Rachid Nekkaz, o defensor da liberdade das mulheres e da laicidade. Pelo menos é assim que se autointitula este argelino nascido em Paris em 1972 que afirma que já pagou mais de 243 mil euros em multas que pretendem castigar quem usa burka, hijab ou burkinis.

A proibição de utilizar um véu que tape inteiramente a cara de uma muçulmana em público surgiu há cinco anos, em França. Caso utilize publicamente uma burka ou um hijab, a mulher arrisca-se a ser alvo de uma multa que pode chegar aos 150 euros.

Este verão, para além da proibição da burka, algumas cidades francesas proibiram também o burkini — um fato de banho que cobre as mulheres da cabeça aos tornozelos, deixando apenas visíveis a cara, as mãos e os pés. Em Nice, recentemente, a polícia obrigou uma mulher a despir aquilo que parecia ser um burkini numa praia junto ao Promenade des Anglais. Também em França já foi aplicada, em mais do que uma circunstância, uma multa de 38 euros a quem foi avistado com um burkini.

Rachid Nekkaz nasceu numa família pobre com pais analfabetos e 11 irmãos. Enquanto era jovem, o seu percurso escolar levou-o à licenciatura em História e Filosofia na Sorbonne. Depois de completar os estudos criou uma start-up online que vendeu com grande lucro, o que lhe permitiu investir no setor imobiliário e expandir a sua riqueza.

Finalmente, em 2010, criou uma associação chamada “Não toquem na minha Constituição” que disponibilizava um milhão de euros para pagar todas as multas aplicadas a mulheres que usem um nicab ou uma burka.

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Burka – Vestimenta que cobre inteiramente o corpo e a cara do utilizador.

Burkini – Fato de banho que tapa o utilizador da cabeça até aos tornozelos, deixando à mostra as mãos, os pés e a face.

Hijab – Véu que cobre a cabeça e o peito de quem o utiliza. Deixa a cara a descoberto.

Nicab – Um véu que cobre a cara de quem utiliza a vestimenta.

Em França, a utilização de burkas e nicabs foi proibida a 11 de abril de 2011, por uma lei que impede as pessoas de utilizarem qualquer vestimenta que cubra o rosto num espaço público.

E, depois de 1.300 multas pagas na luta contra a penalização da utilização de burkas e nicabs, Nekkaz entra numa nova guerra: pagar as multas de quem é penalizado por usar um burkini.

French businessman and 2007 presidential candidate Rachid Nekkaz poses with a fine payment receipt and bills as he walks out of a police station in Charleroi after paying a fine which was handed to a woman wearing a full-veil niqab, in Charleroi, on July 30, 2012. After the Belgium government approved a controversial 'anti-burqa' law similar to the one in France, Nekkaz announced he would pay any fine for women who want to wear the full islamic veil 'burqa' or 'niqab' in Belgium or France. AFP PHOTO / BELGA / VIRGINIE LEFOUR ***BELGIUM OUT*** (Photo credit should read VIRGINIE LEFOUR/AFP/GettyImages)

Nekkaz com um recibo de multa que pagou e com duas notas de 50 euros. (Photo credit should read VIRGINIE LEFOUR/AFP/GettyImages)

Numa entrevista concedida ao El Mundo, o milionário afirmou que iria pagar todas as multas que fossem passadas a mulheres por usarem burkinis. “O meu objetivo é neutralizar esta lei e ajudar estas miúdas a recuperar a sua liberdade”, afirma o parisiense.

Vou pagar todas as multas que passem a mulheres com burkini”

Para conseguir que Nekazz pague a multa, as visadas devem contactá-lo através da sua conta de e-mail ou ligando diretamente para o seu telemóvel — “disponibilizado em vários sites muçulmanos”. Depois de ser contactado e lhe ser apresentada a multa, Nekkaz explica que vai até ao local próprio “e paga-as”.

No entanto, Nekkaz afirmou ao El Mundo que não concorda que as mulheres muçulmanas usem nicabs, ou que levem burkinis para a praia: “Não é a melhor forma de se integrarem na sociedade”. No entanto, considera que a proibição é excessiva e que não passa de um pretexto político para “dar visibilidade negativa aos muçulmanos e retirar-lhes a sua liberdade”.

Pagar multas além-fronteiras

Não é só em França tem atuado este “defensor da liberdade das mulheres e da laicidade”. No início deste mês, o argelino foi até à Suíça pagar uma multa contraída por Nora Illi de 32 anos. Durante a sua viagem a Locarno, Nekkaz afirmou que a lei que proíbe o uso de véu viola as “lições de Voltaire e Rousseau”.

Depois de falar à imprensa, o milionário desfilou com Nora, que envergava um nicab azul, pela praça principal da cidade até à esquadra municipal, onde foi paga a multa de 230 francos suíços (212 euros).

Rachid pagou também multas em Bruxelas, na Bélgica, a duas adolescentes de 16 e 17 anos. Estas multas foram pagas em agosto de 2011, um mês depois de ter entrado em vigor uma lei que proíbe a utilização de véus em público. “Sou profundamente laico, profundamente republicano e não posso aceitar que um grande país como a Bélgica vote e aplique leis anti-liberais”, afirmou Nekkaz na altura.

Nekkaz, o candidato político sem votos

O argelino já esteve envolvido em política. Em 2007, candidatou-se às eleições presidenciais francesas, como o “candidato dos subúrbios”. Conseguiu o apoio do presidente da câmara de Noron-la-Poterie, que disponibilizara o seu apoio para leilão. Quando comprou o apoio de André Garrec, rasgou o papel frente às câmaras. No final, acabou por não conseguir os 500 apoios necessários para se candidatar.

Uns meses mais tarde, criou o seu partido para as eleições legislativas do 7.º distrito de Seine-Saint-Denis. Conseguiu apenas 156 votos, correspondente a 0,5%.

Um ano depois, nas eleições municipais, voltou a falhar, mesmo prometendo 300 euros a todos os votantes ou um bilhete de avião, caso fosse eleito. O Partido Rachid Nekkaz conseguiu 5,15% dos votos.

Nas eleições legislativas de 2013 conseguiu a proeza de não conseguir um único voto. Nem ele próprio votou em si.

Depois da sua ingressão de pouco sucesso pela política francesa, Nekkaz decidiu dedicar-se inteiramente ao país dos seus pais. Abdicou da dupla nacionalidade, passando a ser apenas argelino e tentou candidatar-se às presidenciais do país. Falhou por falta de documentos. Voltou, no entanto, com a promessa de que estará presente nas eleições legislativas de 2017.

Rachid Nekkaz, who wanted to be candidate but couldn't register for Algeria's April 17 presidential election, flashes the sign of victory during a protest in his support in Algiers on March 8, 2014. Nekkaz said his candidature documents were stolen before he submits them at the constitutional council. AFP PHOTO / FAROUK BATICHE (Photo credit should read FAROUK BATICHE/AFP/Getty Images)

O candidato às presidenciais da Argélia depois de saber que a sua candidatura não fora aceite. (Photo credit should read FAROUK BATICHE/AFP/Getty Images)