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“Então, amanhã só tens que existir.” Foi desta forma sintética que a minha namorada resumiu a tarefa que me tinha sido proposta de passar um dia sem consumir energia – eletricidade, gás, gasolina, etc. Durante 24 horas, eu ia regredir séculos e não depender de outra energia que não a do meu corpo.

Os despertadores, portáteis, televisores e telemóveis foram desligados perto da meia-noite de terça-feira. Deixei um alarme programado para a meia-noite de quarta-feira. Algumas velas foram distribuídas pela casa. Só o frigorífico ficou ligado, porque ia ser um desperdício deixar estragar tudo o que estava armazenado. Fui-me deitar depois de ter visto um episódio da série Mad Men, que terminou com a música: “The best things in life are free.” Achei que era um bom prenúncio para o dia seguinte.

Ficar sem despertadores não me preocupou muito, para ser sincero. É possível acordar de várias formas e os 30 m2 onde moro já me proporcionaram de tudo: seja o vizinho que por estar sol decide colocar as colunas na varanda e dar música ao bairro inteiro ou pelo barulho de alguém a barrar algo numa torrada. Sim, a minha casa tem um péssimo isolamento sonoro. Na quarta-feira, acordei com o barulho do elétrico a passar e como não ouvia os vizinhos que costumam ir levar as crianças à escola, apercebi-me que já passava das 10h00.

O Kobo (um e-reader) estava desligado em cima da mesinha de cabeceira. Na sala, tinha deixado um caderno novo e caneta para ir tomando notas da minha experiência ao longo do dia. (Lembro-me de ter lido uma notícia há algumas semanas que dizia que quem tirava notas no papel memorizava mais informação que ao escrever num tablet ou computador.)

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E tal como a grande maioria dos portugueses, acho eu, o primeiro reflexo que tenho após levantar-me e ir à casa de banho é o de ligar a máquina de café. Os olhos ainda estavam semi-cerrados e a cafeína parecia-me um elixir dos deuses. Mas como é que se faz café sem electricidade ou gás? Mais correctamente: a máquina e as cápsulas estavam lá, mas eu não as podia utilizar. Também não tinha como fazer uma fogueira como nos Westerns americanos. Fiquei a olhar para a máquina durante alguns segundos até me começar a rir. Avizinhava-se um problema para o dia inteiro.

Logo a seguir surgiu outro desafio. Tal como algumas crianças pensam que o leite vem dos supermercados e depois ficam fascinadas com aqueles mamíferos gigantes a que chamamos vacas, o gás canalizado teve o mesmo efeito comigo. Nem por momentos me lembrei que ia precisar dele para tomar um banho quente. (Nota: achei que seria melhor para o bem da higiene pública considerar que a água canalizada que me chega a casa sem qualquer esforço, fosse como um “ribeiro canalizado” e eu fosse um caçador-recolector que acampou ao lado de um recurso natural essencial à sobrevivência.) Mesmo assim, anotando esta pequena batota, tomar banho de água fria foi algo pouco romântico. E as temperaturas não estavam particularmente altas neste dia.

Ainda estava a vestir-me para sair à rua, quando o telefone fixo toca pela primeira vez. Apercebo-me de que me esqueci de avisar os meus pais que neste dia ia estar incontactável. Nada a fazer, mais um ponto negativo para a lista dos maus filhos.

A minha faceta de homem caçador-recolector por um dia agravou-se muito quanto tive de sair de casa. Por momentos, parecia que andava na rua com uma lança na mão. Na minha cabeça só passava a expressão: “mim, caçar.” E ria-me sozinho.

Antes de ir “às compras”, fui até ao quiosque mais próximo ver as capas dos jornais. Na terça-feira, António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tinha desafiado António José Seguro pela liderança do partido socialista e queria saber como é que as coisas se estavam a desenrolar. Mas as manchetes do dia não acrescentavam nada que eu já não soubesse no final do dia anterior. O que é que aconteceu hoje? Será que morreu alguém importante? Sem televisão, rádio ou internet, aquelas iam ser as únicas notícias que ia ter do dia, pensava eu.

Como estava impossibilitado de cozinhar durante todo o dia e com o estômago ainda vazio, decidi ir comprar fruta e vegetais – ia ser essa a minha dieta para o dia, um vegetarianismo mais rudimentar. Se eu tivesse algum tipo de terreno de cultivo, esta necessidade básica estaria suprida, mas como não, tive de optar por um “sistema de trocas”. Eu dei moedas – na minha cabeça eram como coelhos que tinha caçado com o esforço do meu trabalho – em troca de frutas e vegetais.

fotografia

Bloco de notas, no dia seguinte. D.R.

Apologia à ausência de tecnologia (às vezes)

Estou numa profissão em que não ter telemóvel é impensável. É necessário para tantas funções que nem vou dar-me ao trabalho enumerar. Telemóvel, portátil e tablets precisam de bateria para funcionarem. A tecnologia precisa de energia.

