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Moshe Margaretten, um rabino de Brooklyn, em Nova Iorque, tem ajudado afegãos em risco de vida, como mulheres, ativistas e colaboradores estrangeiros, a sair em segurança do Afeganistão controlado pelos talibãs.

Após a tomada de poder dos talibãs no Afeganistão, milhares de cidadãos reuniram-se junto do aeroporto de Cabul, capital do país do médio oriente, na esperança de integrar um voo que os tirasse do país, agora controlado pelas forças rebeldes que governaram vinte anos antes.

A imagem do último soldado norte-americano a sair do Afeganistão

A história, contada pela CNN, sobre quatro irmãos que se esconderam num apartamento na capital afegã, levaram o rabino nova iorquino a tomar uma atitude proativa perante as crianças que se encontravam a milhares de quilómetros de Albany, no Estado de Nova Iorque, onde a mãe, Suneeta, permanecia. Todos os filhos de Suneeta tinham menos de dezoito anos, e a filha mais nova tinha apenas sete anos. O pai das crianças, que trabalhava em colaboração com o exército dos Estados Unidos da América, desaparecera cerca de oito anos antes, e a mãe dos jovens tinha abandonado o país do médio oriente alguns anos depois.

De acordo com a BBC, esta história das quatro crianças afastadas de Suneeta não fiou indiferente para o rabino Margaretten. “Pensei naquelas crianças, todas com menos de dezoito anos, e questionei para mim mesmo ‘quem sabe se ainda estão vivos, tenho de tentar entrar em contacto com elas’”, explicou o rabino ao canal britânico. A missão de Margaretten em reunir esta família foi algo que o próprio assume que tinha desesperadamente de conseguir concretizar.

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Através da sua organização, a Tzedek Association (palavra em hebreu que significa justiça), e com a ajuda de uma rede contactos na região afegã, o rabino começou a sua busca pelos quatro irmãos.

“Conseguimos que os nossos contactos na região tomassem conta destas crianças e ao fim de uma hora já estavam dentro do aeroporto de Cabul”, relatou Moshe Margaretten. Algumas horas depois, os quatro estavam a caminho do Qatar, ponto de escala antes de chegarem a Albany, e reunirem-se finalmente com Suneeta.

O único herói nesta história, contudo, não é apenas Moshe Margaretten.

Um elemento-chave na retirada dos quatro jovens refugiados foi Mohammad Afzal Afzali, um afegão que estava também a tentar abandonar o país. O homem tinha comunicado já com Scott Sadler e Brennan Heuser, que tinham colaborado com o afegão durante missões militares no território. Os dois americanos tinham contactado oficiais americanos na esperança de retirar Afzali do Afeganistão, receando represálias ao colaborador pela sua relação direta com os Estados Unidos.

Quando tomaram conhecimento do caso dos filhos de Suneeta e colocaram Afzali ao corrente da situação, este ofereceu-se para levar os jovens em relativa segurança ao longo da viagem até solo americano. “O caminho de ambos curzou-se por motivos diferentes, mas acabaram todos por ficar em segurança nos Estados Unidos”, explicou Sadler à CNN.

Mas este não é o único caso de apoio humanitário no Afeganistão por parte do rabino e da Tzedek Association. Dezenas de ativistas, juízes e colaboradores dos Estados Unidos da América e do Reino Unido obtiveram uma réstia de esperança nas suas vidas ao serem salvos pela associação cujo mote é “lutar pela justiça”, conseguindo abandonar um Afeganistão que regrediu dezenas de anos no seu modo de vida em poucas semanas.

A sua primeira experiência com os refugiados do Afeganistão deu-se quando um afegão judeu, Zablon Simintov, entrou em contacto com o rabino, em agosto.

Antes de pedir auxílio a Margaretten, este afegão, conhecido como o último judeu do seu país, como explica o The Times of Israel, dirigiu, durante cinco dias, um autocarro ocupado por mulheres e crianças para fora daquela nação. O judeu, de 62 anos, conseguiu então, após contactar Moshe, abandonar a região em direção aos Estados Unidos.

Desde que tirei Zablon de lá, comecei a falar com mais pessoas na região e elas disseram, ‘há tanta gente em perigo aqui, que se calhar era seria bom para elas tu envolveres-te nesta missão’”, explicou o rabino à BBC.

A sua organização começou então uma angariação de fundos junto das comunidades judias de Brooklyn e de Chicago, com o objetivo de retirar tantas pessoas do Afeganistão quanto fosse possível.

De entre vários refugiados extraídos com sucesso, um dos casos diz respeito à seleção afegã feminina de futebol, do escalão júnior, cujas idades variam entre os 13 e os 19 anos. A equipa, em conjunto com as suas famílias, conseguiram abandonar o Afeganistão com o apoio da associação de Margaretten, e restabeleceram-se no Reino Unido, após permanecerem durante semanas no Paquistão.

Fareeda e Aalem (nomes fictícios), uma ativista dos direitos da mulher e da criança e um tradutor, respetivamente, são outros exemplos da ajuda que o rabino Moshe tem prestado ao povo afegão.

Quando os talibãs tomaram o controlo eu perdi tudo, os meus sonhos, a minha liberdade; não podia sair, nem para ir para o trabalho ou para a universidade, perdi a minha personalidade”, contou a ativista de vinte e cinco anos ao canal britânico.

Quando chegaram ao seu bairro, Fareeda teve de se esconder dos talibãs com medo de sofrer represálias, e após pedir ajuda, foi colocada em contacto com o rabino de Nova Iorque, que lhe garantiu passagem segura para o exterior. “Eles conseguiram tirar-me e à minha família toda do Afeganistão em 24 horas, estou muito feliz neste momento”, relatou Fareeda.

Também Aalem conseguiu entrar em contacto com Moshe Margaretten, através de contactos internacionais que advinham da sua profissão. Ainda um adolescente, Aalem voluntariou-se em 2003 para servir de tradutor, tendo trabalhado para Donald Rumsfeld, na altura secretário de defesa do presidente norte-americano George W. Bush.

Agora com 36 anos, Aalem explicou que “a mudança no regime fez-me sentir bastante vulnerável, existe um grande risco para os tradutores e intérpretes; o Afeganistão já não é uma opção onde viver, para quem tem este tipo de profissões.”

A mão direita de Moshe Margeretten nas operações de resgate é Moti Kahana, um mercenário de cinquenta e três anos financiado por várias Organizações Não-Governamentais, que tem retirado refugiados ajudados por Moshe todos os dias do país.

“Estamos a retirar principalmente juízes, procuradores, sobretudo mulheres e crianças e pessoas que tenham auxiliado os Estados Unidos”, explicou Kahana ao New York Post . “Eu sou basicamente um ‘enviado da Uber em Cabul’”, afirmou.

Mas por que motivo está um judeu ortodoxo que é rabino e natural de Brooklyn a ajudar muçulmanos no Afeganistão? A resposta, segundo Moshe, é bastante simples: “Os meus pais e os meus avós foram todos sobreviventes do Holocausto”.

O rabino, cujos avós são naturais da Hungria, explicou que o horror que os seus familiares tiveram de enfrentar quando os nazis varreram a Europa durante a Segunda Grande Guerra e o desenrolar de acontecimentos no Afeganistão presenciados na atualidade significaram, para o líder religioso, que “fazer nada não era uma opção”.