No primeiro consistório – reunião de cardeais – do papa Francisco, em janeiro de 2014, foram nomeados 19 novos cardeais e alguns dos nomes escolhidos geraram surpresa, parecendo indicar o início de uma mudança na constituição do colégio cardinalício, uma espécie de Senado da Igreja Católica, constituído pelos cardeais que elegem o novo Papa e que formam um órgão consultivo a que este recorre para se aconselhar sobre a governação da igreja.

Muitos dos cardeais escolhidos nessa altura são provenientes de cidades pequenas, “periféricas”, algumas delas fortemente afetadas pela violência e a pobreza. Entre os eleitos encontravam-se representantes de Ouagadougou (Burkina Faso), Abidjan (Costa do Marfim), do Haiti, das Filipinas, da Nicarágua e das Antilhas.

Quem pensou que as escolhas pouco ortodoxas de 2014 não se repetiriam, viu a orientação de Francisco confirmada em janeiro de 2015. Os 15 novos cardeais eleitores anunciados na altura – de um total de 20 – “são oriundos de 14 países de todos os continentes, o que sublinha a ligação indissolúvel entre a Igreja de Roma e as igrejas particulares de todo o mundo”, disse o papa na Praça de São Pedro.

Nove dos 15 cardeais vêm de países em desenvolvimento. E entre esses, três passaram a representar pela primeira vez as suas nações no colégio cardinalício. É o caso de Cabo Verde, cujo bispo de Santiago, Arlindo Gomes Furtado, obteve a nomeação, de Tonga (Oceania) e Birmânia, onde os católicos representam apenas 1% da população num país onde a maioria dos 51 milhões de habitantes são budistas. O cardeal birmanês indicado, Charles Maung Bo, arcebispo de Rangum, é um destacado líder religioso que luta pelos direitos humanos, pela liberdade religiosa e pela democracia.

As escolhas de 2015 mantiveram a descentralização da constituição do Senado da Igreja Católica – tradicionalmente eurocêntrico – para as “periferias” de Ásia, África e América Latina. Veneza, – o outro patriarcado do ocidente além de Lisboa – Turim e Bruxelas, habitualmente lideradas por cardeais, ficaram de fora. Hanói (Vietname), Addis Abeba (Etiópia) e Morelia (México) passaram a ter um cardeal.

Aura Miguel, jornalista da Renascença e vaticanista portuguesa, disse ao Observador que o que marca os dois consistórios de Francisco é a opção por “igrejas pequenas”, que “não têm a mesma dimensão de dioceses como Washington, Nova Iorque ou Paris” na escolha dos cardeais. Isto porque, o papa quer a seu lado “homens que estão no terreno” para o ajudar a governar a Igreja. “Vai ao encontro de pastores com o cheiro das ovelhas”, explicou a vaticanista, recorrendo à expressão utilizada por Francisco.

“Podemos dizer que o papa Francisco quer pôr a periferia no centro da Igreja. Tem feito estas escolhas com a liberdade que lhe compete para dizer que a Igreja é verdadeiramente católica, não apenas europeia e das grandes metrópoles”, disse ao Observador o padre Miguel Morujão, antigo porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa.

O padre Gonçalo Portocarrera de Almada sublinhou que Francisco, um dos primeiros papas não europeus, está a tentar traduzir o peso que os católicos da América Latina e de outras zonas do globo têm neste momento no seio da Igreja, por oposição ao que acontece na Europa. “Alguns países [europeus] tiveram uma grande importância na vida da Igreja, representando um número significativo de católicos. Hoje já não é assim. A América tem mais peso do que a Europa”, disse.

Opinião partilhada pelo sacerdote e professor Saturnino Gomes. “O papa quer chamar a atenção para as periferias da Igreja onde há muita vitalidade. Quer alargar o âmbito a zonas geográficas com outro dinamismo cristão”, disse ao Observador.

Eleição de D. Manuel tem “importância maior”

Em 2014, um dos nomes que ficou de fora surpreendeu os portugueses. D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa desde 2013, altura em que sucedeu ao patriarca emérito D. José Policarpo, não foi escolhido, quando a tradição de séculos e uma bula papal indicava que o fosse.

De acordo com uma bula emitida pelo papa Clemente XII em 1737, os patriarcas de Lisboa são feitos cardeais no primeiro consistório após a tomada de posse como líderes da diocese. No momento do primeiro consistório de Manuel Clemente, D. José Policarpo estava ainda vivo (morreu em março de 2014) e, como explicou o padre Miguel Morujão ao Observador, existe uma regra (que, na verdade, é mais uma prática regular do que uma norma escrita) que diz que se o cardeal-patriarca emérito estiver vivo e com idade para eleger (menos de 80 anos), não pode haver dois eleitores do mesmo local.

Para o padre Gonçalo Portocarrera de Almada, a eleição de D. Manuel Clemente em 2015 – quando o patriarca de Veneza e os arcebispos de Bruxelas e Turim ficaram na lista de espera – “tem uma importância maior”, constituindo “uma graça para a Igreja portuguesa”. O padre afastou a hipótese de que o critério político e a diplomacia tenham sido relevantes nesta nomeação, atribuindo-a exclusivamente “à personalidade do patriarca”, uma figura “muito conhecida da cultura”.

O Colégio Cardinalício conta atualmente com 208 cardeais – 110 eleitores e 98 não eleitores – sendo que a partir de sábado o número de cardeais eleitores sobe para 228, 125 eleitores e 103 não eleitores. Até final de 2015, quatro cardeais vão completar 80 anos de idade, deixando por isso de votar na escolha do papa.