Impressiona muito ver a atitude dos universitários quando se empenham e comprometem inteiramente com os estudos e as matérias, mas também se preocupam e cuidam uns dos outros. Como se as máscaras não fossem um tropeço e o distanciamento social não se revelasse, nestas idades, um imperativo contranatura.

Começámos as aulas presenciais no dia 1 de Setembro e todos sabíamos que poderíamos ter que voltar para casa poucas semanas depois. Na altura, como agora, tudo era incerto e nada nos dizia que poderia melhorar. Muito pelo contrário.

Na verdade, estamos a conseguir cumprir o calendário escolar avançando cautelosamente, semana após semana, observando escrupulosamente todas as regras sanitárias e protocolos de distanciamento, e eis-nos a começar o período de avaliação final em algumas cadeiras.

Mesmo tendo havido sobressaltos, quarentenas e isolamentos profiláticos (eu própria passei 14 dias isolada na minha própria casa, felizmente sem ter contraído o vírus), foi importante perceber que era possível permanecermos na escola, na presença uns dos outros. Todos mascarados, todos protegidos, mas presentes. Com horários mais desfasados e exigentes, usando salas maiores e redistribuindo mesas e cadeiras, apostando no reforço das rotinas de desinfeção entre cada slot, foi possível continuar a dar aulas presenciais.

E isso fez uma grande diferença para todos, alunos e professores, porque multiplicou a confiança e reforçou a capacidade de resiliência de uns e outros.

Graças ao cumprimento geral das regras impostas pela DGS (e também ao acompanhamento próximo dos delegados de saúde sempre que houve notícia de alguém que testou positivo), a escola continua aberta e tudo no campus está a funcionar. Isto, com departamentos inteiros esvaziados de equipas por muitos profissionais estarem em teletrabalho.

Avançamos pelos corredores, outrora povoados de jovens no seu movimento perpétuo, e ouve-se agora o eco distante de uns passos aqui, outros ali, mas, no geral, impera o silêncio e o vazio. Ninguém nas salas, ninguém nos gabinetes, ninguém encostado às paredes, ninguém sentado nas esplanadas à conversa com a naturalidade de antigamente. A própria palavra “antigamente” soa estranha quando pensamos que estamos a invocar memórias com menos de um ano…

Mas, dizia eu, que impressiona muito ver a atitude dos universitários quando se empenham nos estudos e se comprometem com as matérias, mas especialmente quando agem de forma a protegerem os pares. Impressiona, porque se adaptaram com (aparente) facilidade ao uso de máscaras e porque não deixaram que o distanciamento social os impedisse de serem quem são, de se entreajudarem, nem de se sentirem próximos uns dos outros. Bem sei que cada caso é um caso e conheço alguns para quem esta adaptação está a custar muitíssimo porque lhes está a ser difícil dar a volta à solidão e ao “afundanço” que sentem.

Embora saiba isto, não posso deixar de sublinhar a atitude dos resilientes, porque estes podem e devem servir de referência aos outros, dando-lhes forças e a certeza de que não estão sozinhos. Os que têm maior capacidade de adaptação e melhor endurance têm a obrigação moral de olhar à volta com mais atenção para perceberem quem anda frágil e desamparado. São os mais fortes que têm que ajudar os que se sentem mais fracos e fazê-los compreender que também eles trazem consigo ferramentas para minimizar o impacto negativo deste “novo normal”.

E são estes que hoje me fazem escrever, por me inspirarem e encherem de admiração pela autenticidade, pela liberdade interior e pela coragem com que se atrevem a avançar por esta nebulosa que é a pandemia. Sei de uns que já criaram clubes e movimentos para se apoiarem mutuamente, de outros que já estabeleceram buddy systems criativos para não se perderem de vista uns aos outros, que decidiram iniciar novas formas de voluntariado para resgatar, para encorajar, para motivar quando as forças interiores ameaçam falhar.

Falo de jovens a partir dos 17 anos, a quem é exigido que se afastem uns dos outros, que não se toquem, que não partilhem absolutamente nada, que fujam sempre que alguém se junta ao seu pequeno grupo de dois ou três (já distantes entre si), que usem máscaras dentro e fora das salas, quase desde que acordam até que se deitam, que se desinfetem mil e uma vezes ao longo do dia, que não ponham as mãos em nada que não lhes pertença, que caminhem sempre à direita, que façam filas para tudo, que tenham muita paciência, que não desistam de desembaciar os óculos nem de continuar a estudar como se nada fosse.

Falo de jovens que, mesmo estando privados de se conhecerem e darem a conhecer de forma natural e sem máscaras (no sentido literal e metafórico!), de rapazes e raparigas que apesar de se verem impedidos de estabelecer novas relações, de comunicar sem artificialismos, de flirtarem, de se apaixonarem, de viverem como é suposto viver nestas idades, rapidamente se adaptaram e reordenaram as suas prioridades, focando naquilo que é possível, em vez de se desperdiçarem com o que se tornou impossível.

E é porque tenho o privilégio de conhecer de perto muitos destes jovens, entre as centenas de alunos que me são entregues semestre após semestre, divididos por várias turmas, que não posso deixar de lhes prestar tributo e agradecer o exemplo.

Hoje mesmo, começamos as avaliações através de apresentações orais, individuais, e passaremos as próximas semanas neste processo de atribuição das notas finais. É impossível não ser sensível à coragem e determinação com que estão a viver tudo isto e é fundamental fazê-los perceber que nos ensinam muito quando permanecem fiéis a si mesmos, autênticos, genuínos, sem deixarem que as máscaras ocultem os seus traços de caráter e sem perderem a capacidade de se fazerem próximos uns dos outros. Nunca saberemos quem aprende mais com quem, mas neste semestre histórico, marcado pelo distanciamento social e pelo uso asfixiante de máscaras ao longo das nossas walking hours, diria que os alunos foram grandes mestres.