Bruxelas expôs dados pessoais de autarcas portugueses na internet, durante quatro horas. A falha de segurança da Comissão Europeia abrangeu a documentação das candidaturas a um concurso para instalar wifi grátis nas cidades. Moradas, telefones, cartões de cidadão e passaportes de milhares de políticos europeus ficaram assim expostos, segundo a edição desta quarta-feira do Jornal de Notícias. Na Web Summit, em Lisboa, contudo, a comissária europeia para a competitividade, Margrethe Vestager, negou que os dados tenham de facto sido expostos: erro foi detetado a tempo, explicou.

Ao todo, foram 11 402 câmaras da União Europeia a ser afetadas, incluindo dados de 482 portugueses. Deste número, houve dados pessoais de presidentes de câmara (ou dos vereadores substitutos) e dos funcionários públicos que submeteram a candidatura das várias câmaras.

Os dados teriam ficado acessíveis na plataforma Wifi4EU, um projeto comunitário que financia a instalação de internet sem fios nos espaços públicos. Depois de a DG Connect, empresa de segurança informática, ter detetado o problema, o site ficou offline. Houve dados de empresas que operam em Portugal que terão ficado igualmente expostos, a nível de informações pormenorizadas sobre contratações para instalar a internet sem fios na via pública.

O relatório público do Wifi4EU escondeu o problema, omitindo a exposição de dados pessoais e referindo apenas o facto de as câmaras poderem adulterar a hora da sua candidatura. Uma vez que as primeiras a inscrever-se teriam prioridade na atribuição dos pagamentos, todo o processo ficou desvirtuado. Contudo, Bruxelas veio confirmar o problema na íntegra, no dia 13 de junho deste ano.

A comissária europeia para a competitividade, contudo, falando no palco da Web Summit, em Lisboa, negou que os dados dos autarcas tenham de facto sido expostos. Também a porta-voz da Comissão Europeia, Nathalie Vandystadt, negou a exposição dos dados em comunicado: “Tal como a Comissão afirmou no seu relatório de segurança publicado em agosto, não houve qualquer fuga nem manipulação de dados, nem de autarcas portugueses nem de outros autarcas da União Europeia, que se candidataram ao primeiro convite à apresentação de propostas WiFi4EU”.

Em todo o caso, o eurodeputado português socialista Carlos Zorrinho, na qualidade de relator do Parlamento Europeu para a iniciativa WIFI4EU, apressou-se a pedir um esclarecimento escrito à Comissão Europeia sobre o caso.

“Tendo tido conhecimento pela imprensa da grave falha de proteção de dados ocorrida na sequência do processo da primeira candidatura solicito os seguintes esclarecimentos: Qual a dimensão da fuga e que medidas foram tomadas para apurar responsabilidade?”, começa por perguntar no requerimento a que o Observador teve acesso.

Carlos Zorrinho pergunta ainda “que garantias existem para que erros similares não se repitam, gerando o clima de confiança necessário ao sucesso da iniciativa”, sendo que está prevista para esta quarta-feira a abertura de um novo processo de candidatura.