Vladimir Putin

Tropas soviéticas em Praga: libertadores ou ocupantes? /premium

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Actualmente, Vladimir Putin tenta repetir a política de “soberania limitada” de Leonid Brejnev, dirigente soviético que ordenou a entrada de tanques em Praga.

A invasão da Checoslováquia há 50 anos por tanques soviéticos, conhecida como “Operação Danúbio”, continua a provocar acesas discussões na Rússia, principalmente à luz da política externa agressiva de Vladimir Putin no antigo espaço soviético. Actualmente, Putin tenta repetir a política de “soberania limitada” de Leonid Brejnev, dirigente soviético que ordenou a entrada de tanques em Praga.

Esta abordagem do Kremlin começou a manifestar-se na invasão da Geórgia em 2008 e tornou-se particularmente evidente depois da ocupação da Crimeia e do Leste da Ucrânia pelas tropas russas em 2014. A tentativa dos checoslovacos de se libertarem do jugo comunista começou a ser comparada às “revoluções coloridas que ocorreram em alguns dos países que fizeram parte da União Soviética até 1991.

Em 2016, o deputado Viatcheslav Nikonov, neto de Viatcheslav Molotov, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do ditador comunista José Estaline, considerou que “então, na Checoslováquia foi organizada mais uma revolução colorida pelos americanos”. Este defensor ferrenho da política externa de Vladimir Putin não tem dúvidas de que a “Primavera de Praga” foi inspirada de fora para retirar aquele país do “campo socialista”.

Em Novembro do ano passado, na véspera da visita de Miloš Zeman, Presidente da República Checa, a Moscovo, a página do canal televisivo “Zvezda” (Estrela), órgão de informação oficial do Ministério da Defesa da Rússia, publicava um texto onde se afirmava que “a Checoslováquia devia estar grata à URSS por 1968”, “frisando que a entrada de tropas [soviéticas] na Checoslováquia não permitiu ao Ocidente fazer um golpe de Estado no país segundo a tecnologia de realização das revoluções de “veludo” e conservou durante mais 20 anos a paz e concórdia entre todos os povos dos países da Organização do Tratado de Varsóvia”.

Segundo o autor do texto, por detrás da construção do socialismo com rosto humano “começou a destruição do Estado checoslovaco socialista”; tudo o que acontecia, como “compreenderam bem” os dirigentes dos países do Tratado de Varsóvia, era “o avanço da NATO para Leste”.

Este artigo irritou tanto os checos e os eslovacos que Miloš Zeman, um dos aliados de Putin no seio da União Europeia, protestou junto do Kremlin e a televisão russa retirou-o da sua página.

As actuais autoridades russas parecem ainda não ter compreendido o erro dos líderes comunistas soviéticos. Os povos do antigo “campo socialista” não eram atraídos pela NATO, mas sim pelo desenvolvimento económico e social dos países vizinhos. A Checoslováquia, por exemplo, tinha fronteiras com a Áustria, um dos países mais prósperos da Europa de então, onde o desenvolvimento económico estava acompanhado do respeito pelos direitos e liberdades.

Por isso, a Rússia sentir-se-á sempre ameaçada e cercada enquanto não for, pelo menos, um exemplo de bem-estar social e de respeito por aquilo que os seus dirigentes exigem dos outros, respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades. O medo e as ameaças têm apenas efeito temporário. Não é ameaçando e invadindo o território dos países vizinhos que se ganha o respeito deles.

É por esta razão que é difícil acreditar que a Rússia esteja interessada numa solução justa para o problema da Ucrânia. O Kremlin continua a apostar no tudo ou nada: ou a Ucrânia aceita a “soberania limitada”, ou continuará a ver parte do seu território ocupado por tropas russas (os separatistas russófonos não passam de fantoches mandados por Putin). Por isso, o último encontro de Vladimir Putin com Angela Merkel sobre este problema acabou sem resultado.

Correu claramente melhor a participação do dirigente russo no casamento de Karin Kneissl, chefe da diplomacia do governo austríaco de extrema-direita. Traz-nos à memória um dos ditados russos preferidos de Putin: “Quem paga é quem dança a moça”.

A extrema-esquerda portuguesa, que morre de paixão pelo “anti-imperialismo” do Kremlin, certamente não irá comentar a dança. Os fins justificam os meios.

P.S. Moscovo já cantou vitória militar na Síria, mas chegou a hora da reconstrução do país e é preciso dinheiro. O Kremlin pediu dinheiro a Trump, mas recebeu resposta negativa. Putin foi bater à porta de Merkel, lembrando que, se a União Europeia não abrir os cordões à bolsa, os refugiados sírios que já se encontram na Europa não poderão regressar ao seu país e que, nos países vizinhos da Síria, há ainda vários milhões de refugiados que poderão querer ir para o Velho Continente.

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