Em regimes autoritários, uma das grandes qualidades dos vassalos é adivinhar os desejos e caprichos do suserano, mesmo os mais bizarros.

As autoridades russas decidiram proibir a importação de mais de cem produtos médicos na esperança de os conseguir substituir por produtos semelhantes fabricados na Rússia. A proibição vai desde aparelhos de raios-X, desinfectantes, tampões e preservativos.

Não há dúvida de que se trata de um desafio importante, mas que pode acabar por não se realizar totalmente. Por isso, Guennadi Onischenko, antigo director do Sistema de Protecção Sanitária da Rússia e actual conselheiro do primeiro-ministro Medvedev, já veio defender que a falta de preservativos até terá efeitos positivos: “a sua ausência obrigará as pessoas a serem mais disciplinadas, rigorosas e exigentes na escolha de parceiros, e até talvez preste um serviço à nossa sociedade no plano da solução dos problemas demográficos”.

Esta afirmação provocou uma enchurrada de críticas na imprensa e na internet, pois a Rússia continua a ser um dos poucos países no mundo onde o número de infectados com o vírus da SIDA continua a subir. Segundo dados do Sistema de Protecção Sanitária, no dia 1 de Maio de 2015, estavam oficialmente registadas 933 419 pessoas infectadas, o número de mortos aumentou em 24 416 entre 2013 e 2014, ou seja, cerca de 9%. Peritos independentes sobem o número de efectados para 1-1,3 milhões no país.

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As medidas com vista à substituição de produtos importados por nacionais requerem tempo para serem realizadas e a sua realização na Rússia é dificultada por vários factores. A economia russa é muito sensível às variações dos preços dos combustíveis nos mercados internacionais, que, nos últimos tempos, continuam a descer de forma considerável.

Isto, por sua vez, provoca a desvalorização rápida do rublo, o aumento dos preços dos produtos nacionais e estrangeiros e o empobrecimento da população. Segundo dados do Comité de Estatísticas da Rússia, se, no primeiro trimestre de 2014, o número de pobres no país era de 19,8 milhões, no mesmo período de 2015, esse número subiu para 22,9 milhões, ou seja, quase 16 % da população.

Nesta situação, a decisão de destruir os produtos alimentares apreendidos pelas autoridades alfandegárias está a provocar uma onda de indignação na Rússia.

Há cerca de um ano que a Rússia proíbe a importação da maioria dos produtos alimentares dos países que impuseram sanções pelo papel de Moscovo na guerra na Ucrânia. Estes produtos, que eram até aqui simplesmente devolvidos aos países de origem pelas alfândegas, começaram a ser destruídos no local pelas autoridades, quer sejam apreendidos na fronteira ou em lojas.

Na terça-feira, foram incineradas 114 toneladas de carne de porco europeia que foi enviada para a Rússia como sendo proveniente do Brasil. Guennadi Ziuganov, líder do Partido Comunista russo lamentou “uma medida extrema” e o diário económico Vedomosti considerou essa decisão, homologada pelo Presidente Vladimir Putin, uma “barbárie ostensiva” e uma “guerra absurda contra alimentos em período de crise económica”. Mas nem estes protestos, nem o abaixo-assinado na Internet que reuniu mais de 250 mil assinaturas fizeram o Kremlin mudar de ideias.

Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, respondeu assim aos críticos: “no que respeita ao aspecto visual, estou de acordo que essa decisão não está entre as agradáveis. Mas se pensarmos bem, trata-se de contrabando, sem qualquer certificado e ninguém garante que essa produção, que pode ter um aspecto apetitoso, possa ser seguro para a saúde”.

Serguei Dankvert, director do Sistema de Protecção Sanitária da Rússia, dá outra justificação para a decisão de Putin: “se não se destruir, serão criadas mais condições para a corrupção no país. Corrupção e nada mais”.