O adeus. A derradeira despedida. O último espetáculo de um grupo que ajudou a escrever a história da comédia mundial. Há quem lhes chame os Beatles do humor: a forma como influenciaram a comédia é muitas vezes comparada com o impacto da banda britânica na música. Décadas depois, os membros sobreviventes de Monty Python regressaram aos palcos para um conjunto de espetáculos — Monty Python Live (mostly). A décima e última performance (de sempre) acontece este domingo às 19h00. À semelhança das restantes, vai ter lugar na O2 Arena, em Londres, com transmissão em direto para cerca de 1.500 cinemas em todo o mundo, Portugal incluído.

O estádio que recebe os espetáculos acolhe 15 mil pessoas e tem sido preenchido com a ajuda de uma orquestra ao vivo, filmagens, efeitos especiais e a animação surreal de Terry Gilliam. Agora, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Michael Palin, Terry Jones e, em vídeo, o falecido Graham Chapman vão, pela última vez, dar voz e corpo a um humor que há 45 anos cativou a Inglaterra e, depois, o mundo.

O primeiro espetáculo  foi encarado como uma oportunidade para os fãs desfrutaram de antigos sketches dos Python. O crítico do Hollywood Reporter disse que a performance em palco mostrou “os grandes erros e hits dos Beatles da comédia”. Stephanie Merritt, do  The Observer (associado ao The Guardian), dá ênfase à nostalgia e à celebração “do contributo extraordinário que estes homens deram à comédia moderna”. Destaca a “química” que se mantém real entre os membros do grupo, mas explica que a reunião traz poucas supresas. Peter Bradshaw, também do The Guardian, escreve que o “Monty Python Live (Mostly) não é mau: dá à audiência exatamente o que ela quer, mas depende muito do amor dos fãs”. Diz ainda que não foi feito grande esforço na atualização do guião. O Telegraph por sua vez, escreve que “os Pythons chegaram e conquistaram a audiência”.

Ainda assim, as performances não estão isentas de falhas: na noite de abertura, Cleese esqueceu-se de uma fala durante o famoso sketch do papagaio morto. Nada que diminua o sucesso — os bilhetes do primeiro show esgotaram em 43 segundos, contou a CNN.

Por terras lusas, o comediante Nuno Markl criticou a forma como a imprensa britânica tratou o grupo. Na sua página oficial de Faceboook escreveu: “A crítica teatral britânica desiludiu de duas maneiras: pela total e completa falta de respeito de alguns textos para com os tipos que inventaram a comédia moderna, gozando alarvemente com as marcas físicas da idade dos elementos do bando, e ao dar mostras de uma alarmante ignorância”. Diz ainda que, demorou o seu tempo, mas que “deixou de ser fixe gostar dos Monty Python”.  No entanto, Markl não pensa assim e mantém-se fiel ao grupo. “Há cabelos brancos (e falta de cabelos genérica), há rugas, há barrigas, há menos agilidade de movimentos (embora os saltos do Terry Gilliam na Inquisição Espanhola ainda sejam qualquer coisa) e não há a frescura de outros tempos. (…) Dito isto, digo também que foi dos melhores espectáculos que vi na minha vida”.

Python e o humor nonsense

Tudo começou com cinco ingleses e um americano: dois estudantes de Oxford (Terry Jones e Michael Palin), três de Cambridge, (John Cleese, Graham Chapman e Eric Idle) e o americano cartoonista e também realizador, Terry Gilliam. Uma união que foi o berço da comédia televisiva Monty Python’s Flying Circus, cujo primeiro episódio foi exibido em outubro de 1969, na BBC. A esse seguiram-se outros 44 e o programa só saiu do ar em 1974.

Foi durante as décadas de 1970 e 1980 que o gang Python ganhou uma maior audiência graças ao sucesso de filmes como Monty Python e o Cálice Sagrado (1975), A vida de Brian (1979) e O Sentido da vida (1983). O primeiro filme referido perdura até hoje por causa do musical Spamalot.

Os Monty Python deixam um legado de humor nonsense, satírico e irreverente. A palavra “pythonesque” é real e figura nos dicionários da língua inglesa. Ao vocabulário acrescentam-se expressões que ganharam vida e que hoje fazem parte do nosso quotidiano. São exemplo “Ninguém espera a inquisição espanhola!” e “Spam! Spam! Spam!”, que originou a palavra “spam” associada ao e-mail.