No passado dia 11 de julho, foi com entristecida estupefacção que li a espécie de manifesto em que 67 académicos deploravam, nas páginas do Público, uma entrevista televisiva dada por Riccardo Marchi acerca do seu recente livro sobre o Chega. Estupefacção porque não julgava tão acelerada a tendência para mimetizar entre nós a cultura do “shut up” e do “no platform” que tanto tem evidenciado, em alguns centros universitários, a presente crise das humanidades e ciências sociais. Mas estupefação entristecida porque conto entre os subscritores com alguns amigos de quem muitas vezes discordo, mas cujo trabalho me habituei a admirar e respeitar.

Um deles, André Barata, professor de filosofia da Universidade da Beira Interior, assinou depois, no mesmo Público, juntamente com Irene Pimentel, uma reacção agastada contra quem (como eu) pensou e escreveu que o dito manifesto denunciava uma perigosa veia censória. O André recusa e devolve as alusões à censura, alegando que o trabalho de Marchi não está imune à crítica (o que é evidentemente verdade) e que esta não pode ser confundida com silenciamentos e perseguições (o que também o é). Diz que a censura actua “pela calada”, remetendo o visado à invisibilidade, enquanto a crítica se alicerça na confrontação aberta e não deve ser contestada devido a melindres e outros pudores.

Acontece que, tal como há mar e mar, também há crítica e “crítica”, e seria avisado não misturar as duas coisas. Não é fácil ler e discutir criticamente, com genuína curiosidade intelectual, posições teóricas das quais divergimos. Disso faz parte o imperativo (que também é moral) de respeitar opiniões alheias, esforçando-se por não caricaturar nem demonizar o alvo. E disso também faz parte abster-se daquela “crítica” que consiste na fácil e sempre tentadora desqualificação intelectual e moral do adversário. A censura não se limita ao lápis azul ou aos exílios, mas começa na autocensura e num ambiente intelectual que condiciona o pensamento pela ameaça de ser “mal visto”. O manifesto é um canto eloquente a esta ameaça.

A posição de Marchi foi apresentada como um “branqueamento”. Por outras palavras, uma desonestidade, um encobrimento do que realmente se passa. O que pressupõe a afirmação implícita de duas outras coisas. Primeiro, que o que se passa só pode ser dito pelos senhores da verdade. Estes são supostamente os 67 indignados que, pelo número, parecem representantes de incontestável autoridade científica e amplo consenso académico. Segundo, que quem não adere à tese de que o Chega é indubitavelmente racista (e fascista e xenófobo e por aí fora) ou é desonesto como Marchi, higienizando e branqueando esse facto, ou é ingénuo, distraído ou estúpido, carecendo dos diligentes alertas da nossa suposta “comunidade académica”.

A mensagem é, por isso, “crystal clear”. Os doutos investigadores e docentes que assinaram o manifesto não visam discutir o livro (que, aliás, patentemente não leram). Para eles, nada há a discutir. Manifestam apenas o seu desconcerto por Marchi não só ter tido o desplante de afirmar, sobre o Chega, que “este partido e André Ventura não são racistas”, mas sobretudo pelo topete de o ter feito “em horário nobre na televisão pública e sem contraditório”. Este último dado, aliás, não é despiciendo. Nunca me tinha ocorrido que ao Doutor Fernando Rosas, um dos distintos subscritores, tenha alguma vez incomodado a falta do “contraditório” nos seus libelos televisivos contra o fascismo ou o racismo dos portugueses em África. Ou que o Centro de Estudos Sociais de Coimbra, onde se recrutaram várias assinaturas, se tenha subitamente começado a preocupar pelo contraste e pluralismo teórico dos eventos que organiza. Claramente, o incómodo com o “contraditório” surge apenas quando alguém diz o que pensa – e o diz, para cúmulo, na televisão – sem se curvar antecipadamente aos supostos guardiães de verdades indisputáveis.

