20 anos depois, as 8 inovações da Google que mudaram as nossas vidas /premium

04 Setembro 2018291

A Google foi fundada a 4 de setembro de 1998. Em 20 anos, mudou de várias formas o mundo em que vivemos. Dos mapas aos YouTubers, há pelo menos 8 inovações da que devemos a Larry Page e Sergey Brin.

A Google faz 20 anos. A 4 de setembro de 1998, já havia outros motores de pesquisa, mas nenhum foi tão revolucionário como aquele que foi criado por Larry Page e Sergey Brin. Na altura, tinham ambos 25 anos e eram doutorandos na universidade de Stanford. Atualmente, são das pessoas mais ricas do mundo. Tudo devido ao Google, que nasceu de uma gralha.

O nome era para ser “googol” (gugol, em português), que significa o número um seguido de cem zeros (10 elevado à potência de 100). O objetivo era o de simbolizar o trabalho da empresa em organizar a informação quase infinita na Web, mas os dois colegas tinham escrito mal o nome — “Google”. Como a palavra estava ainda disponível para registo na Internet e gostaram de como soava, nasceu o google.com. O resto é a história de uma empresa que mudou a humanidade com ferramentas como o Gmail, o YouTube ou o sistema operativo móvel Android.

Larry Page e Sergey Brin, os criadores da Google

Contudo, o crescimento da Google não foi fácil. Desde presidentes executivos que no início lhes disseram que não teriam sucesso “porque os utilizadores não ligam a pesquisar coisas na Web” até aos desafios mais recentes, como coimas de milhares de milhões pela União Europeia por concorrência desleal e ameaças do atual presidente dos Estados Unidos. Mesmo assim, atualmente, é uma das empresas com mais poder em todo o mundo. Relembre oito inovações da Google que, muito provavelmente, lhe mudaram o dia a dia.

O motor de pesquisa que criou o verbo “googlar” ou a expressão “vai ao Google”

O primeiro logo da Google tinha um ponto de exclamação. O site estava alojado no site da faculdade de Stanford

Em inglês é mais fácil de dizer do que em português: “google it” (algo como “googla isso”). A criação do motor de pesquisa mais utilizado em todo o mundo foi inovadora e… acidental. Em 1996, os dois doutorandos estavam a tentar criar um diretório de Internet, por sugestão do orientador de Page para a sua tese. Como contaram numa entrevista em 2003 ao Stanford Daily: “construímos um sistema de ranking para sites da Internet” e “acidentalmente criámos um motor de pesquisa”.

"Construímos um sistema de ranking para sites da Internet" e "acidentalmente criámos um motor de pesquisa", contavam em 2003 Sergey Brin e Larry Page

A diferença do Google em relação a outros motores de busca era que, em vez de mostrar os resultados atendendo apenas às palavras pesquisadas, como fazia o Yahoo, o algoritmo calculava quantas vezes cada site era citado por outros. Devido a isso, os resultados iam mais ao encontro do que era procurado, porque seguia as tendências. É por isso que o motor de pesquisa continua a ser eficiente e a mostrar os melhores resultados tendo em conta o perfil de cada utilizador.

Apesar de não ser ainda um termo oficial em português, Googlar mostra a importância que a empresa tem e como mudou a humanidade. Razão? Atualmente todos “googlamos”. O motor de pesquisa é, na maioria das vezes, o primeiro local onde todo o tipo de pessoas vai procurar todo o tipo de informação. Googlar substituiu expressões como “vai procurar isso nas páginas amarelas”, “telefona para o 118” ou “alguém me pode dizer onde é a capital do Toquelau?”… Resposta atual? “Google it” ou “vai ao Google”.

O lançamento do Google Earth e do Google Maps (que até nos deixou ver ruas em todo o mundo)

O Google Earth foi a primeira aplicação que permitia ver o mundo inteiro composto com imagens por satélite

Para os mais novos, que podem já não se lembrar, é importante dizer: planear uma viagem nem sempre foi tão fácil como é atualmente. Coisas como querer ir para algum lado, ligar o Google Maps ou o Waze (que pertence à Google) no smartphone e ir até ao destino não era sequer concebível. Existiam carros com mapas GPS, mas eram raros e pouco acessíveis, até que, em 2004 e 2005, apareceu o Google Earth e o Maps.

