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É pouco provável que as letras de José Mário Branco estejam na ponta da língua dos principais políticos espanhóis. Mas talvez valha a pena ouvirem com atenção os seguintes versos da canção “Eu vim de longe, eu vou para longe”:

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra qui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos para nos dar

As eleições deste domingo, 26 de junho, confirmaram aquilo que as eleições de dezembro de 2015 tinham deixado como ponto assente: os partidos terão de chegar a qualquer tipo de acordo. Só que agora o PP pode fazê-lo com mais força por ter reforçado a sua posição. Mesmo assim os principais políticos espanhóis, por mais longe de onde venham, terão de andar muito para se poderem encontrar uns com os outros. Aí, terão de dar uns aos outros aquilo que têm a oferecer, mas não deixando de ler o que mudou entre dezembro e junho. E houve claras mudanças, com o reforço do PP e o recuo das diferentes esquerdas.

Quem está na mó de cima é Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP) e Presidente do Governo em funções. Foi o único que conseguiu subir o número de deputados (137, agora, ou seja mais 14), com 33% dos votos (mais 573 mil do que em dezembro, altura em que se quedara pelos 28,7%). Rajoy sai reforçado destas eleições, mas não ao ponto de poder dispensar falar com os demais. O primeiro a quem se deve dirigir é Pedro Sánchez, do PSOE, que contra aquilo que previam as sondagens ficou em segundo lugar. Os socialistas perderam deputados em relação a 2015 (agora terão 85), apesar de terem tido um resultado residualmente melhor em termos de percentagem, chegando aos 22,7%.

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Em terceiro, ficou o grande derrotado da noite: o Unidos Podemos. Depois de aparecer em segundo na maior parte das sondagens, a coligação do Podemos com a Izquierda Unida não conseguiu passar dos 71 deputados e dos 21,1%. A junção de forças provou ser aritmeticamente inútil: entre si, mantiveram o número de deputados, e até perderam percentagem de votos. Pior: em conjunto perderam mais de um milhão de eleitores (1.142 mil, para sermos exatos).

Em quarto, ficou o Ciudadanos, que com 13,05% e 32 deputados ficou abaixo dos resultados de dezembro. Depois, seguem-se vários partidos de caráter regional, na maior parte dos casos independentistas, desde a esquerda radical até aos conservadores. Entre todos, têm 17 deputados.

Mariano Rajoy: “Ganhámos o direito de governar”

“Queridos amigos, ganharam as eleições porque tiveram fé na vitória e porque a procuraram!”, disse Mariano Rajoy aos seus apoiantes, no discurso de vitória. “Foi duro, foi difícil, foi complicado, mas ganhámos a batalha em nome de Espanha, não em nome de ninguém e apenas pelos interesses dos espanhóis.”

Uma coisa ficou clara no discurso de Rajoy: ele não admite outra coisa para além de ser Governo. “Ganhámos o direito a governar”, reclamou, dizendo que “este partido merece respeito”. “Agora, trata-se de sermos 100% úteis aos espanhóis, aos que votaram em nós e aos que não votaram em nós. Estamos à disposição de todos.”

O dia seguinte é o que mais interessa a partir de agora, e Mariano Rajoy terminou o seu discurso a falar dele. “A partir de amanhã, temos de começar a falar com toda a gente”, disse. “E assim o faremos. E vamos falar com o único horizonte de defender Espanha e 100% dos espanhóis. É para isso que estamos aqui.”

Pedro Sánchez: “Espero que Iglesias reflita”

Pouco antes, falara Pedro Sánchez. Ao início, disse que “os cidadãos abriram o caminho para a normalização da vida social e política de Espanha”. Porém, em nada deu a perceber que essa normalização se traduziria num abrir de caminho a um governo do PP por parte dos socialistas.

Sánchez acabou por ter a intervenção mais curta da noite, mas nem por isso foi vazia de conteúdo. Entre os seus adversários, foi à sua esquerda, na direção de Pablo Iglesias, do Podemos, que dirigiu as suas críticas. “Espero que Iglesias reflita”, disse, para depois se referir ao chumbo que o Podemos impôs a uma solução de Governo entre o PSOE e o Ciudadanos em março. “Teve a oportunidade de aprovar um governo progressista do PSOE. Mas a intransigência e o interesse pessoal estiveram por cima do interesse da esquerda e infelizmente produziu uma melhoria dos resultados da direita.”

O prémio de consolação da noite foi para o líder socialista, por não só ter melhorado ligeiramente os resultados do partido, depois de ter tido o pior score de sempre em dezembro, mas também por não ter descido para terceira força política de Espanha e para segundo plano na esquerda. “Disse em dezembro e digo agora que houve uma coligação de mais de 20 partidos com o único propósito de ganhar ao PS”, disse, referindo-se ao Podemos. “Não estou satisfeito. Queríamos ganhar estas eleições. Não conseguimos. Não estou satisfeito. Mas contudo, ainda somos a primeira força política de esquerda.”

Pablo Iglesias: “Mandei uma mensagem a Pedro Sánchez para continuarmos a falar”

Pablo Iglesias também não se deu por satisfeito com os resultados deste domingo. “Não são satisfatórios”, disse várias vezes. Mas quer continuar a falar. Vai de muito longe, para muito longe? Pelo menos até à Calle Ferraz, sede do PSOE. “Mandei uma mensagem a Pedro Sánchez, para que possamos continuar a falar. Ainda não respondeu”, admitiu Iglesias. “Mas penso que o sensato é que as forças progressistas dialoguem a partir dos espaços que nos unem, porque defendemos um espaço social diametralmente oposto ao que o PP defende.”

Sobre uma hipótese de acordo entre o PSOE, o Ciudadanos e o Unidos Podemos, Iglesias respondeu com uma verdade de La Palisse: “As incompatibilidades programáticas são incompatibilidades programáticas”. “Há forças políticas que tiveram resultados bem piores do que nós que deixaram claro que estão na política para impedir que o Podemos governe”, referiu, numa alusão ao Ciudadanos, embora não tenha referido o partido de Albert Rivera.

Este também não referiu o nome do Podemos nem do seu líder. Falou apenas de “extremismo”, por oposição ao “centro”, onde gosta de se posicionar. “Deixem que vos diga que me sinto mais orgulhoso do que ontem de ser do Ciudadanos”, disse Albert Rivera no seu discurso. “Porque há mais de 3 milhões de espanhóis que, apesar da polarização e da lei eleitoral injusta, disseram que querem centro.”

E, sem perder tempo, deu a tática para os próximos tempos. “Dissemos em campanha que queríamos mudança e acordos. É o que vamos fazer. Quero dizer ao PSOE e ao PP que se estão dispostos a partir de amanhã para nos sentarmos numa mesa para formar Governo, o Ciudadanos vai estar nessa mesa”, garantiu. Mas tem uma condição: “Não podemos meter os cadeirões [metáfora para cargos] à frente dos espanhóis”.

Por fim, Rivera disse que “isto não acaba hoje, começa hoje”. “Agora começa a pôr-se em marcha a máquina da democracia.”

E que marcha. Já passaram mais de seis meses desde as eleições de dezembro e do impasse político que estas produziram em Espanha. Um nó cego, que só poderia ser desatado com novas eleições — e novos resultados. Mas, afinal, não. Viemos todos de muito longe, para aqui chegar: ao sítio onde já estávamos.