Médio Oriente

Síria: Afinal a guerra não acabou para o Kremlin

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As famílias dos mortos revelam que os seus parentes eram pagos para cumprir esta nova onda de “internacionalismo proletário”. Por regra são antigos militares que combateram na Chechénia ou nos Balcãs.

O aparecimento de aviões russos cada vez mais modernos nos céus da Síria, como é o caso do “invisível” Su-57, e a morte de um grande número de mercenários russos são sinais evidentes de que Putin se envolve cada vez mais profundamente num conflito sem fim à vista.

Em Novembro do ano passado, Vladimir Putin anunciou o fim da guerra na Síria e a retirada das tropas russas desse país, duas promessas que ficaram por cumprir. Os confrontos continuam a não poupar sequer mulheres e crianças e o Kremlin quase se “esquecia” dos milhares de mercenários russos que lá deixou ficar.

No dia 8 de Fevereiro, Igor Strelkov, antigo “ministro da Defesa” da região separatista de Donetsk (Ucrânia), anunciou a morte de centenas de mercenários russos da empresa de segurança privada “Wagner” devido aos bombardeamentos da aviação dos Estados Unidos na região síria de Deir ez-Zor.

As primeiras reacções das autoridades russas visaram desmentir semelhante afirmação. O Ministério da Defesa, que costuma ser muito operativo em situações menos graves, não abriu a  boca. Maria Zakharova, extravagante porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, considerou que as notícias de dezenas ou centenas de militares russos era “desinformação clássica”, admitindo apenas que morreram cinco civis russos.

Uns dias depois, o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, apela a que não se especule sobre tema, mas faz um reconhecimento curioso: “Que fazem lá [na Síria] cidadãos de França, de Inglaterra, aí combatem mercenários de todo o mundo, tropas especiais que ninguém convidou, por si sós”.

Claro que os mercenários, independentemente da nacionalidade, não perdem uma oportunidade de ganhar dinheiro com a guerra, mas, para a propaganda do Kremlin, na Rússia não há mercenários. Existem sim “homens” que, por vontade própria, desejaram ajudar a população russófona na Geórgia, na Crimeia, no Leste da Ucrânia e, agora, na Síria. Os destacamentos desses voluntários são por vezes comparados às brigadas internacionalistas que combateram na Guerra Civil espanhola de 1936-1939.

É nesta situação que se começa a falar cada vez mais da empresa de segurança privada russa “Wagner”, que, no fundo, não passa de um centro de recrutamento de mercenários, actividade proibida pelas leis da Rússia. Em consonância com as leis do país, as dezenas de “semeadores privados da morte” que ficaram feridos nos combates na Síria deveriam ser detidos à chegada ao país, mas tal não acontece. Foram cuidadosamente transportados para receber assistência médica nos hospitais do Ministério da Defesa da Rússia.

Na foto com Putin, Wagner é o último à direita

Muitas das famílias dos mortos revelam como os seus parentes foram atraídos e eram pagos para cumprir esta nova onda de “internacionalismo proletário”. Normalmente, são antigos militares que combateram na Chechénia, nos Balcãs e no Leste da Ucrânia.

Coloca-se a questão: como é possível que, num país onde a paranoia securitária é cada vez maior, se formem à margem da lei empresas como a “Wagner”?

A resposta é simples: porque são empresas criadas por pessoas ligadas a Vladimir Putin e só fazem isso com a autorização do líder.  No caso da “Wagner”, ela foi criada por Dmitri Utkin, 46 anos, oficial de tropas especiais na reserva. Após abandonar o serviço militar, passou a trabalhar para a Moran Security Group, companhia privada que se especializa da defesa de navios de carga dos ataques piratas.

Tornou-se conhecido por combater ao lado dos separatistas pró-russos no Leste da Ucrânia, onde recebeu a alcunha de “Wagner”, devido ao seu apego à estética e ideologia do Terceiro Reich, pelo gosto de aparecer de capacete nazi em público.

Em 2016, foi anunciada a sua morte, que alegadamente ocorrera perto de Donetsk, mas continua vivo e a comandar as operações dos seus homens na Síria e noutras regiões do mundo.

Não se sabe porque feitos, mas pode-se imaginar, este “senhor da morte”, recebeu a Ordem da Coragem da Rússia e apareceu ao lado de Putin, em 2016, numa cerimónia dedicada ao Dia dos Heróis da Pátria.

Mas sabe-se que é Utkin é director da companhia “Concord Management e Consulting”, propriedade de Evgueni Prigojin, conhecido como cozinheiro de Putin e um dos homens do presidente que rapidamente fizeram fortuna.

Para tentar “lavar a cara” aos mercenários russos, no Parlamento fala-se da legalização das empresas de segurança privadas como a Wagner. Isto mais parece uma tentativa de substituir tropas regulares por mercenários nos conflitos regionais, como fazem noutros países, para que o impacto da morte dos soldados não estrague a imagem do regime.

No entanto, o Kremlin parece ter cada vez mais dificuldade em responder aos desafios do caos sírio, sendo o mais grave os confrontos entre as tropas de Bashar Assad e grupos da oposição apoiados pela Turquia. Esta poderá ser uma das razões do aparecimento nos céus da Síria do caça russo de quinta geração Su-35.

P.S. Na semana passada, o Estado Islâmico reivindicou o assassinato de seis mulheres russas quando saíam de um templo ortodoxo de Kizliare, no Daguestão, uma das repúblicas muçulmanas da Federação da Rússia. Os terroristas que fugiram da Síria e do Iraque não desapareceram e estão a aparecer em força também no Afeganistão. Rússia e China que se preparem para os novos focos de instabilidade.

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José Milhazes
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Não sei foi Putin ou Trump quem venceu em Helsínquia, mas parece ser claro que a humanidade sofreu mais uma pesada derrota. O mundo é governado por dirigentes cada vez mais irresponsáveis.

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