A primeira ferramenta a ficar disponível foi o Google Earth, que apesar de estar disponível desde 2001 com o nome Keyhole, foi adquirido pela Google apenas em 2004. A empresa, que tinha o mesmo nome da aplicação, tinha um investidor de peso: a CIA (a agência de segurança nacional americana). Rapidamente, a Google mudou o nome da aplicação, como lembrou em 2015 o Business Insider. Atualmente, além de permitir ver locais em 3D e em realidade virtual, também já existem versões além Terra, como o Google Mars, para Marte, e o Google Moon, para a Lua.

A Google pagou a pessoas para, com câmaras 360º, filmarem as ruas e locais em todo o mundo. Em cima pode-se ver o Convento de Cristo, em Tomar, visto no Google Street View

Já o Google Maps também nasceu de outra aquisição da Google, quando comprou a empresa australiana Where 2 Technologies. O Google Earth permitia ver imagens por satélite da terra, mas era mais focada em mostrar o caminho até determinados locais de forma rápida. A inovação em querer dar o Norte a todos os humanos foi de tal forma que, graças ao Google Maps, empresas como a Uber, que começou por utilizar este sistema para o GPS da sua aplicação, nasceram. Atualmente o Google Maps evoluiu e é possível ver fotografias 360º das ruas em quase todos os países com o Google Street View.

A compra do YouTube em 2006 que criou os YouTubers

[Os vários layouts do YouTube até 2016, inserido na plataforma por um dos utilizadores]

Em 2006, o iPhone estava a dois anos de ser apresentado e para se ver um vídeo pela Internet era mais prático fazer diretamente o download porque o “stream” era lento e a palavra YouTuber estava longe de estar no léxico de todos. Hoje, os mais novos preferem ver “os YouTubers” aos desenhos animados na televisão tradicional e “qualquer vídeo” está nesta plataforma que continua a mudar o panorama dos media de entretenimento (e de informação). Tudo porque Susan Wojcicki, uma funcionária da Google que atualmente é presidente executiva do YouTube, viu que o serviço de vídeo da Google era pior e mais valia a empresa investir em adquirir a concorrência e torná-la no que é hoje em dia.

[Este é o primeiro que foi carregado para o YouTube, a 23 de abril de 2005. Foi inserido por Jawed Karim, o co-fundador da plataforma]

Em outubro de 2006 o YouTube tinha pouco mais de um ano de existência e fez dos criadores multimilionários. Há 12 anos, a Associated Press referia a “maior compra da Google” até à altura — num total de 1.65 mil milhões de dólares — de uma “startup [o YouTube] que não faz lucro”, como: “A Google está a apostar que o popular site de partilha de vídeos vá criar um hub de marketing lucrativo”. Atualmente, há analistas que afirmam que a plataforma gera anualmente 15,5 mil milhões de dólares em receitas e tem uma valorização de 160 mil milhões, como conta o Business Insider. Um negócio de sucesso, portanto.

A mudança do paradigma do Target Advertising [Publicidade direcionada] e a massificação da publicidade na Internet

Um exemplo de publicidade a luvas no motor de pesquisa da Google se o utilizador fizer essa busca

Sejam inovações criadas pela Google, como o motor de pesquisa ou exponenciadas por aquisições da empresa, como o YouTube, a empresa que atualmente é das mais valiosas do mundo tem de fazer dinheiro de alguma forma. Como explica a Investopedia, a maior parte do capital vem da publicidade, a partir do AdWords (atualmente chamado Google Ads). Quando criou o motor de pesquisa mais utilizado em todo o mundo, a Google passou a ter acesso a uma quantidade enorme de dados de pessoas em todo o mundo. A aquisição do Google Earth, por exemplo, foi devido a perceber que cerca de 25% dos termos pesquisados no motor de pesquisa eram referentes a locais. Solução? Capitalizar este produto.

