feito, quase de certeza que sim, e eu não sei. Sei, é claro, que há uma vasta literatura que toca, directa ou indirectamente, no tema. Mas não me lembro de nada que lhe seja inteiramente consagrado. E é pena. Porque muitos dos reflexos políticos mais legítimos são de natureza puramente reactiva. Era em parte a isso que Raymond Aron se referia, creio, quando dizia que em política não se escolhem os amigos: escolhem-se os inimigos.

Não estou a falar, bem entendido, de uma reactividade passional, mais primitiva ou mais elaborada (há elaborações que são muito passionais, apesar das aparências). Estou a falar de uma reactividade fundada nalguma reflexão, nalguma observação da realidade, nalguma imparcialidade – que podem todas elas conviver com uma certa dose de ideologia (termo equívoco, mas que não é pecado usar), desde que o elemento ideológico seja uma espécie de cristalização, momentânea e revisível, de um certo número de ideias e não um tijolo para atirar à cara do vizinho estupidamente discordante de nós.

Isto vem a propósito dos sentimentos inspirados pela velha paixão socialista pelo controlo do Estado sobre a sociedade, bem representada por uma parte das perversas “reversões” que António Costa, como se sabe, anda a organizar e que se arriscam a contribuir, e muito, para as novas catástrofes futuras que nos esperam. TAP, transportes públicos de Lisboa e Porto, e coisas assim. Não quero com isto dizer que o desejo do controlo do Estado sobre a sociedade e a regulamentação cada vez mais extensa e minuciosa de tudo seja algo de exclusivamente atribuível a almas de credo socialista firmado. A coisa corresponde a um movimento geral das sociedades, que Tocqueville genialmente já diagnosticou no século XIX. O Estado tornou-se tutelar e regulador dedicado dos nossos mais ínfimos costumes, desde as colheres que usamos às palavras que falamos, passando pelas lancheiras das criancinhas. O império do chamado “politicamente correcto” não foi obra particular de algum antepassado ideológico de António Costa. É mesmo algo que corre subterraneamente pelos rios secretos das sociedades democráticas, em oposição à tradição liberal “de direita” (Tocqueville) ou “de esquerda” (Stuart Mill).

Resta que é efectivamente o pensamento socialista que melhor exprime essa tendência, e que a exprime com mais empenho no que diz respeito à economia, ao ponto de ser quase já a única coisa que o define. O que, se pensarmos, tem algo para nos surpreender. O projecto socialista, se é permitido falar assim, continha em si vários outros elementos que nada, ou pouco, tinham a ver com essa paixão que se tornou quase exclusiva. Continha, entre outras coisas, uma reflexão sobre a justiça que, quaisquer que fossem os seus méritos e deméritos no conflito entre várias concepções da justiça, um conflito que nunca acabará, correspondia a uma preocupação real e que levou muita gente a aderir ao socialimo e até ao comunismo. Ora, tudo isso desapareceu, salvo nominalmente, em benefício exclusivo do estatismo. Culpa do marxismo, que se pretendia uma ciência da história, onde o estatismo, sob a simpática forma da “ditadura do proletariado”, era, de facto, central? Em boa parte, muito provavelmente. E do leninismo, inteiramente ocupado pela fabricação do Partido-Estado? Sem dúvida nenhuma.

Mas, que eu saiba, Costa e os seus, entre os quais Mário Centeno, que, numa entrevista televisiva, declarou ser a sua participação no governo uma “aventura intelectual” (uma “aventura intelectual”, meu Deus!), não são marxistas-leninistas. São só pobres socialistas. Pobres socialistas que, levados pelos obscuros movimentos psíquicos ditados pelo seu espírito aventureiro, se preparam, através das ditas “reversões”, para contribuir alegremente para um aumento exponencial de injustiça na sociedade portuguesa, como se a actual não fosse já bastante. Porque, não tenhamos dúvidas, e vale a pena repeti-lo, maior injustiça virá aí. Em primeiro lugar, porque, na situação tão débil em que vivemos, os enormes custos judiciais das “reversões”, juntos aos efeitos de outros disparates, vão provocar abalos que nem se contam e que se sentirão durante muito tempo – e senti-los-ão com mais força os mais pobres e indefesos. E, em segundo lugar, e partindo do princípio que elas serão de facto levadas a cabo, não só perpetuarão como agravarão o poder de certas corporações sobre o grosso dos cidadãos inermes. Catástrofe conjuntural e catástrofe estrutural, por assim dizer.

O que levou então o Partido Socialista de António Costa a declarar uma tal guerra à justiça – e é mesmo de uma guerra à justiça social que se trata, sob a capa de uma sua reivindicação – e a fazer missão sua trazer-nos de volta aos idos de 2011? A aliança parlamentar com o PCP, é claro, que o obriga às cedências à CGTP nos transportes públicos, por exemplo. E, sem dúvida, as tradicionais reclamações do pessoal político da casa, cuja plena satisfação exige certas benesses que as “reversões” prometem (nada de particularmente próprio ao PS ou às circunstâncias, neste caso). Mas, e talvez seja idealismo da minha parte, haverá uma ou outra explicação a acrescentar que não seja de teor unicamente negativo. E se houvesse uma real ilusão naquelas cabeças que as levasse a pensar (a tal “aventura”) que ter, por exemplo, uma TAP “nossa” é uma condição imprescindível para a felicidade e a honra do povo português?

O problema é que, se uma pessoa se puser a pensar nessa possibilidade, chega a conclusões ainda mais sinistras do que se nos limitássemos às triviais razões negativas. Porque as ilusões significariam não apenas um perfeito divórcio com os presumíveis sentimentos gerais dos portugueses, mas também um grau de idiotice que desafia a compreensão humana. Alguém deveria explicar a Costa e aos seus aventureiros companheiros que a generalidade dos portugueses, por mais patriota que seja, não se extasia com a ideia de ter um símbolo seu a navegar nos céus. Não lhe aquece nem lhe arrefece. Alguém deveria explicar a Costa e aos seus aventureiros companheiros que a generalidade dos portugueses não compensa as suas angústias e legítimos medos quotidianos com um sentimento vago e indefinível de ser proprietário simbólico dos meios de transporte. Diminui sim o peso dos seus medos e das suas angústias saber que os transportes funcionam bem e não se encontram inteiramente à mercê de corporações que com estupenda regularidade lhes lixam a vida com greves (e sim, há razões práticas, que não precisam de nada de ideológico, para as pessoas se fartarem de greves). Alguém deveria explicar a Costa e aos seus aventureiros companheiros que a generalidade dos portugueses não está disposta a viver muito pior do que vive pelo delicioso prazer de os ter a eles a zelar pela nossa colectiva honra metafísica. Gostaríamos antes que fizessem o seu melhor para evitar que o país voltasse ao triste estado em que José Sócrates o deixou, e que, portanto, abandonassem muito depressa o caminho que Costa decidiu seguir. A generalidade dos portugueses é reactiva, daquela reactividade de que falei no início, e reactiva em relação àquilo que patentemente lhe aparece como irracional e lesivo dos seus interesses.

Ah, é verdade. Essa mesma reactividade vale em cheio para as eleições presidenciais deste domingo. Não é preciso amar sem falhas Marcelo, o dos múltiplos talentos. Para decidir um voto, basta pensar no puro horror que seria ter alguém como Sampaio da Nóvoa como presidente, uma pura máquina de palavras, ao mesmo tempo eclética e categórica, transformada em nosso representante máximo. É uma questão de legítima defesa. Basta, chega e sobra para sair de casa, mesmo que chova e faça vento e frio.