Depois de dois anos a lutar contra um cancro, Gérard Detourbet faleceu na passada sexta-feira. Mas deixa à Renault um importante legado: conseguiu fazer da Dacia um caso de sucesso, a ponto de outros fabricantes terem arriscado – mas não com o mesmo êxito – criarem também marcas low-cost.

Doutorado em Matemática, Detourbet entrou na Renault em 1971. Começou por se dedicar à direcção informática da marca francesa, mas foi sempre evoluindo no organograma da empresa até que, quando a Renault comprou a Dacia, foi ele o escolhido para liderar a equipa que trataria de projectar um modelo barato, destinado aos mercados emergentes – o Logan. Abraçou esse desafio em 2004 e foi tão bem sucedido que acabaria por ficar à frente da linha “Entry” (entrada de gama) do grupo. O truque, segundo ele, passava por fazer contas – até à exaustão, se preciso fosse. A estratégia aplicada na Dacia era muito simples: “Primeiro, há que definir o preço de venda e só depois é que se constrói o carro. Se algum componente tiver um custo demasiado elevado para o preço de venda que se pretende, tira-se. Cada peça conta, e conta ao cêntimo.”

Também o Sandero e o Duster foram submetidos ao crivo do matemático que, em 2011, ensaiou a aposentação. Quis reformar-se, mas acabou por não o fazer. Carlos Ghosn, que ficou conhecido por “Le Cost Killer” depois da radical reestruturação que conduziu a Renault aos lucros, apreciava a magia das contas operada por Detourbet e pediu-lhe que liderasse um novo projecto low-cost, o Kwid. Outro caso de sucesso pois, embora originalmente concebido para a Índia, o crossover chegou a outros mercados e serve de base para o K-ZE, o eléctrico barato da Renault que já está à venda na China, por 9.000€. Vai chegar à Europa, muito provavelmente, com a insígnia da Dacia.

Gérard Detourbet orgulhava-se de fazer muito com (muito) pouco. Confessou aos jornalistas ter gerido “420 milhões de euros no Kwid e seus derivados”, sublinhando que esse montante representa normalmente “metade do que é investido num projecto”.