Em outubro de 2000 a Google lançou o Adwords e mudou a forma como se cria e investe na publicidade. Com esta plataforma passou a ser mais fácil (e seguro) criar publicidade que aparecesse em todos os sites e não só num. Em 2003, foi a vez da publicidade direcionada a certos públicos passar a ser possível. Em vez de se fazer anúncios aos sábados e domingos de manhã direcionados para crianças porque estão mais a ver desenhos animados a essa hora, passou a ser possível criar anúncios que surgissem diretamente em pesquisas relacionadas com as palavra que o anunciante escolhesse. Quer fazer publicidade de guitarras que chegue diretamente a quem gosta de Rock? Com a Google passou a ser possível pagar para que isso acontecesse e em toda a Internet. Como foi possível? A Google era dona da “porta de entrada” em inúmeros sites e tem os dados que foi agregando dos utilizadores.

Google tradutor, ou como passou a ser possível ler sites noutras línguas

O Google tradutor traduz desde frases a sites completos de texto

Atualmente o Google Tradutor permite traduzir conteúdos para mais de 100 dialetos. Não é 100% correto, mas desde que foi lançado em abril de 2006 já facilitou a vida de dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Inicialmente, traduzia palavra a palavra e utilizava as transcrições de bases de dados das Nações Unidas e do Parlamento Europeu para melhorar os resultado. Contudo, atualmente já evoluiu e além de conseguir traduzir também frases ditadas por quem o utiliza, está todos os dias a tornar-se mais eficaz devido a sistemas de machine learning e inteligência artificial.

O Android que conseguiu destruir a Nokia e mostrou à Apple o que é dominar o mercado

O Android é o sistema operativo móvel mais utilizado em todo o mundo

“Usas Android ou iOS?”. Esta pergunta pode dizer bastante de uma pessoa, mas diz mais sobre a Google. O sistema operativo móvel fez nos smartphones o que a Microsoft com o Windows fez nos computadores e tornou-se no principal software nativo para estes aparelhos. Em vez de se focar no hardware móvel, que também disponibiliza, a Google, em 2005, comprou a Android Inc. Um ano e dois meses depois de a Apple lançar o iPhone e o iOS, que tinha a inovadoras “apps”, a Google lançou o sistema com o HTC Dream.

Dez anos depois e o Android é o sistema operativo móvel mais utilizado em todo o mundo, tanto em smartphones como em tablets. Ajuda ser de acesso livre as os fabricantes de equipamentos poderem utilizar o sistema poupando custos e uniformizando o mercado? Sim, é o mesmo que a Microsoft faz com o Windows. Mas também é por isso que a Google recebeu a maior coima aplicada pela Comissão Europeia por abuso de posição dominante: 4,34 mil milhões de euros.

Com multas ou não, é inegável que a proliferação do Android e facilidade de transposição de apps do iOS para este sistema permitiu que os consumidores pudessem aceder a este mercado com equipamentos mais baratos. Num mundo em que só havia os caros iPhones, nem todos podiam ter facilmente acesso a apps como o Spotify ou o WhatsApp, entre tantas outras (mas não esquecer, para o Android vingar, a Microsoft perdeu uma batalha, mesmo quando se juntou com a Nokia e, mesmo assim, não conseguiu cativar com o Windows Mobile). Além de tudo isso, é graças ao Android e à Google que, atualmente, é mais fácil fazer backup dos contactos. Contudo, por causa desse luxo, deu-se a informação à empresa e esta soube por onde andámos.

O Gmail, quando o email passou a ser mais intuitivo e a ter espaço

O layout atual do Gmail pode ter mudado bastante visualmente, mas a organização por conversas e o design mantém-se pouco alterado

Houve um tempo em que enviar imagens como anexo num e-mail podia entupir a caixa de correio de quem a recebia. Depois apareceu o Gmail, a 1 de abril de 2004. Não foi mentira e a caixa de correio da Google era ‘gratuita’ (paga através publicidade que aparecia aos utilizadores) e tinha um gigabyte de memória. Foi revolucionário, principalmente porque a concorrência, como o Hotmail e o Yahoo, ‘davam’ apenas alguns megabytes. O Gmail permitiu acabar uma necessidade que atualmente já não existe para a maioria dos utilizadores da Internet: apagar e-mails porque a caixa de correio está cheia.