Saí de casa e estava incontactável, o que me provocava uma sensação de liberdade e irresponsabilidade ao mesmo tempo. Talvez por isso, estava mais atento às pessoas que passavam e utilizavam o telemóvel. Por cada 10 pessoas quem passavam na rua, quatro estavam a utilizar o telemóvel, fiz eu a conta de cabeça. Algumas caminhavam com ele na mão sem o estar utilizar e não consegui deixar de pensar que andavam a passear tecnologia, tal como algumas pessoas passeiam os seus animais domésticos. (Eu também já fiz isto, é claro.)

Depois de um almoço muito verde e cru, saí de casa para passear. O sol já ia bem alto. Passo na rua Augusta e vejo um aglomerado de pessoas. Estavam lá todas as televisões portuguesas, aquilo só podia ser uma “notícia”. Pergunto a uma senhora que olha muito compenetrada para situação e diz-me que tinha acontecido ali um esfaqueamento, num consultório. Amanhã isto deve fazer manchete de alguns jornais, pensei.

Na rua Áurea, vejo com espanto as filas que se formam para subir o elevador de Santa Justa. Para aquelas pessoas o “belo” está no monumento em si, não no que o faz mexer. Mas para mim, todos os carros, elevadores, eléctricos, edifícios com música pareciam ter uma propriedade que me era estrangeira. É importante referir que não precisei de meios de transporte para me descolar para o centro da cidade, se não ia ter mais um desafio energético.

Vejo adolescentes sentados numas escadas a fumar em cigarros electrónicos – até os cigarros são electrónicos agora? Os turistas com os seus tablets a servirem de guias. Para testar ainda mais os limites do meu dia, decido fazer uma “visita antropológica” à FNAC do Chiado. Reparo que para descer para o piso da loja tenho de passar por umas escadas rolantes. Faço marcha atrás e entro numa loja ao lado que tem acesso àquele piso, como num jogo com labirintos. Lá dentro, vejo pessoas a contemplarem os modelos mais recentes de tablets ou telemóveis. E se não existisse energia para fazer funcionar aquilo?, penso. Seria tudo objectos ocos e sem utilidade? Tenho de me controlar para não discorrer num apocalipse tecnológico, como na série televisiva Revolution do JJ Abrams.

Aproveitei para andar durante algumas horas na baixa lisboeta. Ia parando em alguns sítios para tomar notas e ler. Esta semana ando a ler a “Condição Humana” da Hanna Arendt – coincidência feliz? Estava com terríveis enxaquecas de não ter tomado nenhum café.

Já perto do final do dia, voltei a casa e decidi ir correr. Normalmente, iria ao ginásio, mas como “chãos electrónicos” estavam fora de hipótese, decidi-me pelo alcatrão que vai do Cais do Sodré a Alcântara. Para descansar a meio da corrida, deitei-me numa zona de relva. Olhei durante alguns minutos para o céu. Só me vinha à memória a música do episódio de Mad Men que tinha visto: “The best things in life are free.” Voltei para casa a correr e tomei o segundo banho frio do dia, que pareceu-me ser bem mais quente que o primeiro.

(Era suposto neste parágrafo existir uma fotografia do jantar, mas o Fábio estava proibido de usar a máquina…)

O maior desafio chegou com o anoitecer. Até então tinha passado pela minha fase de “caçador-recolector” sozinho e sem a interferência de ninguém. Convenhamos que é um pouco difícil convencer alguém ao chegar a casa, que hoje não vamos poder ligar a televisão, computadores ou cozinhar de forma “tradicional”.

Preparei mais uma salada muito “rudimentar” à luz de velas. E, umas quantas vezes, fui alvo de piadas devido à dedicação que estava a empregar neste dia. Não consegui deixar de achar irónico que há algumas semanas tivesse feito piadas sobre os meus vizinhos fazerem um churrasco na varanda. Que inveja que tinha naquele momento.

Algo que reparei ao jantar foi que conversar sem um telemóvel, televisão ou computador pelo meio faz imensa diferença. A atenção que se dedica a cada palavra é muito superior. Não estar a pensar se recebi algum email, uma mensagem no facebook ou um tweet, é de certa forma uma experiência libertadora.

Por estranho que pareça, à noite o bairro estava muito silencioso, quando os Santos populares começam no final desta semana. Aproveitamos o silêncio sem interferências para conversar e ler. Continuei a ser alvo de piadas da minha personificação de homem das cavernas. Não dei conta do tempo passar, confesso. Quando chegou a meia-noite, o meu telemóvel soou o alarme. Dirigi-me ao interruptor e , sem pensar duas vezes, cliquei.

 

 

Nota do editor (Ricardo Oliveira Duarte): são 12:30 e acabei de ler este texto pela primeira vez. Depois de ter desafiado o Fábio a entrar nesta aventura por um dia decidi ontem ligar-lhe para o telemóvel. Tocou, tocou, tocou… E nada.