Pós-troika

A troika nunca esteve em Portugal

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A troika passou mesmo por aqui. Há mais desempregados, há mais exportações. Mas escutando os nossos líderes, foi como se ela não tivesse passado por cá.

A conclusão do programa de ajustamento provou mais uma vez que a oligarquia política portuguesa pode, quando quer, ser divertida.

As oposições andaram três anos a bradar contra a troika. Estávamos sob tutela, sem soberania, ocupados, oprimidos. A troika invadira-nos, a troika escravizava-nos. Era quase um episódio de ‘Allo ‘Allo! Ora bem, a troika faz as malas, compra os últimos souvenirs, entra na fila do aeroporto, vai-se embora. E em vez do previsível dia da libertação, Paris em 1944, temos uma indiferença digna da cidade do Porto quando o Benfica ganha o campeonato. As oposições encolhem os ombros: nada mudou, está tudo na mesma. Afinal, segundo a oposição, a troika não tinha importância.

Com o governo, foi ao contrário. Durante três anos, tratou a troika como parte da solidariedade europeia que mantinha abertas as portas de escolas e hospitais. A troika nada nos mandava fazer que nós não tivéssemos de fazer de qualquer maneira. Em público, nenhum governante deu a entender que não se sentia livre. Mas eis que o programa chega ao fim, e o que vemos? Festa, champanhe, a ideia da soberania recuperada, um novo Primeiro de Dezembro. Subitamente, correm histórias de resistência, de patriotismo de gabinete, de heroísmo de dossier. Afinal, segundo o governo, a troika oprimia-nos.

Mas talvez estas contradicções finais não sejam o aspecto mais curioso da crónica dos últimos três anos. O primeiro facto importante é este: ninguém esperava o que aconteceu. Nem o governo, nem as oposições. Esta história foi uma sequência de imprevistos. Ninguém antecipou o desemprego, mas também ninguém adivinhou as exportações, nem sequer a paciência dos contribuintes para pagarem, ordeiramente, os equilíbrios orçamentais. Todos os vaticínios falharam: muita gente, com a Grécia à frente, marcou a hora do fim do euro; pouca gente, em Julho de 2012, antecipou o efeito das garantias de Mario Draghi. Andámos de surpresa em surpresa.

Quando começámos, não sabíamos. E agora, que acabámos, o que aprendemos?

O governo desenrola a lista da sua azáfama legislativa – poupando-se, no entanto, a qualquer meditação sobre as metas originais que nunca foram alcançadas, as brutalidades fiscais, as reformas empurradas para dias melhores, as dificuldades políticas, os obstáculos constitucionais. A crise ministerial de Julho de 2013 nunca existiu. Parece que tudo correu bem.

O Partido Socialista passeia novamente José Sócrates e insiste: Portugal tem um único problema — os “neo-liberais”. Com os socialistas restituídos aos palácios e aos ministérios, acabam-se os aumentos de impostos e voltam todos os salários e pensões. A concentração sistemática de recursos no Estado não resultou antes de 2011? Resultará agora. Parece que tudo vai correr bem.

A troika passou mesmo por aqui. Há mais desempregados, há mais exportações. Mas escutando os nossos líderes, foi como se não tivesse passado. Porque o outro grande facto desta história é que a oligarquia política sobreviveu à maior crise do regime nos últimos trinta anos. Os mitológicos poderes económicos dão sinais de abalo e recomposição. Os cidadãos corrigiram hábitos e expectativas (poupam mais, por exemplo). Mas no palco político, as mesmas personagens e os mesmos partidos aguardam as eleições europeias do próximo domingo como a repetição de uma velha rábula, sem as dores de cabeça que, noutros países, são a Frente Nacional francesa ou o UKIP inglês. Porque é que haveriam de mudar? O que é que têm para aprender?

Entretanto, uns quantos cidadãos subscrevem uma petição a exigir que “isto” não aconteça “nunca mais”. Nada está menos garantido.

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