Contudo, para destronar o Hotmail da Microsoft e o Yahoo! Mail, em 2004, foi preciso que o Gmail fosse ainda mais inovador e não desse apenas espaço. O sistema de mensagens eletrónicas da Google foi o primeiro a permitir que cada email fosse agrupado por conversas e utilizava o sistema de pesquisa da empresa para facilitar a busca de mensagens (sim, houve uma altura em que encontrar um e-mail antigo era muito complicado). Atualmente o Gmail tem um novo look, é mais seguro e tem 15 gigabytes de espaço ‘gratuito’. O mais surpreendente? É o email mais utilizado em todo o mundo, com 1,2 mil milhões de utilizadores mensalmente. Contudo, por causa disso, levantou sempre questões de privacidade por a empresa ler, com máquinas, os e-mails para criar publicidade (uma prática teoricamente acabada em 2017).

O Google Chrome

A chave de sucesso do browser Chrome foi ser mais rápido do que a concorrência e se um separador falhasse apenas esse fechava, e não todo o programa

Nos anos de 1990 a guerra dos browsers era entre o Netscape e o Internet Explorer. Mesmo depois de várias batalhas legais, que o Netscape ganhou, o Internet Explorer, como vinha instalado em praticamente todos os computadores, tornou-se no browser mais utilizado. Era um mundo sem inovação, mesmo com o Firefox a tentar mostrá-la num mercado em que a Microsoft não dava espaço para outros entrarem. Até que, qual aldeia gaulesa com poção mágica, apareceu o irredutível Google Chrome, em 2008.

A rapidez do browser em relação ao Internet Explorer, o nome Google e o design minimalista chamou a atenção de milhões de utilizadores. O Chrome era mais rápido, fácil de utilizar e permitia facilmente aceder facilmente a outros serviços já com muito sucesso da Google, como o YouTube e o Gmail. O que o Chrome fez foi ser inovador na fluidez, mas também pegou em conceitos de sucessos de outros navegadores, como a possibilidade de navegar em modo incógnito (sem guardar o histórico), introduzido com o Safari, ou os separadores dentro do browser, já existentes no Firefox. Foi devido a isso que, atualmente, é o browser mais utilizado em todo o mundo, com cerca de 66% dos utilizadores da Internet.

Parabéns Google, mas não houve mais?

O primeiro servidor para o Google foi feito com peças de LEGO por Page e Brin em 1996 para, de forma fácil e barata, se poderem adicionar mais componentes

Em 20 anos, a Google não mudou só o cenário das tecnológicas, mudou o mundo. Sim, houve muito mais do que estas oito inovações, e nem tudo foi benéfico. O poder que a empresa tem atualmente tem levado as autoridades governamentais a reconsiderarem o poder das tecnológicas devido aos dados a que têm acesso. Só em junho deste ano é que a empresa de Larry Page e Sergey Brin (que agora lideram a Alphabet, que desde 2015 passou a ser a “empresa mãe” da Google), afirmou que não ia utilizar tecnologia de inteligência artificial em armas. Por outro lado, em maio, discretamente retirou o slogan não oficial “Don’t Be Evil” [Não ser maléfico, em português] do prefácio livro de regras da empresa.

Mesmo assim, são 20 anos de apps, programas, dispositivos e páginas da Web que marcaram a História. Desde os “Doodles do dia” que ainda hoje são notícia quando referem Portugal, até aos Google Docs que estão a baixar o preço do Microsoft Office, passando por inovações falhadas, como quando criou o Google Plus que desde o início não conseguiu estar à altura do Facebook. Até casos mais insólitos, como quando em 2014, no dia das mentiras, pôs Pokémon no Google Maps e, dois anos depois, lançou mesmo um jogo, pela Niantic, que criou um verão em que milhões de pessoas em todo o mundo saíram à rua para apanhar criaturas digitais. Tudo isto faz da Google uma empresa única e tudo com um nome que nasceu de uma gralha. Parabéns, Google.

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