Estrela de rock ou um criminoso? Narendra Modi tem sido recebido em todo o mundo como a cara de uma nova Índia, o homem em quem todos depositam a máxima confiança, que enche estádios por onde passa para o ouvirem falar. Mas na Índia há quem tenha dedicado mais uma década a tentar levar Modi a julgamento pelo seu papel num massacre que resultou na morte de mais de mil pessoas.

A história não é nova, as acusações também não, mas o jogo parece estar a virar. Durante mais de uma década a ativista Teesta Setalvad tem tentado levar o agora primeiro-ministro, Narendra Modi, a julgamento pelo seu papel nos massacres de Gujarat, Estado que governava antes de ser primeiro-ministro, em 2002.

A ativista, uma das mais conhecidas da Índia, tem feito uma campanha incessante para que Modi responda na justiça, mas vê-se agora a braços com uma intensa campanha de descredibilização, que envolve buscas à sua casa, contas congeladas e constantes acusações criminais que acabam por cair por não terem suporte.

A mais recente foi uma busca da polícia federal indiana, o Central Bureau of Investigation (CBI), à sua casa, em meados de julho, que teve como alvo caixas de joias, armários e as gavetas da cómoda da filha. Os 16 agentes revistaram tudo durante um dia inteiro e levaram quase 3.200 documentos. Mas, afinal, o mandato de busca justificava o raide com a procura de documentos que na sua maioria já tinham sido entregues. Teesta, como é conhecida na imprensa indiana, disponibilizou-se para fazer duplicados do que lhe pediam os agentes. Não quiseram.

O timing deixa espaço para interpretações. Depois de meses a arrecadar provas para construir um caso contra Narendra Modi, mais um, e com a audiência que pode indiciar o primeiro-ministro criminalmente, a ativista começou a ser atacada através de várias entidades controladas pelo primeiro-ministro e pelos seus aliados, para além de sucessivas fugas de informação.

Depois das buscas à sua casa, foi a vez de um procurador indiano acusar publicamente Teesta de ser um perigo para a segurança nacional e defender que esta ativista é tão perigosa que devia ficar presa enquanto o Governo investiga se o financiamento que recebe através da fundação Ford é legal.

Não demorou muito até que surgisse uma nova acusação. O Estado de Gujarat, o mesmo onde aconteceu o massacre e que era governador por Narendra Modi, entrou com um processo contra Teesta e o seu marido, acusando-os de uma “fraude colossal” por angariarem 1,1 milhões de dólares para as vítimas dos motins que alegadamente terão utilizado em gastos pessoais, como salários exorbitantes e outros luxos, como comer na conhecida cadeia de fast food Subway e de comprar toalhetes para higiene pessoal. Fora da acusação ficou a avaliação da Fundação Ford, que não descobriu qualquer irregularidade financeira.

Até agora a justiça tem estado do lado de Teesta Setalvad e do seu marido, que têm conseguido evitar serem presos, mas, numa entrevista dada recentemente, citada pelo New York Times, Teesta admite que a campanha tem provocado sérios danos à sua causa. As contas das organizações estão congeladas, os passaportes de ambos foram-lhes retirados, as poupanças da família estão quase a zeros e já não têm que chegue para pagar aos advogados.

A justiça argumenta que o dinheiro da fundação tem sido usado para incentivar o ativismo político, algo que a Fundação Ford e a ativista negam, garantindo que o dinheiro para mover os processos contra o primeiro-ministro não saiu das contas da Fundação. O Governo e o Estado do Gujarat também estão a investigar a Fundação Ford, acusando-a de apoiar conflitos na comunidade.

O que está em causa?

Narendra Modi liderava há poucos meses o Estado de Gujarat quando a violência começou. A 27 de fevereiro de 2002, um comboio que transportava peregrinos hindus parou em Godhra, uma cidade com uma grande população muçulmana. A partir de um desentendimento, pedras começaram a ser atiradas e uma das carruagens foi incendiada. No final, os restos mortais de 59 pessoas, queimadas no fogo, foram colocados à vista de todos numa das maiores cidades de Gujarat.

A revolta contra a população muçulmana levou a dois meses de violência. Neste período, a polícia do Estado liderado por Modi nada fez, enquanto multidões de hindus agrediam, matavam e incendiavam centenas de muçulmanos e as suas casas.

Uma comissão de direitos humanos, liderada por um ex-juiz do Supremo Tribunal indiano, nomeou o Estado como responsável nas mortes por ter falhado em toda a linha na reação aos motins e por ter ignorado pedidos de proteção dos cidadãos. Narendra Modi, em 2002, dizia que o seu único lamento era não ter lidado melhor com a comunicação social.

Agora, depois de mais de 100 condenações no caso, em especial de um dos principais chefes das forças de Gujarat e um dos tenentes de Narendra Modi, que foi condenado a 28 anos de cadeia, um caso em particular pode deixar o primeiro-ministro numa situação extremamente delicada. O caso Jafri.

Quando os motins começaram, um dos piores massacres aconteceu na Sociedade Gulbarg, um complexo habitacional para muçulmanos, onde mulheres e crianças se refugiaram na casa de Ehsan Jari, um antigo deputado indiano. Durante horas de contínuos ataques, Ehsan Jafri fez sucessivos telefonemas para a polícia a pedir ajuda e proteção policial. A polícia nunca apareceu e o ex-deputado foi assassinado, juntamente com outras 68 pessoas.

O caso já tinha sido rejeitado por um tribunal local e será apreciado nas próximas semanas pelo Supremo Tribunal da Índia, com os críticos de Modi a acreditarem que esta é a melhor opção para responsabilizar o atual primeiro-ministro pelo seu papel no massacre de 2002.