Io Appolloni: “A PIDE deu-me 48 horas para sair do país por desencaminhar um homem casado”

26 Março 20171.151

Io Appolloni foi a vedeta internacional da revista nas décadas de 1960 e 1970. Ganhou um epíteto: a "Mulher Bilheteira". Mas acabaria sem emprego e quase "enlouqueceu". O tiramisù mudou-lhe a vida.

“Estás numa estrada de gravilha, logo a seguir ao entroncamento, certo? Pronto, pronto, agora é sempre em frente, sempre em frente, até encontrares um eucalipto muito alto, muito alto. É o único eucalipto que vais encontrar, meu querido. A entrada diz ‘Appolloni’. Não tem nada que saber…”

Chegar à casa de Io Appoloni na Quinta do Anjo, em Palmela, isolada de tudo e sem GPS que nos encaminhe na rota é tarefa difícil – a rua termina antes sequer de se avistar ao longe a casa da atriz e a porta não tem número mas um CCI com dígitos a perder de conta. Um quarto de hora mais tarde, a custo, depois de voltas e voltas a levantar pó e gravilha, lá se avista o tal eucalipto, a romper por entre uma moradia de muros caiados e altos.

O portão abre-se automaticamente. Ao fundo de uma estreita e longa rampa, Io aguarda-nos num longo vestido azul, de um garrido azul, com o Convento do Carmo estampado. “É maravilhoso, não é? Comprei-o numa loja em Lisboa. Só lá é que há! Na apresentação da minha biografia vou vestir um igual, mas com um estampado do rosto da Amália, tão lindo, tão lindo…”

A sala, ampla, com um pé-direito altíssimo, é rodeada a toda a volta por telas pintadas à mão, alguns retratos de Io Appoloni – um deles é mesmo da autoria de Miró –, fotografias de toda a vida emolduradas, livros e mais livros, discos dispersos em torno da lareira. Lá fora, de frente para a sala, o jardim recorda-nos quase uma villa italiana, talvez como a aldeia de Camino di Verchiano onde Io Appolloni nasceu em 1945 — então com o nome de Giuseppina. “É precisamente por isso que escolhi viver aqui em Palmela: porque esta pacatez me traz à memória a minha infância lá na região de Úmbria.”

Quase foi freira por influência da mãe, profundamente católica, mas Io escolheu ser atriz — chegou a ser trancada em casa quando a mãe Giacomina soube dessa vontade. Na década de sessenta, depois de filmar com Pasolini, em Itália, ou representar ao lado de Joselito e Juan Bardem, em Espanha, mudou-se para Portugal. Apaixonou-se pelo “magnetismo” de Camilo de Oliveira e a relação proibida de ambos – o ator era casado à época e Io tida como a amante – quase levou a PIDE a expulsá-la de Portugal por “desencaminhamento”.

Casou quatro vezes. Confidencia que foi sempre feliz mas também que os companheiros se “portaram mal” com ela. “Nós não denunciamos os homens que nos batem porque temos vergonha. Nós não deixamos os homens que nos batem porque temos medo. Mas o medo perde-se!”

Tudo quanto tem, diz, não foi o teatro que pagou. Depois de estar mais de dois anos sem trabalhar e sem convites quase “enlouqueceu”, mas a intuição levou-a a outra arte que herdou da tia Nunziata: a culinária.

[Canta “Le Mantellate”]
“Mo che parlate a fà
Mo che parlate a fà
Qua dentro ce sta solo infamità”
Não está mal?…

Não está nada mal. À chegada aqui, falávamos de Palmela e de a pacatez desta casa lhe recordar a sua aldeia, na Úmbria. Quais são as primeiras memórias que a Io guarda de Camino di Verchiano?
Olha, tenho uma memória que tenho a impressão que o Carlos [Quintas] não chegou a contar por completo [na biografia “Uma Vida Agridoce” que acabou de chegar às livrarias]. Em criança calhava-me sempre ir pastorear as ovelhas. E houve uma altura em que havia tanta lama, tanta lama, tanta lama, que perdi as socas. Tenho a impressão que este pormenor não vem descrito na biografia, mas é uma coisa que nunca mais esqueci. É engraçado como é que estas coisas não se me varrem da cabeça!? Por isso é que eu digo que esta biografia é a biografia das emoções, são aquelas que te marcam pela vida fora, tanto pelo lado positivo como pelo lado negativo. Claro que quando cheguei a casa e disse à minhã mãe, “Mãe, olhe, perdi as socas!”, ela me respondeu: “Mas onde é que tu as perdeste?!” “Olhe, mãe, havia tanta lama…” É giro relembrar isso. Da mesma maneira que é giro relembrar que quando ia à horta e via uma flor, perguntava-me: “Mas esta flor, meu Deus, que flor é esta? Mas que coisa tão bonita que é! Mas quem é que a pôs aqui?…” Só muitos mais anos depois é que vim a saber que era um lírio do campo e ninguém o plantou.

Foi uma infância certamente feliz, mas não podemos ignorar a época em que foi vivida: o regime fascista caiu em Itália pouco antes da Io nascer [19 de março de 1945], a vida era de pobreza, vivendo-se sobretudo da terra, do pastoreio. Chegou a passar fome?
Não passei fome. Nós passámos muitas privações, é verdade, porque o meu pai nunca quis ser fascista. Portanto, nunca quis a tal “tessera” [cartão], como se dizia lá em Itália, do Partido Nacional Fascista. Nesse aspecto, o do carácter, sou muito como o meu pai, disso não há dúvida nenhuma. Como é que se diz? Antes, antes…

Antes quebrar que torcer.
Isso: antes quebrar que torcer. Quando estou convencida de uma coisa, é assim. Houve um tempo em que o meu pai fabricava sapatos. Era a profissão dele. Mas nunca me lembro de ter passado fome na aldeia. Vivi seis anos na aldeia até me mudar para Roma, mas só me lembro de ser feliz lá.

