Um português a residir há um ano em Cartum, no Sudão, afirmou esta terça-feira que, após o golpe militar de segunda-feira, a cidade divide-se entre o silêncio da falta de funcionamento das instituições e comércio e o barulho dos protestos.

A viver uma situação aparentemente mais calma, após os confrontos de segunda-feira, este português, que não quis ser identificado, por razões de segurança, afirmou à agência Lusa que as comunicações continuam cortadas e os transportes são praticamente nulos, nomeadamente as ligações aéreas.

Esta segunda-feira, o general Abdel-Fattah al-Burhan, que agora controla o poder no Sudão, dissolveu o Governo de Abdalla Hamdok, assim como o Conselho Soberano, um organismo conjunto militar e civil, criado para conduzir o país a eleições gerais e restabelecer o poder civil.

Sudão. Anunciado estado de emergência, Governo fala em “golpe de Estado”

Al-Burhan dirige agora um conselho militar que, segundo afirmou esta segunda-feira num discurso na televisão pública sudanesa, governará o país até à realização de eleições em julho de 2023, como previsto.

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O general justificou a tomada de poder com disputas e divisões no seio do Conselho Soberano, mas o golpe acontece a menos de um mês de o general dever entregar a liderança do organismo de governação a um civil, passo que mitigaria o domínio dos militares sobre o poder no país.

Este português que reside há um ano em Cartum, e tem acompanhado a inflação galopante no país, apercebeu-se do golpe durante a manhã de segunda-feira, quando se deparou com estradas cortadas e militares a ocuparem as zonas estratégicas da cidade, incluindo o aeroporto.

A internet foi cortada e mais tarde os órgãos de comunicação social que, antes de serem silenciados, ainda foram dando algumas informações sobre o que estava a passar.

Devido ao corte das comunicações, este português foi deixando de ter contacto com outros, desconhecendo, por isso, o que se passa com muitos dos conhecidos.

Durante o dia de segunda-feira, prosseguiu, foram muitos os apelos das organizações para protestarem nas ruas, o que se foi traduzindo nos típicos cortes de estrada com a queima de pneus.

Os confrontos mais graves, que resultaram em vários feridos e mortos, aconteceram quando os manifestantes foram para a frente da sede dos militares, adiantou.

Até agora, o comércio encontra-se encerrado, não há praticamente carros na rua — exceto os “tuc-tuc” e os serviços do Estado estão fechados, disse.

Por toda a cidade, e um pouco por todo o país, têm-se registado protestos.

Este português recordou à Lusa que o Sudão está há pelo menos um ano com uma inflação a 400% e que existe uma grande escassez de produtos, como o pão.

Sobre o acompanhamento das autoridades portuguesas dos nacionais que se encontram no Sudão, a mesma fonte disse que tentou marcar o SOS na aplicação da Emergência Consular, que o remeteu para a página do conselho ao viajante online que, segundo disse, não é atualizada desde 2020.

A tomada do poder ocorreu após semanas de tensões crescentes entre líderes militares e civis sobre o percurso e a que ritmo que deveria prosseguir o processo de transição no país, iniciado com o derrube do ditador Omar al-Bashir em abril de 2019.

Vários governos ocidentais e as Nações Unidas condenaram o golpe e apelaram à libertação do primeiro-ministro, Abdalla Hamdok, e de outros ministros e altos funcionários, detidos na segunda-feira.

Os Estados Unidos anunciaram a suspensão de 700 milhões de dólares em ajuda de emergência ao Sudão e o golpe foi condenado pela comunidade internacional.