Efeméride

Estamos carentes de Lutero

Autor
  • Tiago de Oliveira Cavaco
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Os protestantes são olhados com desconfiança em Portugal porque, onde as pessoas associam fé a sossego, os protestantes surgem como exoticamente extrovertidos: cantam, falam, pregam, dançam...

Dois mil e dezassete é um ano rico em datas históricas que atingem números redondos. Comemoram-se cem anos da Revolução Soviética e das aparições de Fátima, e até cento e cinquenta da abolição da pena de morte em Portugal. São acontecimentos que mudaram o curso da nossa história. No entanto, é fácil que esqueçamos os quinhentos anos da Reforma Protestante. Afinal, em Portugal a Reforma Protestante continua a soar como coisa essencialmente estrangeira. Até o comunismo russo parece ter tido mais efeito aqui. Mas, se compararmos o números de votantes na CDU com o de evangélicos lusitanos (e esta comparação ouvi-a do meu primo Timóteo Cavaco), talvez dê para concluir que o protestantismo racha mais lenha cá do que julgamos – não tem é tanta imprensa.

Nesse sentido, e como protestante que sou, posso tentar justificar a importância de meio milénio da minha tradição religiosa valendo-me das quantidades protestantes no meu país – não somos assim tão poucos, caramba! Mas a luta de provar que, afinal de contas, também existem protestantes em Portugal rapidamente se torna inglória quando esbarra de frente com a ignorância religiosa generalizada nos portugueses (em Portugal o catolicismo continua detendo o monopólio da religião respeitável – tudo o mais são seitas olhadas com suspeição). Não é assim tão satisfatório para um português evangélico (que uso como sinónimo de protestante) apresentar números se esses números pouco traduzirem de consistente na cabeça de quem os ouve.

O retrato de Martinho Lutero, pintado por Lucas Cranach em 1532, no Museu Histórico Alemão (Deutsches Historisches Museum) em Berlim (Foto de Sean Gallup/Getty Images)

Por outro lado, posso tentar justificar a importância de meio milénio da minha tradição religiosa valendo-me da qualidade dos efeitos do Protestantismo em todo o mundo, longe da ignorância religiosa generalizada nos portugueses. Como quem diz: em Portugal ninguém quer saber da Reforma mas, como os factos mostram, ela transformou radicalmente o resto do mundo (e, indo por aqui, o resto do mundo pode ser a maioria dele). A questão é que, quer a primeira tentativa, quer a segunda, frequentemente acabam em apenas alimentar o ressentimento dentro do coração de um protestante português. Em Portugal pouco se quer saber do protestantismo porque pouco se quer saber sobre religião e pouco se quer saber sobre o que acontece fora daqui. Se tivermos em conta que o ressentimento já é uma tentação tipicamente portuguesa, imaginem a dose suplementar presente na categoria dupla de ser protestante e português. Se, nós portugueses, já vivemos à espera de que os outros nos dêem o devido valor, ser um protestante português é viver num Portugal mais pequeno dentro de um Portugal maior. É melhor desistir que a minha pátria nacional valorize a minha pátria religiosa. Não é por nenhuma destas duas vias que quero lembrar a importância dos quinhentos anos da Reforma Protestante.

Uma das piores maneiras de lembrar uma data importante é limitá-la às qualidades que lhe encontramos. Essa é uma irritante tendência moderna, a de celebrarmos algum acontecimento na condição de ele poder confirmar as virtudes que encontramos em nós próprios. No caso da Reforma Protestante, e de Martinho Lutero em particular (porque foi ele que em 1517 afixou na porta da Igreja em Vitemberg as “95 Teses contra as Indulgências” e que marcam simbolicamente o início de todo este processo reformista), o dispositivo funciona assim: celebremos Lutero sublinhando nele os aspectos que apreciamos em nós hoje. Logo, o discurso festivo serve em termos da modernidade de Lutero, uma vez que a modernidade é aquela qualidade suficientemente vaga mas obrigatória com que gostamos de nos homenagear uns aos outros em 2017.

E, sim, dá para encontrar modernidade em Lutero, como provavelmente dá para encontrar algum vestígio de modernidade no neandertal mais distante. A questão é que, se a qualidade que julgamos estar em nós for o crivo com que celebramos a vida dos antigos, na prática passamos ao lado daquilo que neles realmente nos pode desafiar. Estudar a história não é importante porque ela tranquiliza a nossa consciência actual; estudar a história é importante porque ela pode colocar em causa a nossa consciência. Também por isto, quando no ano passado escrevi um livro sobre Lutero chamado “Cuidado com o Alemão”, quis sublinhar aquilo que ao, conhecê-lo, estremece a nossa consciência moderna.

Encontrei principalmente três aspectos que, na vida de Lutero, contribuíram para que ele influenciasse o curso da história. Não foram aspectos inventados por Martinho Lutero mas foram ênfases da sua vida e pregação que, em contraste com a resistência católica romana a elas, confirmaram formas diferentes de encarar a vida dentro da cristandade, e que ainda hoje se verificam em todo o mundo. Sim, quinhentos anos depois Lutero continua vivo (ironicamente, continua vivo sobretudo fora da Igreja Luterana europeia, tão progressista e expansiva nas suas perspectivas teológicas que pouco do que Lutero disse é reconhecível nas suas práticas).

