Se daqui a muitos anos algum dos discursos da cerimónia da noite passada dos Globos de Ouro for estudado, recordado, avaliado como exemplo do que pode ser uma reflexão crítica, estruturada e pensada com alguma profundidade, será certamente o dela. Goste-se mais ou menos do teor da sua intervenção.

O tempo de discurso, mais longo, certamente ajudou. Ter feito uma intervenção presencial e não por Zoom, como os outros premiados, também. Ter sido distinguida com um prémio de carreira, e não com um prémio que distingue algum projeto recente — o que implicaria agradecer aos envolvidos e gastar quase todo o tempo nisso —, também ajuda. Mas não foi só isso: afinal, Jane Fonda não é uma pessoa qualquer.

A atriz, ativista política e ambientalista que tem uma longa carreira de trabalho na indústria do entretenimento e décadas de intervenção social e política foi homenageada este domingo à noite (madrugada em Portugal) nos prémios Globos de Ouro. Jane Fonda recebeu o prémio The Cecil B. DeMille Award, que reconhece contribuições duradouras e significativas para o mundo do entretenimento.

“Nomadland” e “The Crown” foram os grandes vencedores dos Globos de Ouro

Fonda foi receber o prémio depois de se ter instalado a polémica em torno dos Globos de Ouro, na sequência de uma investigação jornalística (do Los Angeles Times) sobre a falta de membros negros entre os 87 votantes da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, que nomeia e atribui vencedores dos Globos — e que só tem membros brancos. E não quis deixar de comentar isso mesmo, num discurso humanista e que defendeu o papel da arte como modelo de comunicação e de esbatimento de diferenças inconciliáveis.

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Começou por dizer a homenageada: “Somos uma comunidade de contadores de histórias, não somos? E em tempos turbulentos e de crise como estes, a arte de contar histórias foi sempre essencial. As histórias conseguem mudar os nossos corações e as nossas mentes, podem ajudar-nos a ver-nos com uma luz nova, a ter empatia, a reconhecer que mesmo com toda a nossa diversidade somos antes de tudo, em primeiro lugar, humanos”.

Prosseguiu Jane Fonda: “Todos os grandes condutos da perceção — Buda, Maomé, Jesus, Lao Zi —, falaram-nos através de histórias, poesia e metáforas. Porque as formas não lineares e cerebrais, as formas artísticas, comunicam numa frequência diferente. Geram uma nova energia que podem sacudir-nos, abalar-nos e penetrar nas nossas defesas de tal modo que possamos ver e ouvir o que poderíamos ter medo de ver e ouvir”.

Fazendo uma espécie de resumo do melhor que viu no mundo do entretenimento nos últimos tempos, nomeado ou não para os Globos de Ouro, Jane Fonda apontou: “Não preciso de recuar muito. Só este ano o ‘Nomadland – Sobreviver na América’ ajudou-me a sentir amor pelos que viajam e vagueiam entre nós. ‘Minari’ abriu-me os olhos para a experiência de imigrantes que lidam com as realidades da vida numa terra nova. E o ‘Judas and the Black Messiah’, o ‘Small Axe’, o ‘Estados Unidos Vs. Billie Holiday’, o ‘Ma Rainey’, o ‘One Night In Miami’ e outros aprofundaram a minha empatia pelo que ser negro significa”.

‘Ramy’ ajudou-me a sentir o que significa ser um americano muçulmano. ‘I May Destroy’ [série que não foi nomeada] ensinou-me a pensar a violência sexual de toda uma outra forma. O documentário ‘All In’ lembra-me o quão frágil a nossa democracia é e inspira-nos a lutar para a preservar. E ‘A Life On Our Planet’ [de David Attenborough] mostra-nos o quão frágil o nosso pequeno planeta azul é e inspira-nos a salvá-lo e a que nos salvemos. Histórias: elas podem realmente mudar as pessoas, podem mesmo”.

Num final com drama, sem meias tintas, com a vontade de intervir socialmente que a tem caracterizado e com a insistência em não permite que a sua voz deixe de ser crítica e passe a ser complacente, prosseguiu: “Mas há uma história que temos tido todos medo de ver e ouvir sobre nós nesta indústria. Uma história sobre que vozes respeitamos e elevamos — e quais silenciamos. Uma história sobre a quem é oferecido um lugar à mesa e a quem é deixado fora das salas onde as decisões são tomadas”.

A referência era obviamente à falta de membros negros entre os associados da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, que decide que filmes e séries devem e não devem ser nomeados e premiados com Globos de Ouro. Mas Jane Fonda não acha que o problema esteja naqueles que atribuem prémios e vai mais fundo: “Portanto todos nós — incluindo todos os grupos que decidem quem é contratado, o que é feito [que filmes e séries são feitos] e quem ganha prémios —, façamos um esforço para expandir essa tenda. Para que todos se ergam e as histórias de todos tenham uma oportunidade de serem vistas e contadas”.

Quer dizer, fazer isto significa simplesmente reconhecer o que é verdadeiro. Estar a par da diversidade emergente que se vê cada vez mais por causa de todos aqueles que marcharam e lutaram no passado. Afinal de contas, a arte tem estado sempre não a par e passo da história, mas a liderar o caminho. Portanto sejamos líderes, ok? Obrigado, muito obrigado”, rematou.