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Subida repentina no número de casos levou as autoridades espanholas a avançar com várias medidas. A maior testagem é uma delas

Alejandro Garcia/EPA

Subida repentina no número de casos levou as autoridades espanholas a avançar com várias medidas. A maior testagem é uma delas

Alejandro Garcia/EPA

Espanha já lidera a segunda vaga na Europa (com muito avanço). As 6 lições que Portugal pode tirar /premium

Com 53 mil casos numa semana, Espanha tem o ritmo de contágio mais alto da Europa. Discotecas abertas até às 5h, casamentos com 200 pessoas e regras diferentes em cada região ajudam a explicar porquê.

Numa só semana, justamente a que passou, Espanha registou mais de 53 mil novos casos de infeção pelo novo coronavírus e consolidou a liderança daquela que parece ser já a inevitável segunda vaga europeia de Covid-19.

Não há, em todo o continente, outro país onde os números tenham subido tanto; nem fora dele aliás — com 114 novas infeções por cada 100 mil pessoas, o vírus já está a espalhar-se mais rapidamente em Espanha do que nos Estados Unidos, o país mais afetado pela pandemia no mundo, contabilizou esta segunda-feira o New York Times.

O ritmo de contágio em Espanha é duas vezes mais acelerado do que em França, dez vezes mais rápido do que na Alemanha e está oito vezes acima do Reino Unido e até de Itália, país que liderou a primeira vaga na Europa e que continua a ser o que, em todo o continente, mais vítimas fatais tem a lamentar — 35.483.

Mas enquanto Itália tem 269.214 casos de infeção registados desde o início da pandemia, Espanha já vai em 462.858 infetados e nem o facto de o número de mortes registadas ser significativamente inferior — 29.094 até esta terça-feira à tarde — será grande motivo de alento, ou não tenham sido vários os ajustes feitos à contagem desde o início do surto, com as próprias autoridades a admitirem que os números oficiais muito provavelmente pecam por defeito — os casos de infeção confirmados depois da morte, por exemplo, nunca foram considerados para as estatísticas da Covid-19, revelou em meados de julho o El Mundo.

Em Barcelona, uma das estratégias para controlar os surtos passa por alargar os testes mesmo a quem não tem sintomas. O objetivo é detetar possíveis focos de infeção

Quique Garcia/EPA

Com o país a liderar, pelo menos um mês antes do expectável, a previsível segunda vaga da doença no continente europeu, é hora de perceber o que correu mal — e aí Portugal, tal como os demais países, pode tentar aprender com os erros do vizinho.

Ao todo, especialistas ouvidos pelo New York Times identificaram seis pontos que ajudam a explicar o descalabro corrente — e pelo menos metade deles podiam ter sido decalcados da realidade portuguesa.

Um país, 17 pacotes de medidas diferentes

Na mesma medida em que teve um dos confinamentos mais restritivos em todo o mundo, com os cidadãos proibidos de sair de casa até para fazer exercício físico durante 48 dias e até ao início de maio, Espanha também foi dos países mais radicais na hora de desconfinar. Mais do que isso: depois de ter confinado de forma concertada, com regras decididas e emanadas a partir de Madrid, voltou à normalidade de forma descentralizada, com cada uma das 17 comunidades autónomas a poder decidir o que, quando e como fazer.

“Não temos os instrumentos legais que nos garantam a capacidade para tomar decisões”, queixou-se ao New York Times Juan Manuel Moreno, presidente do governo regional da Andaluzia — uma das mais afetadas pela segunda vaga e a única região do país onde os casamentos continuam a poder prolongar-se até às 6h da madrugada; em todas as restantes, dado o aumento de casos, o recolher obrigatório em situação de copo de água passou recentemente para a 1h.

Na região de Madrid, por exemplo, os espaços para uma série de eventos, públicos ou privados, só estão limitados a 75% de lotação — o que torna legais casamentos com 200 pessoas, batizados com 100 ou até festas taurinas com 4 mil pessoas.

