Verão

Crónicas de Verão – O Amor

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Digam-me os leitores que esta crónica é fútil, inútil, ignorável; digam-me que amar é irrelevante, porque só amamos por capricho, um fútil devaneio, e no fundo, lá no fundo, é a nós mesmos que amamos.

Verão, tempo de amor e de amores (de verão). Ainda é assim?

Amor de perdição. “A solidão, fim de quem ama” (Vinicius). “Eu quero amar, amar perdidamente!” (Florbela Espanca). “Love loves to love love” (James Joyce). “Amar só por amar” (Espanca). “O oposto do amor é a indiferença” (Elie Wiesel, marcado pelo horror dos campos da morte). “Amar! Amar! E não amar ninguém!” (Espanca). “My angel, my all, my own self” (da carta de 6 de Julho de 1812 escrita por Ludwig van Beethoven a uma misteriosa e incógnita amada). “Once in a while, … I … realize how lucky I am to share my life with the greatest woman I ever met. You still fascinate and inspire me” (Johnny Cash para June Carter, por muitos considerada a mais bela carta de amor jamais escrita). E o divino surdo, outra vez: my beloved imortal, Unsterbliche Geliebte, minha amada imortal, a 10ª sinfonia de Ludwig v.

O amor, misterioso, eterno, omnipresente. Mas o que é ele, afinal? Um sentimento, um estado de alma, uma forma de estar?

Digam-me os leitores que esta crónica é fútil, inútil, ignorável; digam-me sff. que amar é irrelevante, porque só amamos por capricho, um fútil devaneio, e no fundo, lá no fundo, é a nós próprios que amamos, ou pelo menos à nossa concepção de amor; no fundo, amamos a própria ideia do amor, e de nós próprios a amar – do alto do nosso egoísmo, que é de nós todo o mais fundo, é a amar-nos que nos sentimos amados. Precisamos de um objecto, claro, o do amor, mas esse não passa do pretexto, necessário mas substituível.

Digam-me então os leitores que o amor é isso, e eu não escreverei uma palavra mais. Egoísmo, egotismo, um devaneio da ilusão que a vida nos prescreve. Digam-me, se faz favor: que o valor de uma vida perdida por amor – os Romeus de todos os tempos – é desperdiçado; que a prosápia de um nariz disforme, cantando a Roxane “amo-vos, sufoco, amo-te, estou louco, não posso mais, é de mais”, não passa de um jogo de palavras, cyrano que seja; que Pedro não amou Inês senão pela vontade de afrontar Afonso Rex. Digam-mo e esquecemos esta crónica sobre o amor.

Não dizem? Em cada coração de um jovem, apaixonado, despeitado, ciumento, triste, na alma de um adulto que se divorcia, contristado pelo resultado, no peito cansado de um velho que se despede da amante de sempre, cinquenta anos de conjugação conjugal, ambos, sozinhos, solidários, plenos, e agora ele, sozinho, sozinho, sozinho, há amor. Lágrimas festivas, amargas.

Em Abril de 1977, três escritores participaram no célebre programa de Bernard Pivot para “falar de amor”, sendo um deles Roland Barthes, um dos mestres do pensamento francês e universal moderno, para quem “a palavra nunca é inocente”. E disse, resumindo ( simplifico), que a sentimentalidade é um valor marginal na sensibilidade actual (na dos anos 70, pelo menos). A sentimentalidade, um valor marginal? O amor, sentimento descartável?

Seria assim? Será assim? Uma coisa é certa: o amor é um sentimento banal.

Senão vejamos: há alguma coisa, ideia, emoção ou um sentimento sobre que se tenha escrito mais; feito mais músicas; filmado mais filmes, do que sobre o amor? Os amantes dizem sempre “amo-te”, “je t’aime”, “I love you”, a frase é sempre a mesma. Quando o dizem – uma música romântica irrompe, estrofe, estrofe, refrão, estrofe, refrão, harmonia, melodia e harmonia, e algumas palavras breves, duas metáforas, uma comparação -, os espectadores reconhecem a cena, afinal foi representada, escrita, cantada, milhares de milhões de vezes. Mais: revêm-se nela. Haverá coisa mais bela? E mais banal, afinal?

E contudo, literatura se continua a escrever, canções a compor, cinema a rodar, sempre, e sempre, sobre o amor.

Ora talvez uma das mais paradoxais e desconcertantes explicações sobre o amor – o que é ele, afinal? – seja a do referido Barthes, no livro (um livrinho) publicado em 1977, “Fragmentos de um discurso amoroso”. Resumindo, diz ser o amor que o sujeito ama, não o objecto (não a amada); o livro analisa Werther, de Goethe, a primeira grande novela trágica da literatura europeia, que conta a paixão de um jovem romântico apaixonado por Lotter, paixão impossível – de consumar e controlar –, que o leva ao desespero e à perdição.

O amor do jovem Werther (e do próprio Goethe por Charlotte Buff), de Julieta por Romeu, o amor de perdição de Camilo, ainda existem? Ainda são possíveis ou, na sociedade contemporânea, não passam de enredos perpetuamente repetidos, que assumimos momentaneamente –mimetizando filmes e ficção – quando chega a hora de viver “a experiência” (amorosa) e, egoística, hedonisticamente, elegemos “o objecto” do amor?

“Amo-te”, hoje em dia, quer dizer o quê?

A verdade é que o amor discutido nos anos 70 e o actual – neste tempo de Internet e comunicação instantânea, quando o paradigma do lugar é subvertido pelo uso constante do telemóvel – são coisas distintas. Hoje amamos quase tanto o ser amado como o gadget de última tecnologia, a boa refeição, o grande artista; hoje não se ama, curte-se (paixão, amor, desejo, a eterna trilogia), hoje “anda-se”; hoje não se beija, hoje “salta-se à boca”; hoje enamoramo-nos à distância – e é louvável o esforço de Alberoni para explicar o enamoramento e o amor nestes tempos perturbados -, comprazemo-nos no prazer estranho da relação com ser(es) fisicamente ausente(s), escolhemos os nossos encontros no tinder, em “dating on line” e noutros portais.

E contudo, e ainda assim, esse “estado nascente de um movimento colectivo a dois”, como Alberoni define o enamoramento – e o amor que se instala – continua a ser vivido por milhões, uma experiência directa e perturbadora, que causa prazer e dor, euforia e mal-estar, dependência e transcendência. E contudo, amar ainda pode ser a mais extraordinária experiência individual – a dois – do Mundo.

Talvez o segredo de um amor bem sucedido esteja na superação da sua natureza egoísta, após o inevitável período do enamoramento — obsessivo, numa visão magnificada do outro como objecto sem mácula, único e incomparável -, e na construção de uma relação equilibrada, saudável, de parceiros e cúmplices num projecto a dois. Talvez seja isso.

Ou talvez, simplesmente, não haja explicações. Talvez o amor continue a ser chama, “infinito enquanto dure” (Vinicius), recompensa divina pelas dores da vida. Como no verão dos nossos amores. Boas férias, com amor, se for o caso.

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