819kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

DPR Head Pushilin asks Russia to recognize independence of Donetsk People's Republic
i

No cartaz, lê-se "Donbass faz parte da Rússia"

Alexander Ryumin/TASS

No cartaz, lê-se "Donbass faz parte da Rússia"

Alexander Ryumin/TASS

Donetsk e Lugansk, as duas regiões que fazem Putin sonhar com a reconstituição do império russo

A Rússia proclamou as regiões de Donetsk e Lugansk como independentes. Falam russo, mas qual é a sua História e como é que se formaram? Ucrânia teme que sejam porta de entrada para invasão do país.

Com quatro milhões de habitantes é a região mais populosa da Ucrânia — tem mais habitantes do que sete Estados-membros da União Europeia (UE) —, possui a quinta maior cidade do país e quase 27 mil quilómetros quadrados. Donbass, perto da fronteira da Rússia, é composta por duas repúblicas que se querem ver livres do jugo da soberania de Kiev: Donetsk e Lugansk.

O Presidente russo declarou esta segunda-feira apoio à independência destas regiões, algo que viola os acordos de paz de Minsk assinados em 2015. Tendo em conta as posições de Kiev, da UE e da NATO, que já anunciaram que aqueles territórios são ucranianos, esta movimentação poderá espoletar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, considerada, no seu todo, numa “terra antiga russa” por Putin.

Donetsk e Lugansk já tinham autoproclamado a independência da Ucrânia em 2014, aquando da entrada das tropas russas na Crimeia e no leste do país. Até agora, explica o Financial Times, as duas repúblicas têm recebido apoios financeiros e políticos da Rússia, sendo praticamente dependentes da influência de Moscovo. No entanto, a assinatura dos tratados de Minsk, em 2015, fez com que o Kremlin desistisse de apoiar a independência destes dois territórios (ou de anexá-los, como à Crimeia), convicção que se desfez com o discurso de Putin ao país esta segunda-feira.

Os territórios Donetsk e Lugansk. Mapa: Observador

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

No entanto, segundo o Presidente russo, foi a Ucrânia quem não quis “aplicar os acordos de Minsk”, acusando o país de não procurar uma “solução pacífica”. Putin  foi ainda mais longe: acusou Kiev de levar a cabo um “genocídio”. “Há crianças e idosos a serem torturados”, denunciou, referindo que não há “fim à vista” para esta situação.

O motivo? Para entender a versão do chefe de Estado russo há que recordar a revolução ucraniana (Maidan), cujo resultado final foi a anexação da Crimeia. À data, a Ucrânia tinha um presidente pró-russo, Víktor Yanukovych, que rejeitou um acordo com a União Europeia e apostou no fortalecimento das relações com Moscovo. Desde novembro de 2013 que a revolta popular tomou conta das ruas e exigia a deposição do chefe de Estado, algo que acabou por se concretizar em fevereiro do ano seguinte.

  • Amidst Protests In Ukraine President Yanukovych Meets With Putin
    Vladimir Putin e Víktor Yanukovych
    Getty Images
  • Violence Escalates As Kiev Protests Continue
    As revoltas nas ruas da Ucrânia em 2014
    Getty Images

Ora, Vladimir Putin disse que, desde aí, as aldeias da região têm sido constantemente “atacadas” por não reconhecerem o “golpe de Estado de 2014”. “A Rússia fez tudo o que podia para manter a integridade territorial da Ucrânia”, salientou o Presidente russo, afirmando depois que tinha sido “tudo em vão”. Isto porque os políticos ucranianos optaram pela via da “violência” e a militar: “Os governantes de Kiev têm de parar esta hostilidade e derramamento de sangue em Donbass”.

Trazendo para si a responsabilidade de proteger estes territórios, o Presidente russo deixou ainda uma ameaça. Se Kiev não parar com as “hostilidades” o “derramamento de sangue”, “qualquer consequência terá de pesar nas suas consequências”.

Donetsk e Lugansk: que repúblicas são estas?

É difícil dar uma definição às duas repúblicas, uma vez que há, no mesmo território, regiões que são controladas pelo governo de Kiev e outras pelo governo autoproclamado. Mas as duas reconheceram o russo como língua oficial, apesar de ainda haver populações que falam ucraniano. Além disso, a moeda maioritariamente usada é o rublo, tal como na Rússia, ainda que a hryvnia ucraniana seja também aceite.

Partilham também uma história em comum. Integradas no império russo durante séculos, foram, em 1922, integradas na República Soviética ucraniana, permanecendo sob hegemonia ucraniana após a queda da União Soviética, em 1991. Em termos de nacionalidade, segundo os censos ucranianos de 2001, 58,7% da população que vivia na época em Donetsk identificava-se como ucraniana, havendo, ainda assim, uma minoria considerável russa — 38,2%. Em Lugansk, as percentagens eram idênticas: 58% reconheciam-se enquanto cidadãos  ucraniano e 39% como russo.

As repúblicas soviéticas, das quais fazia parte a Ucrânia

Wikimedia commons

Geograficamente, a República Popular de Lugansk localiza-se exatamente na fronteira entre a Ucrânia e a Rússia. Com 1,5 milhões de habitantes, a capital do território também se chama Lugansk. O líder, eleito em 2018 através de eleições — não reconhecidas pela comunidade internacional, nem pela própria Ucrânia —, é Leonid Pasechnik.

