Universidades

Fingir que não aconteceu

Autor
1.380

No Reino Unido, houve fugas em exames. Mas assegurou-se a justiça na avaliação, puniu-se quem violou o sigilo e iniciou-se a revisão das regras. Será demasiado ambicionar algo semelhante em Portugal?

Os resultados do acesso ao ensino superior foram publicados. Lê-se que há sete anos que não havia tantos alunos colocados e, ainda, que aumentou a procura de cursos nos politécnicos. Essas são as notícias boas. Mas falta falar das notícias más: alguém sabe o que aconteceu quanto à fuga de informação no exame de Português? A questão não é um pormenor e vem muito a propósito, pois as notas dos exames contam para o acesso ao ensino superior. E uma das muitas questões que se impõem é, precisamente, se houve quem, por via do benefício dessa fuga de informação, conseguisse melhor nota e uma vaga no curso desejado, ultrapassando indevidamente outros alunos. Ora, a questão continua sem resposta. E a situação é demasiado grave para que se finja que não aconteceu.

O exame nacional de Português decorreu no dia 19 de Junho tendo, nos dois dias seguintes, vindo a público o relato de uma fuga de informação. É que, antes da realização da prova, uma aluna pôs a circular na internet uma gravação áudio, indicando aos colegas os conteúdos que constariam na prova – incluindo o tema da composição, tal e qual como veio a confirmar-se e teria sido impossível de adivinhar. Ou seja, tudo indica que a fuga de informação foi real. Ora, no dia 8 de Julho, noticiou-se que a professora que deu origem à fuga teria sido identificada e que, além disso, já teria sido alvo, em anos anteriores, de suspeitas semelhantes (embora não concretizadas por ausência de provas). Do que se sabe, o IAVE entregou o assunto à Inspecção Geral da Educação e ao Ministério Público. Por lá ainda andará.

Entretanto, o ministro da Educação informou o país que o exame de Português não seria anulado, mas que haveria penalizações para os alunos comprovadamente beneficiados. Isto para além das consequências que recairiam sobre a professora na origem da fuga, que violara o dever de sigilo e traíra a confiança do sistema. E que, ainda por cima, o fez em total conflito de interesses, enquanto explicadora, retirando benefícios económicos da informação privilegiada que detinha. Quanto aos alunos, não é certo como poderia o ministro cumprir a sua promessa de penalizar os alunos beneficiados, muito menos de como os identificaria – a decisão de não anular o exame é muito discutível. O que se sabe por certo é que os resultados do acesso ao ensino superior foram publicados, sem consequências conhecidas ou sequer menção a esta situação.

O tempo vai passando. Na próxima semana, assinalar-se-ão três meses desde a realização do exame. O ano lectivo arrancou, os alunos foram colocados no ensino superior e, muito possivelmente, a professora em causa estará a dar aulas. É como se não nada tivesse acontecido. Só que aconteceu. E as perguntas acumulam-se. Como é que quem elabora provas de exame nacional também dá explicações de preparação para o exame? As regras permitem-no? Haverá outros casos? Que consequências sofrerá a professora? Como serão identificados os alunos beneficiários da fuga de informação? Como serão penalizados no exame nacional? E que impacto terá essa penalização no seu acesso ao ensino superior? Afinal, está em causa a confiança pública na integridade do sistema de avaliação dos alunos e no acesso ao ensino superior. E dar como resposta que o assunto está nas mãos do Ministério Público não basta para justificar a inacção (em termos disciplinares) ou para prolongar a injustiça (para os alunos, nos exames e no acesso ao superior).

Este Verão, no Reino Unido, rebentou um escândalo sobre fugas de informação em exames de acesso à universidade (“pre-U exam”). Tudo começou quando um dos professores mais prestigiados de Eton (a escola das elites) foi apanhado a partilhar questões do exame de economia com colegas. O professor foi despedido e as respostas dos alunos a essas questões não foram consideradas. Entretanto, casos similares vieram a público, noutras escolas e noutros exames. Em cada situação, a cena repete-se: provas anuladas e professores responsabilizados. Mais: perante as ocorrências, a autoridade inglesa sobre os exames informou que iria rever as regras de elaboração de provas, de modo a impedir que professores beneficiassem alunos das suas escolas. Ou seja, assegurou-se a justiça na avaliação dos exames, puniu-se quem violou a confiança do sistema e iniciou-se um processo de revisão de regras. Tudo feito no devido tempo, sem hesitações ou complacências.

Será demasiado ambicionar algo semelhante em Portugal? É que, por cá, foi precisamente ao contrário: tornou-se injusta (porque desigual) a avaliação dos exames nacionais, não se conhecem responsáveis ou consequências, e o assunto parece ter caído em esquecimento. São golpes destes que, aos poucos, vão ferindo a confiança no Estado.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Web Summit

#aculpaédoPassos

Alexandre Homem Cristo
1.734

Sob pressão, o governo atira com acusações falsas. Foi assim sempre que algo correu mal. Este comportamento constitui uma irresponsabilidade muito mais indigna do que qualquer jantar no Panteão.

Catalunha

Estar do lado da República

Alexandre Homem Cristo
207

A Catalunha é o campo de batalha onde prossegue a guerra destes tempos – a do ataque ao liberalismo. São os valores republicanos que precisam de defesa. Contra Puigdemont, como contra Trump e Le Pen.

Universidades

Reitor me confesso

António Fidalgo
350

Os reitores fazem verdadeiros milagres, omeletes sem ovos. Um estudante fica mais barato ao Estado do que um aluno do secundário. E qualquer casal paga mais pelo filho na creche do que na universidade

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site