Os regimes políticos na Rússia e na China são diferentes, mas têm traços comuns: o capitalismo de Estado, o expansionismo na política externa, o aumento da repressão interna contra qualquer tipo de oposição, a mentira como uma das maiores armas de propaganda.

A direcção comunista da China mentiu no início da pandemia de Covid-19, o que impediu a tomada de medidas mais antecipadas para combater a doença e permitiu a sua rápida expansão pelo mundo. A direcção totalitária da Rússia gabou-se de estar preparada não só para enfrentar o surto pandémico, mas também para fornecer ajuda humanitária, o que levou à situação lastimável em que se encontra o país.

O regime chinês, violando acordos anteriormente alcançados, limita as mais elementares liberdades aos cidadãos de Hong Kong e atira para o caixote do lixo o princípio de Deng Xiaoping “um país dois sistemas”. Dentro do próprio, faz calar qualquer voz dissonante, venha ela do interior do Partido Comunistas Chinês ou da sociedade.

Na Rússia, o regime de Vladimir Putin, vendo-se perante uma profunda crise devido ao impacto da pandemia e à queda do preço do petróleo e gás nos mercados internacionais, decide fazer calar todos os que tentam denunciar os erros cometidos pelas autoridades na luta contra o Covid-19, falsificar o número de infectados e mortos e atirar umas migalhas das riquezas pilhadas sob a forma de subsídios para que o povo se cale.

A pretexto da pandemia, o Kremlin faz aprovar leis que tornam ainda mais difícil a actividade da oposição, responde com prisões ao mais pequeno sinal de protesto. Em Moscovo foram detidos mais de 20 políticos, jornalistas e cidadãos comuns, tendo um dos jornalistas, Ilia Azar, sido condenado a uma pena de 15 dias de prisão por ter realizado, sozinho, tomando todas as medidas de protecção em tempo de pandemia: utilização de máscaras e luvas, um piquete em frente de uma esquadra da polícia. Os restantes manifestaram-se também separadamente, pois a Constituição da Rússia reza que o piquete solitário não carece de autorização, mas a polícia prende a pretexto de terem violado as regras de auto-isolamento.

Os manifestantes querem apenas que a justiça julgue de forma transparente Vladimir Vorontsov, antigo polícia que, nas redes sociais, defende os direitos dos agentes da polícia e que, foi acusado pelas autoridades de “extorsão” e “publicação de pornografia”.

Médicos e enfermeiros receiam falar nas condições em que trabalham, pois receiam repressões. Alguns que ousaram falar nisso são acusados de difundir “notícias falsas” ou, como aconteceu na Chechénia, tiveram de vir pedir desculpa perante as câmaras de televisão.

Aqui é preciso observar que na Rússia ainda há mais liberdade de expressão do que na China, mas ela é cada vez mais diminuta e plural. E já não é preciso mandar espancar ou assassinar jornalistas, basta que os poucos órgãos de informação sejam adquiridos por estruturas económicas ligadas ao poder, que é o que está a acontecer com os meios de informação russos. Ainda ontem, por exemplo, vários órgãos de informação russos retiraram das suas páginas, por ordem do Kremlin, uma rábula satírica feita pelo popular cómico russo Maxim Galkin sobre o Presidente Putin e Serguei Sobianin, dirigente da Câmara de Moscovo.

E tanto os dirigentes da China e da Rússia tentam sair desta crise como vencedores, como salvadores do seu e de outros povos. Numa situação em que a Rússia ocupa um dos lugares cimeiros quanto ao número de novos infectados por Covid-19, os seus dirigentes já se apressam a anunciar a desconfinação e Vladimir Putin ordena organizar a Parada da Vitória, que se deveria ter realizado a 9 de Maio, no dia 24 de Junho. A seguir, certamente que avançará para a convocação da “votação nacional” que irá perpetuar a sua estadia no Kremlin.

A favor da continuação desses regimes joga o facto de no interior da Rússia e da China não existirem forças da oposição capazes de alterar o que quer que seja.

Além do mais, o chamado Ocidente claramente não tem dirigentes políticos capazes de fazer frente a esses e outros regimes totalitários. O Presidente norte-americano, Donald Trump, é uma caricatura de líder, incompetente e arrogante, incapaz de juntar à sua volta outros regimes democráticos. E não tenho a certeza de que o seu opositor, Joe Biden, será melhor se vencer as eleições no próximo mês de Novembro.

Nesta situação, a União Europeia poderia ter um papel fundamental na criação de um polo de defesa da democracia, mas as contradições internas são muitas e pouco pode fazer sem um forte trabalho conjunto com os Estados Unidos. Não é por acaso que o Kremlin aposta tanto no enfraquecimento da UE.

Isto deveria fazer pensar os dirigentes europeus, porque a desintegração europeia facilitará o expansionismo russo.

2 Não estranha nada o facto de o Partido Comunista Português apoiar regimes como o chinês e russo. Este partido parou no tempo e não sobrevive sem a velha mitologia, sendo incapaz de evoluir. Para o PCP, a China veio substituir a União Soviética como “farol da humanidade”. E, neste caso, até o maoismo, com a sua tenebrosa revolução cultural tem justificação como o estalinismo com o Gulag.

Basta ler o que escreve Gustavo Carneiro, jornalista que pertence ao Comité Central do PCP, no semanário “Avante”: “o fabuloso desenvolvimento do gigante asiático [China] desde a revolução de 1949: os milhões retirados da fome, da pobreza e do obscurantismo, o fulgurante aumento da esperança de vida, a transformação de um país atrasado e dependente numa das maiores potências da atualidade”. Nem uma palavra sobre os muitos milhões de vítimas!

Quanto à Rússia, esta continua a ser um país “anti-imperialista”, “anti-europeu”.