Presidente Trump

A culpa não é só de Putin

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Trump, ao entrar em conflito aberto com os serviços secretos e a imprensa americana, arrisca-se a ver paralisada grande parte do trabalho da sua administração, pois as demissões poderão suceder-se.

Não é segredo para ninguém que o Kremlin não olha a meios para se ingerir na política interna dos países seus potenciais adversários, mas daqui não se deve concluir que Putin é o culpado da vitória de uns políticos e da derrota de outros.

A imprensa norte-americana não pára de publicar notícias sobre os contactos entre homens ligados ao Presidente Donald Trump, por um lado, e diplomatas e altos agentes dos serviços secretos russos, por outro, antes de ele ter sido eleito para a Casa Branca, o que é uma clara violação da lei dos Estados Unidos.

Michael Flynn, o assessor da Casa Branca para a Segurança Nacional, foi uma das últimas das vítimas desse processo, pois foi obrigado a demitir-se por conversas sobre a possibilidade de Washington levantar as sanções contra a Rússia com o embaixador de Moscovo nos Estados Unidos. Inicialmente, Flynn e o Kremlin negaram tudo, depois o primeiro acabou por reconhecer alguma coisa, mas o segundo continua a insistir que nada aconteceu.

No último comentário a este escândalo, Dmitri Peskov desvaloriza as novas revelações do New York Times, publicadas hoje, sublinhando que “aí são citadas cinco fontes de informação, mas nenhuma tem nome. Deve haver alguma informação sobre quem são essas pessoas”. Ora é estranho que o porta-voz do Kremlin não saiba que, quando se trata de fontes nos serviços secretos, os órgãos de informação têm de as proteger.

Donald Trump, ao entrar em conflito aberto com os serviços secretos e a imprensa norte-americana, arrisca-se a ver paralisada grande parte do trabalho da sua administração, pois as demissões poderão suceder-se.

Isto, por um lado, é útil para Vladimir Putin, porque, enquanto Trump estiver envolvido nas lutas internas, o Presidente russo poderá utilizar o tempo para conseguir alguns dos seus objectivos na política externa: reforçar posições na Síria, continuar a desestabilizar a Ucrânia, etc. Mas, por outro lado, os escândalos poderão obrigar Trump a ser mais duro nas suas posições face à Rússia. Nos últimos dias, foi noticiado que a administração norte-americana acusa a Rússia de violar tratados de desarmamento e exige a sua retirada da Crimeia.

Também não é segredo para ninguém que o Kremlin apoia de várias formas, inclusivamente com dinheiro, ataques informáticos e informações, forças políticas extremistas nos países da União Europeia. Os candidatos que não estão do lado de Putin acusam-no de estar por detrás de ataques informáticos a fim de obter informações para os desacreditarem.

Emmanuel Macron, candidato de centro-esquerda nas presidenciais francesas, foi o último a queixar-se de ataques informáticos russos, tendo havido já queixas da parte de políticos holandeses e alemães.

Porém, não nos podemos deixar levar pela ideia de que os “ataques informáticos russos” são a causa da derrota ou da vitória deste ou daquele candidato a presidente. As acções dos serviços secretos de Moscovo podem e ajudam a ganhar ou a perder, como parece ter sido o caso dos Estados Unidos, mas os factores decisivos são outros, nomeadamente o descontentamento dos eleitores com as elites políticas tradicionais, a corrupção, o desemprego, etc.

E se, efectivamente, o Kremlin se ingere na política externa dos países ocidentais – e disso parece já não restarem dúvidas (além dos ataques informáticos, há também o trabalho de sapa de órgãos de informação como a Russia Today ou a Sputnik) -, então chega de lamentações e reforce-se os serviços de segurança para responder a essa ameaça. É fundamental a troca de informações entre eles para evitar que Putin divida para desestabilizar.

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