Está à entrada de um supermercado. Um hiper, vá. Dos grandes, mesmo. Dão-lhe um carrinho de compras e uma nota de 20 euros para as mãos. Com eles, uma missão: reunir os melhores ingredientes possíveis para uma paella. Depois, pedem-lhe para fazer o mesmo, agora com uma nota de 500 euros na carteira. A conclusão não é difícil — com mais dinheiro, escolhem-se melhores ingredientes. E em maior número. O resto, vem com o trabalho do cozinheiro. Ou, lá está, dos próprios ingredientes.

Porque assim, com estes jogadores, a tarefa do treinador do Real Madrid até parecia fácil. Gareth Bale, Luka Modric, Toni Kroos, James Rodríguez, Karim Benzema e Cristiano Ronaldo, todos juntos e todos titulares no Real Madrid. Um craque atrás do outro. Eram estes seis e mais cinco. Não é insistência, é a verdade. E a bola provou-o. Como? Foi cínica.

Durante a primeira parte, aconchegou-se quase sempre nos pés merengues. Parecia que não queria outra companhia. Entende-se porquê. Em Kroos e Modric tinha dois pares de pantufas, sempre prontos a recebê-la, dominá-la com calma e fazê-la circular pelo relvado. Um pouco à frente, James Rodríguez era a primeira portagem, o filtro que a acelerava e lhe dizia para seguir viagem para as alas. Sobretudo, para o lado de Gareth Bale, o galês que, em Cardiff, jogava em casa. E que, aos 18 minutos, podia ter marcado, mas rematou antes contra Nico Pareja.

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Antes, um ingrediente, o de paladar mais forte, já funcionara sozinho. Ronaldo, aos 14’, ganhara um livre e, ao batê-lo, fez a bola passar um palmo por cima da barra da baliza de Beto. Foi perto. Aos 26’, o português, agora em movimento, recebeu um passe de Benzema dentro da área e, de pé direito, rematou contra Beto. Outra vez perto. Aos 30’, deixou de estar: marcou mesmo.

Num contra-ataque, a bola chegou a Bale, na esquerda, que, a uns bons 35 metros de Ronaldo, cruzou a bola e a fez chegar ao pé direito do português. Resultado: golo e 1-0 para o Real Madrid. E mais. Ronaldo marcava o seu 69.º golo em jogatanas europeias, descolava de Lionel Messi, igualava Gerd Müller e, pela primeira vez da noite, superava Eusébio — tornava-se no primeiro português a marcar em três finais europeias (Moscovo, em 2008, e Lisboa e Cardiff, em 2014).

Golo marcado e ritmo reforçado. Mesmo. Com o 1-0, o Real não abrandou. A bola continuou sua e, mesmo sem criar perigo, raro era o ataque da equipa que não conseguia chegar à grande área do Sevilha. Os andaluzes, de resto, faziam o que podiam. No meio, Daniel Carriço corria, corria e corria, mas, por cada bola que cortava, outras duas ou três passavam por si.

Aos 34’, porém, foi ele que rematou na área do Real contra Casillas, após um ressalto lhe meter a bola nos pés, após um canto. Denis Suárez, miúdo emprestado pelo Manchester City, era o único ousado do Sevilha que, com bola, tentava inventar coisas que arruinasse o Real Madrid. Carlos Bacca, avançado colombiano da equipa, era um sabor doce abafado pela acidez do prato que os merengues serviam no relvado. E continuaria a sê-lo na segunda parte, onde a refeição vinda de Madrid, mesmo fria, não perdeu paladares para despertar o apetite.

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E, logo aos 49’, deu motivos para ser alvo de outra garfada — aparecia o segundo golo de Cristiano Ronaldo. Desta vez, o passe foi de Karim Benzema, que meteu a bola à frente da corrida do português, para ele a rematar, com força e de pé esquerdo, para a baliza. Beto ainda lhe tocou, mas nada feito. Era o 2-0 para o Real Madrid e a segunda ultrapassagem de Ronaldo a Eusébio: o capitão da seleção nacional marcava o seu terceiro golo em finais, contra os dois que o Pantera Negra lograra, na década de 60, com o Benfica.

E sim, desta vez, também havia mais. Este golo era o 70.º do português nas competições europeias, os mesmos do italiano Pippo Inzaghi — que demorou 114 jogos a marcá-lo, enquanto o português o conseguiu em 110 partidas. E, de repente, Ronaldo passou a estar a apenas sete golos de Raúl, o líder desta corrida. E velocidade, aliás, foi coisa que, mesmo assim, continuou a ver-se no jogo.

Do lado do Real, claro. Nem com o 2-0 as coisas abrandaram, e as jogadas do ataque merengue, com passes rápidos, ao primeiro toque, com os jogadores a trocarem de posições, sucedia-se. Uma delas, aos 67’, acabou com James a disparar um míssil que Beto desviou, de forma acrobática. Aos 71’, outra jogada de aplaudir só não mereceu mais palmas porque Benzema, à entrada da área, rematou uma bola que passou sobre a baliza do português.

Até ao final, nada mudou. James e Modric saíram de campo, mas até na despensa este Real Madrid tem guardados ingredientes que enchem qualquer receita. Entraram Isco e Illarramendi, mas podiam antes ter aparecido Di María, Khedira ou Xabi Alonso — embora o espanhol estivesse suspenso, por ter invadido o campo quando celebrar um dos golos na final da Liga dos Campeões, em Lisboa, em maio. Algo que não perdoou a Michel Platini, pela cara que fez ao presidente da UEFA, quando este lhe entregou a medalha de vencedor.

Sim, a Supertaça Europeia acabou a ser erguida nas mãos dos jogadores do Real Madrid. Porque só aos 89’ surgiram os remates de Krychowiak e Diogo Figueiras, os que mais ameaçaram a baliza de Casillas. E devido a tudo o resto: com esta equipa, estes ingredientes, qualquer refeição merengue seria suficiente para convencer a bola e os golos a sentarem-se à sua mesa. E não à do Sevilha.

Só um cozinheiro desajeitado, de fraco paladar ou sem experiência poderia estragar isto. Mas não Carlo Ancelotti, treinador italiano que, em Cardiff, conquistou a 13.ª das 17 finais em que participou, como técnico. É muito? É, mas para Cristiano Ronaldo, por exemplo, foi uma estreia, pois nunca o mais forte ingrediente da receita merengue tinha vencico uma Supertaça Europeia. E, já agora, também para Iker Casillas, o guarda-redes que, mesmo criticado, se tornou no primeiro capitão da história a erguer os canecos de um Mundial, Europeu, Liga dos Campeões e Supertaça Europeia. Hm, que bela refeição esta.