Só uma das sondagens publicadas esta quinta-feira, a do Diário de Notícias, se atreve a fazer uma estimativa: a abstenção deve rondar os 48% nas eleições do próximo domingo, diz a Universidade Católica. Seria a segunda melhor taxa de participação de sempre, muito perto da registada em 1989, quando ‘apenas’ 48,9% dos eleitores portugueses decidiram não ir às mesas de voto.

Pedro Magalhães, politólogo, alerta que “os valores que aparecem nas sondagens não devem ser encarados como uma previsão da abstenção” e aponta dois motivos para tal. Por um lado, “as pessoas que não votam não têm tanta propensão para responder as sondagens” e, por outro, “as pessoas tendem a não admitir” que não votam, por ser “um comportamento socialmente condenável”.

Acontece que a abstenção tem baralhado sempre as previsões de resultados nas europeias – mais do que em outros atos eleitorais, precisamente porque ela é tradicionalmente mais elevada quando se vota para o Parlamento Europeu. No seu blogue pessoal, Pedro Magalhães recorda algumas das “surpresas importantes” que as noites eleitorais trouxeram para os eleitores e para as empresas que fazem estes inquéritos de opinião.

  • No sufrágio de 1999, por exemplo, as sondagens davam cerca de 50% das intenções de voto ao PS, mas os socialistas ficaram-se pelos 43%. Além disso, “CDU e CDS superaram as expetativas”, escreve Pedro Magalhães, investigador na área de ciência política no Instituto de Ciências Sociais. Nesse ano, a abstenção foi de 60%.
  • Em 1994 o PS era oposição. As sondagens atribuíam-lhe 42% das intenções de voto, mas a noite eleitoral saldou-se por 35% – aliás bastante próximo do PSD, que perdeu por décimas. Os outros partidos, recorda Pedro, “tiveram melhores resultados do que aquilo que as sondagens sugeriam”. Nessa véspera de Santo António registou-se o maior valor de abstenção em eleições europeias até hoje: 64,46%.
  • Dez anos depois, foram 61% os eleitores que decidiram não ir até às mesas de voto. Nas eleições desse ano, refere Pedro Magalhães, as sondagens atribuíam cerca de 37% dos votos à coligação entre PSD e CDS, mas os dois partidos, que na altura eram Governo, não foram além dos 33%, enquanto que PS e CDU se portaram melhor do que era previsto.
  • Nas últimas europeias, em 2009, o Partido Socialista saiu derrotado. As sondagens apontavam para uma vitória a rondar os 35%, mas a lista encabeçada por Vital Moreira não foi além dos 27%. No caso do PSD poucas surpresas houve face ao que era previsto, mas tanto CDU como Bloco e CDS viram as suas percentagens superar as expetativas.

Pedro Magalhães chega, assim, a algumas conclusões. A primeira é a de que a CDU teve sempre, em todos os sufrágios, mais votação do que aquela que lhe era apontada pelos estudos de opinião. A confirmar-se a tradição, isso pode significar um resultado histórico para os comunistas: é que a sondagem de hoje da Católica para o DN admite já a hipótese de um quarto eurodeputado para a CDU.

Também o CDS, quando optou por correr sozinho, obteve melhores resultados do que quando correu em coligação – em 2004 a aliança PSD/CDS ficou a 11 pontos percentuais do PS. Neste ponto, haverá uma boa explicação: os centristas só estiveram em coligação quando estavam em funções no Governo e os governos custumam ser penalizados nas urnas.

Uma tendência que, aliás, só em 1994 não foi seguida. Nesse ano, houve empate técnico entre PSD (no Governo) e PS.