Para evitar que juízes locais continuassem a vetar a implementação de medidas de restrição do vírus, sob o argumento de que só Madrid tem capacidade para legislar sobre o assunto, a 14 de agosto o ministro da Saúde anunciou a tomada inédita de 11 medidas a nível nacional. “Decidimos adoptar, pela primeira vez em democracia, ações coordenadas no domínio da saúde pública para benefício de todas as Comunidades Autónomas de Espanha”, anunciou Salvador Illa para logo seguir avisar: o cumprimento das novas regras “não é opcional”.

Testes à chegada, uso de máscaras ao ar livre e proibição de fumar na rua. As medidas para travar nova vaga de Covid-19 na Europa

Para além de ter passado a ser proibido fumar ao ar livre nos casos em que seja impossível manter uma distância de segurança de dois metros e de se limitarem as lotações de mesas em restaurantes e esplanadas a um máximo de dez pessoas, foram encerrados bares, discotecas e salões de baile.

Por omissão, outro tipo de recintos e eventos ficaram de fora das novas regras — apesar de ter sido recomendado que os eventos sociais se limitem ao máximo para lá dos “grupos de convivência estável”, não devendo ultrapassar a dezena de pessoas, permaneceram em vigor as restrições antes adotadas pelas comunidades autónomas.

No caso da região de Madrid, por exemplo, isso significa que para uma série de eventos, públicos ou privados, a regra é a de que os espaços não podem ultrapassar os 75% de lotação. O que torna legais casamentos com 200 pessoas, batizados com 100 ou até festas taurinas com 4 mil pessoas, denunciou recentemente o jornal El Economista — “É a magia das percentagens”.

A subida repentina no número de casos colocou Espanha no topo da lista dos países onde a cada vez mais inevitável segunda vaga europeia começa a avançar

AFP via Getty Images

Até há escassos dias, esteve previsto para a próxima sexta-feira, dia 4 de setembro, em Alcalá de Henares, a 40 quilómetros de Madrid, um festival de touros onde eram esperadas mais de quatro mil pessoas. As polémicas autorizações concedidas aos promotores do evento pela Comunidade de Madrid — ao arrepio das recomendações da Direção Geral de Saúde Pública, que “desaconselhava” a realização do festival — acabaram por ser revogadas na passada quinta-feira.

“A situação epidemiológica em Madrid obriga-nos a ser ainda mais prudentes. Dei ordem para cancelar este evento, que a Câmara Municipal de Alcalá autorizou no dia 31 de Julho. Esperemos que se realize em breve”, anunciou no Twitter Isabel Díaz Ayuso, a presidente da Comunidade Autónoma de Madrid, que em março foi notícia por ter testado positivo para o novo coronavírus.

Em Portugal, precisamente no mesmo fim de semana e apesar da polémica, a Festa do Avante mantém-se — apesar de a DGS admitir que o evento comporta um “risco real” de contágio do SARS-Cov-2 —, depois de o PCP ter apresentado um Plano de Contingência em quase tudo semelhante ao parecer técnico das autoridades de saúde. No Seixal, no próximo fim de semana, são esperadas nada menos do que 16.563 pessoas (em simultâneo).

Reabertura de bares e discotecas — até às 5h da madrugada

Encerrados compulsivamente a meio de agosto, os bares e discotecas estiveram abertos e a funcionar durante dois meses e meio na maior parte do território espanhol — ao contrário do que tem acontecido na maior parte dos países europeus, Portugal incluído, em que o setor da animação noturna continua em espera.

“Temos este fator cultural relacionado com a nossa vida social”, explicou ao New York Times Ildefonso Hernández-Aguado, antigo director-geral de saúde pública do governo espanhol. “As pessoas são próximas. Gostam de se conhecer umas às outras.”

A cultura da caña e da discoteca, por muito que a dança corpo a corpo tenha sido proibida por decreto — apenas pessoas do mesmo grupo podiam dançar juntas, e sempre ao redor da mesa que partilhavam —, terá sido preponderante para o estado atual da pandemia no país, consideraram os especialistas ouvidos pelo jornal.

Depois de uma das quarentenas mais restritivas da Europa, Espanha decidiu abrir bares e discotecas quase de imediato. Agora teve de voltar atrás

AFP via Getty Images

Em Málaga, na Andaluzia, escreve o diário americano, as discotecas funcionaram diariamente até às 5h da madrugada — até que foram encerradas, não pelo decreto do Ministério da Saúde mas em consequência do caso do DJ que foi filmado a cuspir para cima do público em Torremolinos, onze dias antes.