Em primeiro lugar, Lutero e os protestantes são pessimistas. A visão antropológica do protestantismo vê o copo meio vazio onde o catolicismo vê meio cheio. Onde Roma continuou agarrada à Grécia, sempre mais esperançosa nas capacidades humanas, a Reforma voltou aos braços judeus, eternamente desconfiados (o debate epistolar entre Lutero e Erasmo de Roterdão deveria ser parte do plano nacional de leitura). Do protestantismo veio consequentemente o puritanismo (que é tido como palavrão em países que não percebem nada de religião) e a paradoxal iniciativa privada, para referir apenas um par de exemplos dentro da clássica grelha weberiana (nem sempre acertada). Como os protestantes acreditam mesmo que sem Deus o Inferno é o único desfecho possível, o comportamento errado, que é a consequência natural da ausência de Deus, não é apenas para ser perdoado num esquema sacramental que o estabilize (a crítica feita à confissão auricular romana) – é para ser abandonado mesmo. Só as pessoas que se acham doentes é que levam a sério o que o médico diz.

Visitantes em Wittenberg, na Alemanha, diante da porta da Igreja do Castelo (Schlosskirche), onde a 31 de Outubro de 1517 Martinho Lutero pregou as suas 95 teses, dando início à Reforma Protestante. (Foto de Sean Gallup/Getty Images)

A Reforma Protestante confirmou a rigidez dos anglo-saxónicos e dos do norte da Europa porque a acção é uma solução mais eficaz para quem se concentra no problema. A capacidade de fazer do pessimismo antropológico uma iniciativa social nasce da convicção de que para sermos salvos, tudo (mas tudo mesmo!) depende de Deus (a “sola gratia”). O protestantismo, como o judaísmo, é dado aos paradoxos: os protestantes mexem-se mais porque sublinham que Deus é aquele que, de facto, age. O mundo protestante não sabe parar de inventar soluções porque tem os olhos grudados no que precisa de ser resolvido (e é por isso que, por exemplo, os americanos não sabem viver sem ter planos para tudo). O mundo católico é diferente porque, considerando que o homem não é assim tão mau, tem mais espaço descontrair diante dos problemas (a nossa especialidade mediterrânica não é ter planos mas desconfiar deles). Ora, em 2017 precisamos mais de Lutero porque vivemos no Ocidente obcecados pela auto-estima e pela ideia de que, bem vistas as coisas, somos todos bons rapazes e boas raparigas (para os que ainda aceitam os binários de género) – o Reformador Alemão não contribui para esse peditório.

Em segundo lugar, Lutero e os protestantes, concentrando-se nos problemas, investiram na educação como solução. Sendo os protestantes criaturas pessimistas, eles têm uma visão pedagógica mais urgente e ambiciosa. O protestantismo, obcecado pela palavra escrita (a “sola scriptura”), encontra nela a verdadeira resposta universal para todos os males. Recuperando o logocentrismo do judaísmo (não no sentido da lógica moderna mas no sentido do verbo), os protestantes retomam a ideia de que a verdadeira religião é o convívio com a Escritura. Logo, ensinam miúdos e graúdos nela. Não ler é não crer. Também é por isso que as nossas igrejas, despidas, parecem salas de aula, como assim já acontecia com as sinagogas. Ora, em 2017 precisamos mais de Lutero porque vivemos no Ocidente ensinados pelo desensino – como não se pode acreditar em verdades absolutas, as nossas Universidades têm o centro pedagógico na suposta criatividade do aluno e não na criatividade do que ele deveria aprender. Como podem calcular, Lutero não contribui para esse peditório.

Em terceiro e último lugar, Lutero e os protestantes não sabem estar calados. O Presidente Mário Soares tinha razão quando, há uns anos, disse que somos “fanatizados”. É óbvio que nessa altura Mário Soares, apesar de ter razão, deveria ter sido corrido da Comissão para a Liberdade Religiosa que então presidia mas, como somos todos culturalmente católicos em Portugal, ninguém tomou a contradição entre a sua função e a declaração que prestou como um verdadeiro problema. Fosse num país culturalmente protestante e Soares teria de vir pedir desculpa a sério (e não à socialista). Mas divago. O certo é que para o protestantismo, deslumbrado pelo poder da palavra divina, todo o comportamento humano segue em conformidade. Os protestantes não sabem segurar as palavras porque são criaturas da palavra. Cantam, falam, pregam, testemunham, dançam, proselitizam, porque para nós uma boca fechada ou um corpo quieto são garantias da ausência de Cristo. Os protestantes são olhados com desconfiança em Portugal porque, onde as pessoas associam fé a sossego, nós surgimos como exoticamente extrovertidos (actualmente, somos vistos como a religião dos brasileiros, das empregadas domésticas e dos trafulhas para sacar dízimos – estando nós longe das taxas de aprovação social, estamos mais perto de dizer aquilo que precisa de ser dito independentemente delas). Ora, em 2017 precisamos mais de Lutero porque vivemos no Ocidente escondidos em teorias estéticas abstractas para não termos de pôr a boca no trombone daquilo que é verdade em qualquer época ou qualquer lugar.

Se um português quiser entender melhor o mundo à sua volta, precisa de conhecer a Reforma Protestante. Vai entender melhor a cultura americana que lhe moldou os gostos, vai entender melhor a euforia religiosa que varre a América do Sul, África e Ásia (em números bem superiores do que o islamismo), e vai entender também melhor o seu próprio catolicismo em Portugal. A pior maneira de honrar a memória de Lutero é torná-lo mais um a dizer mais do mesmo. Quem o quiser ler sairá a ganhar, ainda que abocanhado por aquele alemão irrequieto.

Tiago Cavaco é pastor da Segunda Igreja Evangélica Baptista de Lisboa, no bairro da Lapa.

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