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Do post de Instagram às criticas no Trip Advisor: A luta de um chef espanhol contra as ideologias de extrema-direita

Pepe Solla é um célebre cozinheiro galego que nos últimos dias viu-se envolvido numa polémica política. O Observador falou com ele para perceber o porquê de o terem começado a atacar.

Pepe Solla é o responsável pelo restaurante Casa Solla, em Pontevedra (uma estrela Michelin).

Pepe Solla

As redes sociais voltaram a ser palco de uma polémica que já começa a espalhar-se por Espanha. Por causa de uma mensagem anti-extrema-direita partilhada no Instagram, o chef Pepe Solla começou a ser atacado em várias redes-sociais e até no Trip Advisor, de tal forma que o próprio cozinheiro viu-se obrigado a contactar os responsáveis por essa plataforma onde se avalia áreas como a restauração ou hotelaria, para pedir que apagassem algumas das mensagens que começaram a ser associadas ao seu restaurante, o célebre Casa Solla (uma estrela Michelin), na Galiza.

Tudo começou há cerca de três dias quando o cozinheiro galego partilhou — primeiro na página do restaurante e depois na sua pessoal —  a imagem de um papel onde se lia “Espaço livre de violência de género… E do Vox”. O movimento político que há poucos meses surpreendeu ao destacar-se nas eleições da Andaluzia é fortemente conotado a ideologias de extrema-direita e tem ganho cada vez mais visibilidade. Solla, “rebelde” famoso pela sua paixão pela aventura e o rock n’roll, decidiu deixar vincada a sua opinião sobre o crescente fenómeno político.

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Em pouco tempo a sua conta de Twitter começou a ser invadida por apoiantes do Vox que atacaram a sua tomada de posição. Num outro post de Instagram partilhado por Solla mais tarde, no passado sábado, o chef mostrava alguns print screens que denunciavam os ataques de que estava a ser alvo. Mensagens como “patético” ou “vamos lixar-lhe o Trip Advisor” começaram a surgir no seu mural — demorou pouco tempo até começarem a surgir críticas negativas associadas à página do Casa Solla no Trip Advisor.

Mensagens como “Quando alguém se acha moralmente superior à sua clientela começa a exigir que moldem o seu pensamento de acordo com o politicamente correto. São os nazis do século XXI: bem-vindos independentistas, pensadores progressistas e terroristas” ou “De certeza que, com os preços que praticam, a maioria dos clientes são ocupas, podemitas (militantes do partido Podemos, de esquerda) e outros esquerdalhos. Grande erro, Pepe, em posicionares-te na política contra as ideologias que te dão de comer. Hoje perdeste uma grande quantidade de clientes” são algumas das que o cozinheiro destacou.

O Observador entrou em contacto com o cozinheiro galego para perceber ao certo que se está a passar. Pepe Solla aceitou comentar o sucedido e, por entre um misto de revolta e desilusão, o cozinheiro fez questão de sublinhar que apenas exerceu um direito básico de qualquer cidadão, o de liberdade de expressão.

Porque decidiu publicar o primeiro post de Instagram onde criticava o Vox e defendia que o Casa Solla era “Um espaço livre de violência de género”?
Neste momento, em Espanha, surgiu um partido de extrema-direita chamado Vox que nas últimas eleições na Andaluzia conseguiu eleger 12 deputados regionais, número suficiente para que — juntamente com outros dois partidos — consiga formar governo. Parece-me muito mal existirem partidos democráticos interessados em negociar com um grupo de extrema-direita que é racista, xenófobo, machista, etc… Isto é um terrível passo atrás, ainda por cima porque uma das condições negociais que apresentaram logo foi a de revogar uma lei, aprovada por todos os partidos, sobre a violência de género. Não sei se coisas deste género têm acontecido por Portugal, estas novas vagas de extrema-direita, mas começa a aparecer em toda a Europa e isso é preocupante. Até às últimas eleições o movimento era insignificante, mas os 11% de votos que conquistaram  é, pelo menos para mim, muito grave. Por causa disso, há uns dias, sem qualquer intenção de causar polémicas, partilhei a minha opinião sobre o assunto na minha conta de Instagram, onde costumo denunciar muitas outras situações que ache injustas ou problemáticas. Nunca esperei que isso tivesse a repercussão que teve…

Quantos comentários negativos chegou a ter?
Que eu tenha visto apareceram uns oito ou dez comentários contra mim — no Trip Advisor — no espaço de um dia. Não cheguei a perceber bem quantos comentários negativos houve no total porque achei melhor desligar-me disso. Por outro lado há milhares de outros indivíduos a apoiar-me.