Agora, pelo menos na zona de Málaga, só restam os bares a funcionar — por lei até à 1h, na prática bem para lá dessa hora, a mesma em que grupos alcoolizados são recorrentemente vistos a transferir a festa para os areais mais próximos.

Em breve, também isso deverá acabar: para além de em toda a Espanha ser proibido beber na via pública (como acontece em Portugal), desde esta terça-feira as praias de toda a Andaluzia passam a fechar às 21h30, justamente para prevenir a escalada de novos casos de infeção.

Regresso dos turistas

Apesar de ter sido apontado como uma das seis razões para o aumento de casos de infeção no país, a verdade é que o regresso dos turistas a Espanha se fez de forma lenta — e tem tudo para voltar a estagnar nos próximos meses.

Em julho, o primeiro mês com fronteiras abertas e cidadãos desconfinados, dois milhões e meio de turistas estrangeiros visitaram Espanha — no mesmo mês de 2019 tinham sido 9,9 milhões.

A queda, de 75%, representou uma perda de 9.530 milhões de euros relativamente ao ano anterior, estimou esta terça-feira o El Mundo, a partir dos números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, o que não significa que não tenha potenciado o aumento das infeções, argumentaram os especialistas ouvidos pelo New York Times — o que nos leva de volta à reabertura de bares e discotecas, com horários alargados, para fazer reviver a economia, para gáudio de noctívagos nacionais e estrangeiros.

O regresso do turismo foi feito de forma lenta e deve voltar a diminuir

NurPhoto via Getty Images

Independentemente da sua quota parte de responsabilidade até à data, o turismo deverá ser a breve trecho retirado do rol de “culpados” desta segunda vaga espanhola.  Depois de na semana passada a imprensa espanhola ter feito as contas à lista divulgada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e ter anunciado que só vinte e um países em todo o mundo permitiam a entrada sem restrições de viajantes oriundos de Espanha, eis que esta terça-feira à tarde as autoridades revelaram nova listagem.

Com a Polónia a interromper todos os voos com direção àquele país e a Eslováquia a exigir o cumprimento de quarentena a todos os que de lá cheguem, passam a ser apenas 19 os países que não colocam entraves às viagens de e para Espanha. A saber: Portugal, França, Suécia, Luxemburgo, Croácia, Bulgária, Sérvia, Montenegro, Albânia, Macedónia, México, Lesoto, Chade, Costa do Marfim, Afeganistão, Síria, Iémen, Mongólia e Coreia do Norte.

Encontros de família, casamentos e batizados

Na passada sexta-feira, em Moura, a GNR dispersou um casamento com mais de 300 pessoas — em Portugal, em vigor para casamentos e batizados, estão as mesmas regras que se aplicam aos funerais, explicou no final de junho Graça Freitas, aludindo ao número máximo de 20 pessoas que se poderão juntar. “Se as pessoas pertencem a agregados familiares diferentes, não se devem juntar. Essa é a regra número um”, explicou a diretora-geral de Saúde.

Desde o final de agosto que há novas regras e estão terminantemente proibidas reuniões sociais com tantas pessoas como até agora. Na Catalunha, por exemplo, não podem reunir-se mais de 10; em Murcia 30 é o limite.

Ora, em Espanha, e até ao final de agosto, o caso era bem diferente e obedecia à tal regra dos 75% de lotação — com limitações máximas bastante generosas: em espaços fechados, os casamentos não podiam ter mais de 200 pessoas, número que passava para os 500 nos locais abertos, podendo mesmo chegar aos 800, caso os organizadores do evento elaborassem um plano específico.

Por muito que em qualquer uma das situações a pista de dança estivesse interdita, os casamentos, tal como os batizados, terão também a sua quota parte no que toca à transmissão do novo coronavírus em Espanha, acreditam os especialistas. O caso do noivo de Murcia que testou positivo três dias depois do copo de água, com quase 200 convidados, não será único. Mas não deverá repetir-se tão cedo: desde o final de agosto que há novas regras e estão terminantemente proibidas reuniões sociais com tantas pessoas. Na Catalunha, por exemplo, não podem reunir-se mais de 10; em Murcia 30 é o limite.

