Por muitas novidades que o Salão Automóvel de Genebra possa trazer este ano, há pelo menos uma que vai desagradar a alguns visitantes: desaparecem as modelos, que desde sempre – ou pelo menos assim parece – atraíam as atenções para os veículos expostos, com as poses sensuais e roupa a condizer. Nesta edição do certame suíço, muitos são os construtores a anunciar que contrataram profissionais do sector que, se não alegram a vista, compensarão ao ser capazes de esclarecer todas as dúvidas que os visitantes possam ter.

Esta opção não estará de todo dissociada do escândalo protagonizado pelo produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, na sequência do qual se instalou um clima – que muitos poderão mesmo apelidar de pavor –, que pode transformar até práticas com muitos anos de existência, num caso de assédio ou exploração sexual. Assim, depois de a Fórmula 1 ter banido as modelos da grelha de partida nos Grande Prémios, eis que muitos fabricantes de automóveis optaram por alinhar pela mesma bitola.

De acordo com a Fortune, Renault, Peugeot, Fiat, Nissan, Lexus e SsangYong já anunciaram que não vão ter modelos com pouca roupa nos seus stands, substituindo-os por homens e mulheres escolhidos não pelo seu aspecto, mas sim pelos seus conhecimentos técnicos e pela capacidade de explicar as características dos veículos em exposição. Quanto à roupa dos “profissionais”, os fabricantes prometem desde já menos pele à vista, optando uns por trajes desportivos, enquanto outros dão preferência a uma indumentária mais formal.

A troca de modelos femininos por técnicos de ambos os sexos não é imposta pelos organizadores do certame. É sim deixada ao critério dos fabricantes que, depois de dezenas de anos a recorrer aos atributos de mulheres belas, tirando raras excepções, ganharam subitamente consciência.

Faz mais sentido recorrer a especialistas em produto, uma vez que estamos a vender automóveis”, disse a Nissan, através da responsável pela comunicação suíça, Sara Jenkins.

Então, e nos últimos 30 ou 40 anos – em que ‘decoraram’ os seus produtos com profissionais da moda -, a Nissan comercializava o quê?

A Toyota, a Alfa Romeo, a Maserati e a Jeep, estas três últimas marcas do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA), admitiram que vão continuar a utilizar modelos, mas mais vestidos e de ambos os sexos, tendo a FCA admitido estar preocupada com o movimento #MeToo, e similares.

Pelo seu lado, a PSA informou, através de um email enviado à Bloomberg pelo porta-voz Pierre-Oliver Salmon, que o grupo “não transmitirá uma imagem degradante de ninguém, homem ou mulher”. O mais curioso é que não só a empresa francesa não pensava assim há uns meses atrás, como Salmon acompanhou o email com #nocarbabes. Hashtag que, por si só – se vamos ser ‘picuinhas’ – é degradante para a imagem das mulheres.