Para os autores do manifesto, é claro, tudo isto é justificável pelo supremo imperativo moral de denunciar o racismo do Chega. Racismo que Marchi, desmentindo-o, ajudaria a encobrir. E o que prova irrefutavelmente esse racismo? Talvez o facto de André Ventura ter desfilado por Lisboa sob o lema de que “Portugal não é racista”. Seria possível maior prova de um racismo impenitente do que o manifesto “negacionismo” de desmentir que se é? Nas luminosas mentes dos nossos doutos indignados, é quanto baste para deixar tudo claro. Dizer que não se é racista é já uma suficiente demonstração científica do “racismo sistémico” e “estrutural” que, de tão entranhado nas mais recônditas tradições da cultura portuguesa, de tão imediatamente reproduzido na nossa esfera pública, se manifesta sobretudo na sua negação.

O interessante conceito de “racismo estrutural” permite aos autores do manifesto assumirem, na representação que de si mesmos fazem, uma espécie de responsabilidade terapêutica diante da sociedade portuguesa. Seria necessário, parece, não apenas vigiar academias e escolas, tornando-as finalmente conscientes das infâmias do nosso passado, mas denunciar a violência simbólica disseminada e reproduzida por todo o lado (nas estátuas e monumentos que ocupam as nossas praças, por exemplo). É desta purga do espaço público que terá de fazer parte a “crítica” da televisão quando esta abre as portas – “sem contraditório” – a colegas que teimam em não ver o racismo presente em toda a parte nem fazer nele profissão de fé.

Na representação de um racismo omnipresente, que a sua própria negação pela sociedade portuguesa revelaria, há, contudo, um pequeno problema filosófico que os generosos terapeutas antirracistas não conseguem resolver. É que, quando se trata de acusar alguém de alguma coisa (por exemplo, quando se acusa o Chega de racismo), o que se visa é, de facto, a atitude ou o comportamento de alguém. Chama-se a isso imputação moral. E esta não é aceitável se não tiver por base a observação do que alguém faz, a escuta do que diz e a consideração das suas razões e argumentos. Foi o que Marchi fez no seu livro a propósito do Chega. Trata-se de um livro muito descritivo e de modo nenhum apologético, coisa que poderiam facilmente verificar se o tivessem lido.

É claro que, na sua construção teórica de um racismo estrutural, inconsciente e omnipresente, os signatários do manifesto têm isso por dispensável. Para eles, o Chega é racista independentemente do que proponha ou diga (e, pelos vistos, seria melhor que nada dissesse, silenciado e riscado do espaço público por via administrativa). Como não o pode ser, há então que avisar os incautos, prevenindo-os terapeuticamente contra as profundezas do racismo que a negação do racismo manifesta, e descredibilizar os académicos que, quais traidores de classe, torcem o nariz à terapia social prescrita.

Nos dias que correm, o uso e abuso da tese do “racismo estrutural” transformou-se, para muitos dos nossos activistas, num recurso particularmente útil para banir quem procure discutir o racismo em termos diversos dos seus. Ou seja, para evitar discussões e substituí-las pelo ruído tumultuoso que anseiam ver crescer nas ruas. A ideia peregrina de arrebanhar assinaturas em protesto contra a ida de um colega à televisão é apenas um epifenómeno lamentável disso mesmo. Tratar-se-á eventualmente para alguns, mais velhos e nostálgicos dos tempos do PREC, de recriar os sequestros, os saneamentos e a exposição dos “reaccionários” ao opróbrio público. Para outros, mais modernos, de corrigir o nosso endémico atraso e, finalmente, pôr Portugal a par da cancel culture (ou como lhe queiram chamar) que cresce desde há décadas em outros horizontes universitários. Por mim, apenas espero que este triste episódio permaneça um arroubo singular e não seja premonitório do que nos reserva, na universidade, o futuro próximo.