Outro dos costumes que terá contribuído para o grassar da transmissão do vírus em Espanha será mais difícil de controlar — e é aliás comum a Portugal: com o verão, o desconfinamento e o regresso a casa dos emigrantes, generalizaram-se as almoçaradas e reuniões familiares.

Os ajuntamentos em praias não são comuns apenas durante o dia. Grupos de jovens acabam por prolongar ali a noite, depois do fecho das discotecas

Europa Press via Getty Images

As consequências são visíveis em ambos os lados da fronteira, alertou justamente Graça Freitas esta segunda-feira. “Se acontecer termos familiares noutras casas, não nos vamos juntar todos só porque somos da mesma família. Por serem da mesma família [algumas pessoas] pensam que têm um escudo invisível que as protege e que se podem juntar todas no mesmo espaço e ao mesmo tempo, mas não é assim”, explicou a diretora-geral de Saúde. “Basta uma pessoa estar doente para contagiar 20, 30 familiares.”

Atrasos nos testes e nos contactos com os infetados

Terá sido mais uma consequência da descentralização: a decisão sobre como fazer o rastreio de infetados e respetivos contactos ficou ao critério de cada região — o que fez com que algumas contratassem milhares de pessoas para assegurar a tarefa, essencial para a contenção do vírus e para a identificação de cadeias de transmissão, e outras pouco mais de uma dezena, diz o New York Times.

O resultado está à vista entre os milhares de novos casos de infeção registados nas últimas semanas — e foi também um dos problemas identificados aquando do crescimento da pandemia em Portugal, nomeadamente na Área Metropolitana de Lisboa.

Surto em Lisboa. Aida, João, Ana e Odete estão há dias à espera do contacto das autoridades de saúde

“Alguém que tem um diagnóstico positivo, apesar de tudo, deverá estar isolado e a cumprir a quarentena, mesmo que não tenha feito o inquérito epidemiológico. O problema são os contactos próximos, que podem estar assintomáticos e disseminar a doença”, explicou no final de junho ao Observador Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. “Por falta de recursos humanos, houve centenas de inquéritos epidemiológicos que foram adiados e não foram feitos de forma imediata. Sei que houve casos em que demoraram três ou quatro dias até terem sido feitos. Um infetado, neste tempo, pode infetar muita gente.”

Para ajudar a rastrear contactos em todo o país, o governo de Madrid anunciou a semana passada que ia deslocar dois mil militares para essa função.

Em Espanha, para piorar ainda mais a situação, em algumas regiões os resultados dos testes chegaram a demorar até uma semana a serem conhecidos. Graças à aquisição recente de uma série de robots, o maior hospital de Málaga já consegue ter resultados prontos em uma manhã apenas. Para ajudar a rastrear contactos em todo o país, o governo de Madrid anunciou a semana passada que ia deslocar dois mil militares para essa função.

Falta de condições de alojamento, isolamento e tratamento para imigrantes ilegais

Imigrantes ilegais, que vivem em condições de insalubridade, muitas vezes em grandes grupos, e que por não terem acesso a subsídios de desemprego ou outros apoios, continuaram a trabalhar, mesmo infetados, poderão também ajudar a explicar a multiplicação dos casos de Covid-19.

Sendo que também neste sexto ponto a justificação é tão válida para Espanha como para Portugal, onde vários surtos detetados entre comunidades de migrantes e requerentes de asilo expuseram esta mesma realidade.

Reportagem. Os dias de 14 imigrantes infetados na mesquita de Lisboa

Apesar de tudo e do vertiginoso aumento de casos nas últimas semanas no país, os peritos são unânimes num ponto: médicos, enfermeiros e hospitais estão preparados para a segunda vaga de forma incomensuravelmente melhor.

Há mais: as taxas de letalidade associadas ao vírus caíram para metade, relativamente ao auge da pandemia no país — passaram de 12% em maio para 6,6% —; a idade média dos infetados também baixou, dos 60 para os 37. Os casos assintomáticos também se multiplicaram: mais de metade dos resultados positivos foram entregues a pessoas sem qualquer tipo de sintoma associado à doença.

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