Alguns jornais em Espanha dizem que por causa disto entrou em contacto com o próprio TripAdvisor…
Falei com eles, sim. Pedi para que apagassem todos os comentários dos últimos dias, não só os maus como os bons também. Não acho que seria honesto tirar o mau e deixar só a opinião dos que concordam comigo. Agradeço muito o apoio e todo o carinho das pessoas, mas não seria honesto e podia levar a más interpretações.

Como é que eles lidaram com esta situação?
Eles reagiram muito bem quando lhes expus esta situação. A polémica começou no passado dia 4 e no dia 5 já existiam cinco comentários maus. Eu falei com eles e pedi-lhes que os apagassem — assim o fizeram, mas depois começaram a aparecer mais… A partir daí decidi que era melhor falar com eles pessoalmente e vou fazê-lo em breve, para perceber o que se pode fazer em relação a isto. Acho que não é uma situação agradável nem para mim nem para eles. Coisas deste género podem fazer com que as pessoas comecem a duvidar do serviço deles. Eu acho que o Trip Advisor é um bom canal, mas há quem lhe dê mau uso. É preciso distinguir as coisas. 

Uma das ideias com que o confrontavam era o facto de ter misturado a política com a sua profissão. O que acha desse tipo de relações?
Alguns dos comentários que mais me incomodaram pessoalmente diziam precisamente coisas como “és cozinheiro, não comentes o que não sabes, cala-te e cozinha”. Eu pergunto-me: Então que trabalhos e ofícios é que têm permissão para falar sobre política? É verdade que sou cozinheiro mas antes disso sou uma pessoa normal que vive em sociedade. É por isto mesmo que acredito que todos temos direito a poder opinar, dizer, falar, comentar… Sou um cozinheiro por isso tenho de me calar e ir para a cozinhar, certo: Se fosse advogado já era diferente? Ou dono de uma cadeia de lojas ou bancário? Porque é que eles podem falar e eu não? Isto faz-me muita confusão… Sou uma pessoa, vivo em sociedade e acredito que todos temos direito a poder falar e expressar livremente a nossa opinião. Foi o que eu fiz… Ainda por cima não usei qualquer palavra má e foi tudo transmitido através de coisas [redes-sociais] minhas! Aceito o resultado das urnas, claro que sim, nem contesto isso. O Vox é um partido que está legalizado e foi eleito democraticamente. Agora também acredito ser meu direito manifestar que não concordo com o que eles defendem.

Acha que este episódio pode prejudicar o seu negócio?
Não me parece… Já temos 57 anos de história e não acho que uma coisa destas nos possa afetar de forma muito grave. Acho que se isto acontecesse com um restaurante mais recente, que estivesse a começar, aí sim podia ser muito problemático. Seria muito triste ver o meu negócio a ser afetado por algo que não passa de um direito pessoal meu. É perfeitamente normal tu decidires não ir a determinado restaurante ou loja porque não concordas com o que ela defende ou representa, o que não é honesto é prejudicares o negócio propositadamente.

Para concluir: Se o líder do Vox um dia quisesse comer no Casa Solla aceitava servi-lo?
Em Espanha deixou de haver o direito de recusar admissão num espaço como o meu restaurante, por isso nunca poderia negar-lhe entrada. Posso dizer que não gostaria que viesse, mas nunca lhe fecharia a porta, não seria legal. Só podes correr com alguém se essa pessoa estiver a portar-se mal. Se militantes ou o próprio líder do Vox quiser vir ao restaurante não poderei fazer mais nada se não servi-lo com todo o meu profissionalismo. Quem não se portar bem, seja do Vox ou de outro partido, vai para a rua. Publicamente assumo que não gostava de receber pessoas ligadas ao Vox. Se quiserem vir na mesma, serão recebidos como qualquer outro cliente.

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