Casa Branca 2016

Obama out

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O que tem Obama de especial? Uma coisa simples: a cor da sua pele não se tornou um anátema mas também não foi por ela que a sua presidência ficará para o futuro como um exemplo da nação.

“Ouviram”? Deixando cair o microfone, o primeiro Presidente negro da América começou a deixar o centro do palco. Ou melhor, fez de conta que saía, sabendo que o seu lugar na História dos Estados Unidos poderá situar-se ao lado de Kennedy, de Roosevelt ou de Lincoln.

Um exagero?

Perto do final do ano, seguramente nos próximos anos, inúmeros serão os balanços sobre a presidência Obama. Mas o homem escreve continuamente ensaios sobre o que esses balanços serão: cada intervenção sua, cada discurso, marcam, continuam a marcar, o imaginário dos seus compatriotas, como o dos europeus e o de muitas pessoas à volta do Mundo.

O que tem Obama de especial? Uma coisa simples: a cor da sua pele não se tornou um anátema mas também não foi por ela que a sua presidência ficará para o futuro como um exemplo daquilo que de extraordinário tem a grande nação americana. Obama é um exemplo de inteligência, bom senso e carisma. E é, sem sombra de dúvida, um dos mais fantásticos comunicadores políticos dos nossos tempos. Para além disso deixa uma notável herança e a América que lhe suceder honrá-la-á ou renegá-la-á, pois não há neste caso meio termo.

Sobre a sucessão, o Presidente deixou claro o que vaticina (e deseja?): “Para o ano por esta altura, outro (presidente) estará neste preciso lugar, e qualquer um pode tentar adivinhar quem ela será”. Clinton. Estará Hillary à altura do desafio? Da herança de Obama?

A presidência de Barak Obama não foi o que esperavam nem apoiantes nem detractores. Foi outra coisa. O balanço não está feito, repito, mas podemos começar a pensar no assunto, porque não? Numa perspectiva tão descomprometida quanto possível, reconheça-se que o “obamacare”, talvez a sua maior promessa eleitoral, não foi um sucesso completo. O compromisso de garantir seguros de saúde universais para todos os americanos não resultou totalmente, havendo ainda milhões sem cobertura de saúde. E se na economia a recuperação americana é indiscutível, sobretudo se comparada com o que se passa (ainda hoje) do lado de cá do Atlântico, a legião de desiludidos com o sonho americano engrossa as fileiras de Trump.

Acompanhem-me por algumas linhas menos “glamorosas”: entre 1990 e 2000 (anos do “outro” Clinton) o número de pessoas a viver em zonas muito pobres, aquelas em que há mais de 40% das famílias abaixo do nível de pobreza federal, baixou 25% (de 9,6 para 7,2 milhões). Entre 2000 e 2013, quase duplicou, chegando aos 13,8 milhões, um record. Arquitectura da segregação, chama-lhe Paul Jargowsky, resultado de políticas públicas erradas.

Mas concentremo-nos nas boas notícias. A perder quase 800 mil empregos por dia no início do turno Obama, a economia recuperou, com a criação de emprego a crescer a bom ritmo no sector privado. O Presidente salvou a indústria automóvel americana, diminuiu o défice, alterou as regras do funcionamento do sistema financeiro e regulou a produção dos combustíveis fósseis. Obama, escreveu Michael Grunwald no Político de Fevereiro, também foi revolucionário na educação, com um programa maciço de empréstimos públicos a estudantes com poucos rendimentos; e liderou um conjunto de “revoluções tranquilas”, no dizer de Grunwald, como a forma do país produzir e consumir energia, a trajectória e sustentabilidade das contas públicas, a aceitação de homossexuais, a energia solar, a superação da ideia de que os maiores bancos são demasiado grandes para falhar. “Obamacares”, poderia dizer-se.

Na política externa, o em breve ex-Presidente normalizou (ou quase) as relações com Cuba. Resolveu, pelo menos no imediato, a ameaça nuclear iraniana. Retirou as botas americanas do solo iraquiano e do Afeganistão. Reforçou os laços com a Europa Ocidental. E lançou as fundações de um ambicioso acordo comercial com este lado do Atlântico. Mas falhou a retoma das relações com a Rússia. Não obteve uma solução para o conflito no Médio Oriente. Não fechou Guantanamo. E não concluiu o tão sonhado (por si) acordo transatlantico, para muitos outra pedra de toque da sua política económica, para outros uma espécie de Armagedão.

Mas mais do que tudo, chaga aberta no cômputo dos seus mandatos, ecoa o lamento oculto nas palavras optimistas de Obama, por não ter conseguido enfrentar com sucesso o desafio do controlo das armas, num período com tantos episódios de massacres (em liceus mas não só).

Obama Out: que Presidente é este, primeiro negro a chefiar a maior Nação do Mundo, um homem tão inspirador que conta milhões de admiradores espalhados pelos cinco continentes? O que ficará do seu legado?

Que homem é este que se permite falar da questão racial sem acintes mas com fina ironia? “Eu movo-me a CPT (“coloured people’s time”), o que se traduz por ‘piadas que os brancos não devem fazer’” disse, alusão ao atraso do início da cerimónia dos correspondentes. Que à crítica de Trump sobre a escolha de Harriet Tubman, célebre abolicionista (também negra), para primeira mulher a figurar numa nota de 5 dólares, como uma medida “politicamente correcta”, respondeu: “Se este material funcionar bem, usá-lo-ei na Goldman Sachs para o ano que vem. Para ganhar uma pilha de Tubmans (“Earn me some serious Tubmans”). Que homem pode assim troçar com simpatia de amigos e adversários, presentes e ausentes? Não escaparam Sanders, Hillary, Cruz. E, claro, sobretudo “o Donald” (Trump). “O lado republicano está incrédulo com o seu mais que provável nomeado – incrédulo, chocado. Dizem que Donald não tem experiência em política externa (…). Mas é justo lembrar que ele passou anos a encontrar-se com líderes de todo o mundo: Miss Suécia, Miss Argentina, Miss Azerbeijão.

Que Presidente é este que cita… a guerra dos tronos (“é como o casamento sangrento” – “it’s like the red wedding”)?

O que é que Obama tem? Como julgará a posteridade o 44º Presidente norte-americano? O melhor de sempre? Ou o pior? Um republicano disfarçado, protetor do “establishment” e dos ricos, levando a uma inédita desigualdade entre os mais ricos e pobres, como alguns afirmam? Um reformista em áreas como a segurança na saúde, educação, sistema financeiro, costumes, contas públicas? Um “entertainer”? Um estadista, que deixa marcas na cena mundial? Um incumpridor de promessas, que deixa o Mundo a arder das fronteiras leste da Europa à Síria, passando por África, Afeganistão, sem esquecer a ameaça candente e fluida do Daesh?

Ou verão nele os seus detractores apenas o primeiro americano negro a presidir aos EUA, um hiato na história que a normalidade wasp (brancos, anglo-saxões e protestantes) apagará? Fazem mal, pois nada leva a pensar que assim seja, pelo contrário: os méritos de Obama vão certamente muito para além da espuma dos dias.

É cedo, muito cedo para saber. Mas arrisco-me a dizer que vamos ter saudades de Barak Hussein Obama. Eu pelo menos vou.

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