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A primeira maratona de debates presidenciais fica marcada por duelos, uns caóticos, outros mais amigáveis, ataques e contra-ataques, casos, picardias, demagogia e populismo. O fairplay não entrou no ringue.

Os debates presidenciais deviam cumprir o propósito de apresentar e esclarecer propostas dos candidatos aos cidadãos, com profundidade política e interesse público. Correspondem a uma oportunidade para que os candidatos a Chefe de Estado assumam o que pensam e o que projetam para o futuro nacional, numa altura em que o país, e em particular as gerações mais jovens, vivem (mais) um momento de grande dificuldade.

Será justo afirmar que os debates corresponderam à afirmação das diferentes propostas políticas dos partidos que suportam os candidatos e, portanto, mais adequados a um debate de candidatos a chefe de Governo do que a candidatos a Presidente da República.

Recuperar desta crise social e económica passa por transmitir confiança, principalmente aos mais jovens, apontando caminhos para um futuro mais próspero. Uma vez mais, as presentes gerações confrontam-se com um clima de receio e incerteza, ora com dificuldades no acesso ao mercado de trabalho, ora com vínculos laborais precários, ou ainda com dificuldades sociais agravadas pela pandemia. O Presidente da República poderia ser um referencial de confiança para que as presentes gerações assumam um papel central na definição de políticas para a recuperação económica e social de que o país carece! O Presidente da República não se pode conformar com o constante adiamento das realizações pessoais e profissionais dos jovens. O Presidente da República deve juntar a sua voz às dos jovens nas suas legítimas aspirações.

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A somar a uma agenda insuficiente para as novas gerações nas preocupações dos candidatos presidenciais, deve preocupar-nos uma nuvem negra que ameaça a democracia e os direitos humanos. Este foi o tempo de uma campanha onde a discussão sobre os valores essenciais da democracia liberal também estiveram em causa, seja pela dificuldade em impor, pelas ideias, valores que até agora dávamos como adquiridos, seja pela ameaça violenta a progressos sociais que julgávamos sedimentados e que novamente são postos em causa: desde a ameaça à liberdade de expressão, à dignidade humana, ao pluralismo democrático, ao respeito pelas instituições.

A Constituição consagra o direito de igualdade de oportunidades no acesso ao ensino superior e demais condições, para que a educação contribua para a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais. A educação e o ensino superior são, por excelência, o lugar onde recuperamos estes valores. Com base na verdade, no conhecimento, no pluralismo de ideias, na liberdade! Contudo, ainda há muito a fazer para assegurar que mais jovens frequentem o ensino superior e para que os estudantes que se encontram a frequentá-lo atualmente não o abandonem, uma vez que as famílias portuguesas passarão novamente por dificuldades económicas. O país não precisa de mais perdas!

Mesmo sem terem a atenção que merecem, os jovens estão comprometidos e interessados nestas eleições. Um estudo realizado pela FAP (com 1800 inquiridos) revelou que a esmagadora maioria dos estudantes da Academia do Porto pretende participar no sufrágio eleitoral – 94% afirmaram que iriam votar. Mas este mesmo estudo aponta que um em quatro estudantes tem planos de sair do país à procura de rendimentos mais elevados.

É preciso criar espaço de oportunidades para que os jovens e o seu talento possam continuar a acreditar em Portugal.

O próximo mandato do Presidente da República deverá ficar marcado por um diálogo consequente entre a Presidência e as novas gerações. É preciso que o Presidente fale aos mais jovens, mas que ouça também as suas aspirações e que em conjunto construam o futuro de que Portugal precisa.