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O corpo foi encontrado na manhã deste domingo num apartamento em Cascais (a fotografia é meramente ilustrativa)

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

O corpo foi encontrado na manhã deste domingo num apartamento em Cascais (a fotografia é meramente ilustrativa)

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

Crime, encenação ou suicídio? O caso do empresário encontrado morto em Cascais é ainda um mistério /premium

O cadáver foi encontrado num cenário cheio de pontos de interrogação. A PJ procura o eventual autor ou autores do crime. Se é que existem. Todas as hipóteses estão em aberto: até a de um suicídio.

Só com a ajuda dos bombeiros é que se conseguiu abrir, finalmente, a porta. Os agentes da PSP já tinham tentado fazer o mesmo, mas sem sucesso. Antes disso, tinha sido o próprio senhorio do apartamento a tentar entrar. Este, estranhando o facto de o seu inquilino não lhe responder quando batia à porta, apesar de ter a luz acessa, decidiu chamar as autoridades. Mesmo os bombeiros tiveram alguma dificuldade em arrombar a porta já que, do interior, alguma coisa a bloqueava.

Era o cadáver do inquilino, um homem de 66 anos e empresário que ali vivia sozinho, na freguesia da Parede, em Cascais, há cerca de um ano. Tinha mãos e pés atados com fita adesiva — a mesma fita adesiva que lhe tapava a boca. Lá dentro, tinha um pano. Na cabeça, um saco de plástico. E, enrolado à volta do pescoço, um cabo de uma extensão elétrica. Ao que o Observador apurou, à hora a que foi encontrado, ao final da manhã, o corpo já se encontrava em rigidez cadavérica — o que pode explicar a dificuldade em abrir a porta.

O cenário de um eventual crime ficou, desde logo, “adulterado”, como caracteriza fonte da Polícia Judiciária (PJ) em declarações ao Observador. O arrombamento da porta fez com que o corpo fosse arrastado. Daí que nenhum dos elementos da PSP, PJ, ou até, dos Bombeiros Voluntários da Parede tivessem visto a posição original em que o empresário ficou quando morreu: quando se depararam com ele já o cadáver tinha sido, por eles e involuntariamente, movido.

A PJ esteve ao longo do dia de domingo a realizar várias perícias na casa (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apesar de “adulterado”, o cenário em que o corpo do homem de 66 anos foi encontrado não deixou de ser suspeito. Aliás, foi precisamente isso que levou os agentes da PSP, numa primeira análise, a acreditar que havia indícios de crime. Ao que o Observador apurou, no auto realizado pelos agentes que foram acionados para o local, não constam dados acerca do espaço envolvente que justifiquem esses indícios: por exemplo, trajeto de sangue, sinais de assalto ou arrombamento. É apenas o estado em que se encontrava o cadáver que sustenta as suspeitas de um crime.

O caso passou agora para a alçada da PJ que procura o eventual ou os eventuais autores. Se é que existem. Todas as hipóteses estão em aberto: até mesmo a de um suicídio. É que apesar de existirem vários elementos — do saco na cabeça ao pano dentro da boca — que parecem ir na direção de um homicídio, a verdade é que outros elementos lançam a dúvida. E um suicídio com aparência de homicídio é mais frequente do que o habitual.

Ainda há muitas perguntas sem resposta. Algumas, provavelmente, nunca serão respondidas. É que o facto de o local do eventual crime ter sido mexido, ainda que involuntariamente, poderá dificultar a ação dos investigadores. À semelhança um pouco do que pode acontecer quando se tentar reanimar uma vítima: na autópsia são detetadas costelas partidas, mas não se consegue apurar se foram provocadas por um eventual homicida ou resultado das manobras de reanimação.

Homicídio encenado e seguros de vida envolvidos ou suicídio com rituais?

“Se o corpo estava a bloquear a porta, por onde saiu o assassino?”. A questão é colocada por Carlos Poiares, professor universitário de psicologia forense. É, aliás, como admite em declarações ao Observador, o único elemento deste caso que o leva a colocar em cima da mesa a hipótese de um suicídio. Lembrando que não viu o cenário do crime e que, “antes de se saber a causa da morte, é muito difícil fazer conjeturas”, o especialista considera, ainda assim, esta hipótese “remota”. Fonte da PJ explicou também ao Observador que não é assim tão incomum que um corpo fique junto a uma porta, especialmente se o crime ou o suicídio acontecer num espaço pequeno.

“Em princípio, para se suicidar — a não ser que se tenha envenenado e que haja um prazo entre a toma do veneno e o efeito —, a pessoa precisava de energia para se amarrar, e era difícil alguém se suicidar depois de estar amarrado”, diz, detalhando que os suicídios entre homens são, mais frequentemente, por enforcamento ou com recurso a arma de fogo.

