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Amor

Uma única lição que Portugal deveria aprender com o Brasil

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Foi aí que percebi que “eu te amo” seria uma belíssima solução para o amor português. Na verdade, nós no Brasil nem falamos o “eu”. Basta o “te amo”. O que importa é que é uma expressão fácil.

Sei que meu país está o caos. Sei que atualmente não somos exemplo para quase nada. E fui eu mesma que escrevi há pouco tempo sobre as diversas coisas que o mundo deveria aprender com Portugal. Mas existe uma coisa em especial que Portugal deveria repensar. E essa coisa é uma expressão chamada “amo-te”.

Primeiramente, em minha defesa, gostaria de dizer que há dezenas de expressões e palavras portuguesas que eu adoraria que fossem adotadas no Brasil. Toda vez que vou ao Brasil sinto falta delas. “Giro” é uma palavra fantástica. É maravilhosa porque não te obriga a definir exatamente qual o seu sentimento em relação ao objeto ou pessoa. É uma mistura de bonito, interessante, simpático, engraçado. É uma palavra muito confortável. Comichão é muito melhor do que coceira e passadeira é muito melhor do que faixa de pedestres. Escaldão e cieiro são palavras que simplesmente não existem no Brasil. Não temos equivalente. Dizemos que nos queimamos demais no sol e que estamos com os lábios ressecados. São palavras que deveriam ser imediatamente importadas pelo meu país.

Mas confesso que sempre achei “amo-te” uma expressão estranha, truncada, pouco musical. É exatamente o oposto de “Oh pá!”, que é uma expressão sonoramente agradável e fácil de encaixar em diversas circunstâncias. “Amo-te” nunca me pareceu algo confortável de se dizer, muito embora acreditasse que fosse uma impressão minha, por mera falta de hábito.

No entanto, estava lendo Miguel Esteves Cardoso um dia desses, quando me deparei com esta questão que há tempos me perturbava. O escritor afirma que dizer “Eu amo-o” ou “eu amo-a” é um verdadeiro incômodo fonético, muito diferente de “I love you” ou de “Je t’aime”. Mas também frisa ser um tanto quanto embaraçoso tentar expressar amor numa língua estrangeira sem que haja uma real razão para tanto.

Foi aí que percebi que “eu te amo” seria uma belíssima solução para o amor português. Na verdade, nós no Brasil nem falamos o “eu”. Basta o “te amo”, que no dia a dia vira “tchamo” e em momentos de muita pressa “tcham”. O que importa é que é uma expressão fácil, que quase escapa das nossas bocas por ânimo próprio.

Frequentemente ouço portugueses dizerem que nós, brasileiros, somos mais capazes de demonstrar sentimentos. Talvez. Somos de fato mais desinibidos e somos constantemente encorajados a demonstrar afeto. Mas acredito que o “te amo” tenha um grande papel nisso.

Não sei bem se os portugueses conseguem utilizar o “amo-te” de forma tão natural e corriqueira quanto nós usamos o “te amo”. Na minha casa, 66% portuguesa e 33% brasileira, o “te amo” impera. O beijo na testa da minha enteada portuguesinha antes de dormir é seguido de “te amo”. Meu marido, também português, há uns anos rendeu-se ao “te amo”, sem grande resistência. Não sei se fiz alguma espécie de neo-colonização cultural, mas parece-me que seja apenas o “te amo” que apresenta-se de forma simpática e tão confortável quanto o “giro” e o “oh pá”.

A vida leva embora as pessoas que a gente ama rápido demais, não podemos economizar demonstrações de afeto. Com gestos, abraços, olhares e palavras. Parece-me que o “te amo” é um elemento facilitador nesse cenário, coisa que o “amo-te”, apesar de todo seu valor, não consegue fazer. Enfim, não custa tentar. Até porque palavras de amor nunca existem em exagero.

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