Já a República Popular de Donetsk localiza-se mais a oeste. À capital também se dá o nome de Donetsk, que é a quinta maior cidade ucraniana. O líder da região, desde 2018, é Denis Pushilin, que substituiu Alexander Vladimirovich Zakharchenko, que morreu numa explosão num café. Em entrevista ao canal de televisão canadiano CBC, o atual líder afirmou que “a Ucrânia, enquanto Estado, já não existe mais”. “A vasta maioria dos nossos residentes querem estar o mais próximo possível da Rússia.”

Ethnic Russians Face Hard Existence In Eastern Ukraine

A cidade de Donetsk

Getty Images

Economicamente, as duas repúblicas têm sofrido com o permanente estado de conflito desde 2014. Segundo uma sondagem citada pelo The Washington Post, 11,5% da população não tem dinheiro suficiente para comprar comida, enquanto mais de 54% assumiu que foi afetada diretamente pela guerra. São os cidadãos mais pobres (54%) e os mais jovens (59%) que dão mais importância ao salário que auferem do que propriamente ao país em que vivem. Contudo, os mais afetados pela contenda são os que manifestam uma opinião mais forte sobre se devem ter cidadania russa ou ucraniana.

Esta crise é, contudo, mais profunda do que aparenta. A Ucrânia tem tido dificuldades em prosperar desde a sua independência da União Soviética, principalmente nas áreas em que se concentravam vários setores industriais — tal como em Donbass, que tinha indústrias de carvão. De acordo com o The Washington Post, a estagnação económica teve um impacto negativo na vida das pessoas, algo que se acentuou com a guerra, e que levou potencialmente a um maior descontentamento com o governo central.

Porta de entrada para a Ucrânia?

Do lado ocidental e ucraniano, vê-se a declaração de independência das duas repúblicas com apreensão e preocupação. A procuradora-geral da Ucrânia já divulgou que o Estado ucraniano vai abrir um processo crime relacionado com as ações de Vladimir Putin para mudar as fronteiras do país. Irina Venediktov escreveu no Facebook que se viu forçada a agir depois do reconhecimento da independência das províncias separatistas ucranianas.

Ursula von der Leyen escreveu, na sua conta pessoal do Twitter, que o “reconhecimento de dois territórios separatistas na Ucrânia é uma violação flagrante do direito internacional, da integridade territorial da Ucrânia e dos acordos de Minsk”. À semelhança da presidente da Comissão Europeia, o Ocidente acusa a Rússia de violar princípios do direito internacional e pôr em causa a soberania e a integridade territorial ucraniana. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, também disse que a Rússia violou a carta fundadora da organização.

Contudo, os receios são ainda maiores. As autoridades de Kiev temem que a proclamação da independência possa ser um pretexto para uma invasão do resto de território ucraniano. Segundo o The New York Times, o reconhecimento dos territórios podem significar uma ocupação do exército russo nestas regiões — aliás, na noite desta segunda-feira, há relatos de que o exército russo já entrou em Donbass.

Esta movimentação é uma entrada em território reconhecido como ucraniano pela comunidade internacional e também por Kiev, sendo interpretada, assim, como uma invasão à Ucrânia. Adicionalmente, uma presença militar mais reforçada da Rússia já em solo ucraniano representa um perigo para o resto do país, uma vez que é mais fácil para Moscovo entrar em outras regiões do território vizinho, podendo ainda estacionar tropas e aproveitar as infraestruturas das duas repúblicas.

Uma presença militar mais reforçada da Rússia já em solo ucraniano representa um perigo para o resto do país, uma vez que é mais fácil para Moscovo entrar em outras regiões do território vizinho

O regresso do Império Russo?

Foi uma das partes que mais ocupou o discurso desta segunda-feira de Putin: a História da Ucrânia, da União Soviética e do Império Russo. Para o Presidente russo, Lenine foi “o criador da Ucrânia”, criticando depois o derrube de estátuas do antigo líder em cidades ucranianas. Mas a Ucrânia não é só um “país vizinho”: “É uma parte inerente da História” russa, disse. 

DPR Head Pushilin asks Russia to recognize independence of Donetsk People's Republic

Estátua de Lenine em Donbass

Alexander Ryumin/TASS

A questão que se coloca é se este raciocínio se pode aplicar a outros países que surgiram após a queda da União Soviética. Terá Putin como objetivo invadir países que foram ‘criados’ primeiro enquanto repúblicas da URSS? Territórios como a Moldávia, o Azerbaijão ou a Geórgia poderão ser atacados se o Presidente russo decidir que são “parte inerente da História”?

A URSS foi composta por 15 repúblicas, mas o Império russo, durante a altura dos czares, ia desde o que é hoje a Polónia até aos limites leste de hoje em dia da Rússia.

 
Assine o Observador a partir de 0,18€/ dia

Não é só para chegar ao fim deste artigo:

  • Leitura sem limites, em qualquer dispositivo
  • Menos publicidade
  • Desconto na Academia Observador
  • Desconto na revista best-of
  • Newsletter exclusiva
  • Conversas com jornalistas exclusivas
  • Oferta de artigos
  • Participação nos comentários

Apoie agora o jornalismo independente

Ver planos

Oferta limitada

Apoio ao cliente | Já é assinante? Faça logout e inicie sessão na conta com a qual tem uma assinatura

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.

Vivemos tempos interessantes e importantes

Se 1% dos nossos leitores assinasse o Observador, conseguiríamos aumentar ainda mais o nosso investimento no escrutínio dos poderes públicos e na capacidade de explicarmos todas as crises – as nacionais e as internacionais. Hoje como nunca é essencial apoiar o jornalismo independente para estar bem informado. Torne-se assinante a partir de 0,18€/ dia.

Ver planos