1. Parece haver um consenso entre os comentadores e, também, entre os políticos do PS que se pronunciaram na noite das primárias: a de que este método de escolher o candidato a primeiro-ministro veio para ficar. É uma unanimidade quase igual à que existiu quando António José Seguro decidiu convocar estas primárias: a única diferença é que antes todos as criticaram e agora todos as aplaudem. A mim, que nunca me pareceu um mau método, também não me surge como mezinha para todos os males do nosso sistema partidário.

As razões porque não tenho a certeza que este método se generalize é que as condições destas primárias não são repetíveis. Far-se-ão primárias para “candidato a primeiro-ministro” no início de um ciclo eleitoral, isto é, quando um partido perde as eleições e escolhe um novo líder para quatro anos? Ou deixa-se isso para um ano antes das eleições? E quanto a candidatos presidenciais? E candidatos a presidentes de câmara? Desaparecem as directas? Sujeitar-se-á um primeiro-ministro em funções a “primárias”, como se sujeita o Presidente dos Estados Unidos?

Como veem, o caminho é tudo menos claro. Para além que não convém embandeirar em arco e esquecer, por artes mágicas, o tom lamentável desta campanha, um tom que facilmente se poderia repetir em exercícios semelhantes. Quantos partidos estarão dispostos a passar por este tipo de experiência?

2. Terão votado ontem 170 a 180 mil militantes e simpatizantes do PS. Esse número provocou enorme entusiasmo. É prudente colocar alguma água na fervura. Se compararmos estas eleições primárias com as que tiveram lugar em França e Itália na mesma área política, a participação em Portugal foi uma desilusão. Para, proporcionalmente, a participação ser semelhante deveriam ter votado cerca de 600 mil portugueses – votaram bem menos de 200 mil.

Esta questão não é menor. Porque é que os socialistas portugueses, principal partido da oposição no tempo de um Governo que foi obrigado a aplicar medidas duríssimas, não conseguiram mobilizar tanto a cidadania como os seus correligionários franceses ou italianos? Será a nossa crise de participação política ainda maior do que nesses dois países – dois países onde há movimentos anti-sistema muito fortes, a Frente Nacional em França e o movimento Beppe Grillo em Itália?

E, já agora, mais uma pergunta incómoda: porque é que cerca de 30% dos que podiam votar não o fizeram, sendo que muitos se tinham inscrito apenas algumas semanas antes? Há quem tenha dito que foi uma abstenção baixa – a mim pareceu-me algo elevada se pensarmos no carácter voluntário e muito próximo do acto de inscrição como simpatizante do PS.

3. Toda a gente jurou nesta curta noite eleitoral que o PS se vai voltar a unir rapidamente. De novo, tenho dúvidas. E as minhas dúvidas foram reforçadas pelo discurso de vitória de António Costa. Se era necessária uma prova de que a campanha deixou feridas duradouras, tivemo-las nesse discurso, pois o vencedor da noite não foi capaz de citar o nome do seu adversário e tratou de contornar o incómodo dizendo que quem tinha vencido era todo o PS, que não havia derrotados. Não foi elegante nem teve grandeza.

Numa das suas últimas entrevistas antes das primárias, ao DN, este sábado, Costa antecipou que só um pequeno número de irredutíveis de Seguro manterão a acrimónia. Um Seguro que ele trata nessa mesma entrevista com desprezo e altivez, ao afirmar que não lhe devia ter dado oportunidade de se afirmar. Mais uma vez julgo que aquilo que estas palavras revelam não se resolve apenas porque um lado conseguiu mais de dois terços dos votos.

Para que o PS se unisse rapidamente teria sido necessário que António Costa tivesse ontem mostrado, no seu discurso, uma grandeza para com os vencidos que não foi capaz de mostrar. Essa é que é essa.

Numa noite de tantas certezas, deixo aqui estas dúvidas. A contracorrente.