"Em princípio, para se suicidar — a não ser que se tenha envenenado e que haja um prazo entre a toma do veneno e o efeito —, a pessoa precisava de energia para se amarrar, e era difícil alguém se suicidar depois de estar amarrado"
Carlos Poiares, professor universitário de psicologia forense

Certo é que há casos que, à primeira vista, parecem tratar-se de um homicídio, mas que com a evolução da investigação se percebe que foi um suicídio. Já aconteceu, por exemplo, com uma idosa que foi encontrada pendurada por uma corda em volta do pescoço, com uma mordaça na boca e as mãos atadas atrás das costas. Estava de joelhos, embora não tocassem totalmente no chão devido à corda que a sustentava parcialmente no ar. Apesar deste cenário macabro, a verdade é que a investigação — através dos vestígios encontrados na corda e na mordaça — viria a revelar que se tratava, afinal, de um suicídio. Estes objetos podem apenas servir para evitar que a pessoa que se suicida perca a coragem e garantir que, mesmo que aconteça, não tem escapatória.

O especialista em psicologia forense coloca ainda a hipótese — “meramente académica”, alerta —  de se tratar de um homicídio encenado para que algum familiar pudesse beneficiar de eventuais seguros. Isto porque “as apólices de seguro de vida não cobrem os suicídios”, explica Carlos Poiares, considerando ainda que o empresário “poderia estar a tentar uma burla póstuma”.

Amarrar a vítima para a tornar “o mais dócil possível” ou a “mentalidade distorcida” do assassino

Embora não haja uma linha de investigação única definida, a verdade é que a hipótese com mais força é a de um homicídio. O Correio da Manhã escreve que o empresário teria praticado algumas burlas em Angola, tendo sido alvo até de processos judiciais, e que podia ter sido vítima de um ajuste de contas. Ainda assim, ao Observador, fonte da PJ disse não terem conhecimento da existência de burlas.

Apesar de a PSP ter sido chamada ao local, o caso está agora a ser investigado pela PJ (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O facto de o empresário ter sido encontrado com as mãos e pés atacados com fita adesiva aponta na direção de um homicídio. “O homicida tenta muitas vezes, para imobilizar a vítima, torná-la o mais dócil possível. Amarrar-lhe as pernas ou amarrar-lhe os braços ou pôr-lhe uma mordaça evitará que morda, grite ou que possa usar os braços como forma de se defender”, diz o especialista em psicologia forense, detalhado que tal “também depende muitas vezes da robustez física, da corpulência da vítima e da idade”. “Há vítimas em que obviamente o agressor tem de prever e ter cuidado”, acrescenta ainda.

Pode ainda dar-se o caso de o amarrar das mãos e dos pés estar relacionado com “a mentalidade de um sujeito que comete um crime” que pode estar “de tal maneira distorcida em função de um ódio“. “Não tem de ser apenas um ódio de natureza grupal. Pode ser contra aquele sujeito e não envolver mais ninguém”, detalha. Carlos Poiares explica ainda que amarrar as vítimas “às vezes, acontece nos crimes de ódio, em que a fúria e a resenha demolidora do assassino leva a querer deformar o corpo ou até mutilar”.

O saco de plástico na cabeça. Causa da morte ou “outro significado”?

Não se conhecem, para já os resultados da autópsia. Embora o Correio da Manhã noticie a existência de agressões violentas, o Observador apurou que não consta, no auto da PSP, essa indicação — que normalmente fica registada quando se verificam efetivamente indícios de agressões. O saco da cabeça e o fio elétrico em redor do pescoço — e até mesmo o pano dentro da boca — parecem sugerir que a causa da morte é asfixia.

Mas, para o especialista em psicologia forense, Carlos Poiares, o saco pode ter “outro significado”. O objetivo do homicida pode ter sido mesmo colocar o empresário num “estado de cegueira” para o diminuir “sensorialmente”. Porquê? “Porque vai tornar a vítima incapaz de se defender e de reagir do que se estiver a ver”, responde.  Para o professor universitário, é exatamente este elemento que o leva a afastar a hipótese de suicídio. “Um suicida normalmente faz menos preparativos ou menos rituais e, neste caso, parece ter havido alguma ritualidade”, lembra.

"Um suicida normalmente faz menos preparativos ou menos rituais e, neste caso, parece ter havido alguma ritualidade"
Carlos Poiares, professor universitário de psicologia forense

A autópsia médico-legal será essencial para desvendar o mistério que balança entre uma situação de crime ou suicídio. Mas, como o cenário do crime foi “adulterado”, na eventualidade desta autópsia não dar respostas, há sempre a hipótese de uma autópsia psicológica. De acordo com Carlos Poiares, esta permite perceber, como que levantar o pano, situações relacionadas com a personalidade do morto, mas também com o seu estado psicológico, ânimos nos últimos tempos de vida e que, frequentemente, permitem desvendar se foi homicídio ou suicídio”.

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