São dez da noite em Madrid e a cidade já está imersa naquela energia contagiante que a caracteriza. Madrugada fora as ruas iluminam-se com jovens, ouve-se ao longe os subwooferes de carros de alta cilindrada a bombarem o mais recente hit de reggaeton e os risos de grupos de mulheres a divertirem-se em direção às discotecas. Num dos restaurantes mais trendy da cidade ouve-se o ranger de um Ferrari que para à porta. Do carro sai um rapaz novo, de barba aparada, vestido com a última moda. Seguido pelo seu grupo de amigos, entra no restaurante onde é recebido entusiasticamente pelo maître. Enquanto tira fotos com o seu iphone dourado e prepara o próximo post no instagram para os seus milhares de seguidores, na mesa ao lado um casal pergunta-se quem será aquele rapaz. Rápida e sobranceiramente surge a resposta: “É filho de um general venezuelano”.

Na manhã seguinte, a Central Line do metro Londres, como sempre, já está a abarrotar. De copo de café Americano na mão, o funcionário do Banco de Inglaterra sai na estação de Bank por entre a multidão, passa em frente à residência do Lord Mayor e dirige-se ao seu escritório. Já o copo de café vai a meio quando, já sentado, percorre os emails que, entretanto, recebeu. Um alerta capta a sua atenção: uma ordem de levantamento de mil milhões de libras em reservas de ouro pelo governo venezuelano.

Ao início da tarde, no aeroporto de Rostov, um grupo de homens fardados e equipados perfila-se em frente ao balcão de check-in. No ecrã nem número de voo, nem destino. Quem passa não se atreve a perguntar quem são ou para onde vão. Os funcionários do aeroporto também não fazem perguntas, limitando-se a tratar da burocracia e da logística. Quando um deles se dirige ao balcão para entregar a sua mochila, retira de um dos bolsos um dicionário Russo-Espanhol. São funcionários de uma empresa de segurança privada militarizada, destacados para reforçar a proteção do presidente venezuelano.

Em Caracas, um membro da Guarda Nacional Bolivariana desce à cozinha de sua casa para tomar o pequeno almoço. Na televisão vê imagens do tumulto que vai nas ruas. Tem amigos dos dois lados, mas o salário de 3160 bolívares com que sustenta a família não se paga sozinho (um médico recebe 1800). Pega numa peça de fruta e sai porta fora em direção ao quartel. Lá percebe que alguns colegas não vieram trabalhar nesse dia, sendo pouco provável que venham no dia seguinte. Ao mesmo tempo, nos arredores de Las Vegas, uma piloto de veículos aéreos não tripulados chega à base da Força Aérea de Creech. No briefing matinal é informada que naquele dia fará voos de reconhecimento sobre o território venezuelano.

A vida destas pessoas, e de tantas de outras, irá colidir dramaticamente nas próximas semanas. O início da erupção que faz tremer Caracas não permite qualquer exercício de futurologia, mas permite pôr a nu a complexa relação de poderes que percorre este mundo globalizado.

Desde a elite venezuelana instalada em Madrid, passando pelos corredores do Kremlin, do Pentágono e pelos open space da city londrina, até às ruas de Caracas, milhares vidas estão em suspenso. As hipóteses de desfecho são infinitas, sendo que nos extremos opostos se encontram a intervenção militar estrangeira de larga escala, provavelmente aérea, e a transição democrática. Mas se a primeira choca com o facto de a Venezuela não ser a Líbia, nem pela sua geografia, nem pela sua capacidade militar ou alianças, a última pode esbarrar no algum apoio popular que o regime ainda tem.