Era uma casa cheia de gente: pai, mãe, três irmãos…
Tio, tia, os dois primos.

Era a mais nova dos quatro filhos. Protegiam-na muito? É que antes da Io nascer os seus pais tinham perdido uma filha, também ela Giuseppina.
Tinha 17 meses ela. Eu fui a última a nascer. Os outros filhos que nasceram depois da morte dela, por exemplo a Clara, não tiveram esse nome, exatamente porque podia trazer “mal”. Mas como eu nasci no dia de São José — o dia de San Giusepe em Itália –, que era também o nome do meu avô, foi por isso também que me chamaram assim.

Há uma história muito curiosa que conta no livro. Cada vez que a sua mãe engravidava — e engravidou cinco vezes, portanto –, deixava de falar com o seu pai. Porquê?
Porque era mais uma boca a comer naquela casa, era por causa disso. Aliás, a minha mãe até chegava a dizer ao meu pai: “To! To! Chegou-me a menstruação!” Ela dizia isso, toda contente, por não ter ficado novamente grávida. Ficando grávida, era mais um filho para criar e os tempos eram muito, muito difíceis. Mas deixa-me contar-te mais uma história: certa vez estive doente, com uma gripe, e nesse dia tive um privilégio que foi o de comer uma laranja. Uma laranja inteira. Foi a primeira e a última vez que comi uma laranja. Não havia laranjas para comermos naquele tempo. E os meus pais queriam ver se aquela laranja melhorava um bocado a minha saúde. Para veres a dificuldade que havia.

E o que é tem do feitio da sua mãe? Uma mãe que era profundamente católica, por exemplo. Muito conservadora…
Muito, muito. Durante muito tempo não tive uma relação muito próxima com a minha mãe. Só depois de ter o meu primeiro filho é que me apercebi de muitas coisas da personalidade dela em mim. A única coisa com que a minha mãe se preocupava era em dar-me uma boa educação, uma educação religiosa. Ela chegou a pedir dinheiro emprestado para eu ir para a escola de freiras.

Até aos seis anos viveu com a mãe, Giacomina, e o pai, Bernardino, na aldeia de Camino di Verchiano (Créditos: D.R.)

E à época não era tão pouco dinheiro assim: trinta mil liras.
Exactamente. Era preciso esse dinheiro para poder entrar naquela escola em Roma. Ela tinha muito interesse em que eu tivesse uma educação religiosa. Aliás, aos onze anos eu queria ser freira! Freira!… [Risos] Para tu veres o quanto a religião era importante para mim. Uma religião da qual me fui afastando quando descobri a história da Inquisição nos livros. Quando descobri, disse: “Alto lá! Há qualquer coisa que está mal…”

Uma coisa que a Io também não queria ser — e isso terá acontecido por volta dos onze, doze anos — era dona de casa.
Não, nada. O que a minha mãe queria é que eu fosse como a minha irmã, a primeira filha, mais velha do que eu, que foi modista, casou, teve o seu filho, a sua casa, portanto, era a mulher burguesa ou pequena burguesa por excelência. Mas eu nasci outra coisa, completamente outra coisa.

O facto de o seu pai ser músico, acordeonista, e tocar de aldeia em aldeia, despertou em si algum interesse pelas artes?
Sim, sim. O meu bisavô, o meu avô, o meu pai, o meu irmão, todos chegaram a ser concertistas. O meu irmão tocava Mozart, por exemplo. Rossini também. Ouvia o meu irmão tocar e chorava. Era uma coisa absolutamente… [Chora] fabulosa. E devo muito a este meu irmão, sabes? A minha mãe, depois de eu fazer a quarta classe — em Itália era a quinta, aqui era a quarta –, isto já em Roma, mandou-me mais uma vez para uma escola de freiras para aprender bordado. E o meu irmão, que era “carabinieri” [militar] e estava em Bolzano, a norte de Itália, quando soube que eu estava na escola de freiras, foi ele que me tirou de lá e me colocou outra vez na escola oficial. Portanto, devo-lhe isso. E devo-lhe outra coisa: quando saiu a minha primeira fotografia na revista ABC, ele perguntou-me: “Queres ser atriz, é? Então tens que estudar.” E foi ele que me indicou o Centro Experimental de Cinematografia, em Roma. Lá me inscrevi, lá fiz o tal concurso e entrei.

E que concurso foi… Quatro mil candidatos para somente vinte vagas. A Io ficaria em sétimo lugar.
Fiquei, fiquei.

E como é que foram as audições, recorda-se?
Era filmada de uma determinada maneira, de um determinado ângulo, e depois tinha que representar qualquer coisa. E o que é que eu representei? Um poema que ainda hoje está incluído no meu espectáculo “Poemas na Minha Vida”. Para tu veres a importância que a poesia tinha e tem para mim. E depois, claro, fui fotografada para cá, para lá, conversas e tal, e fiquei em sétimo lugar. Esta escola era muito importante porquê? É que tinha um subsídio de trinta mil liras por mês. Tinha o almoço pago também. Portanto, isso significa que a partir dos dezasseis anos não precisaria mais do dinheiro dos meus pais para sobreviver.

Essa foi uma das razões que os convenceu a deixá-la ir para lá. Mas quando a sua mãe soube que tinha entrado, a Io ficou vinte dias trancada em casa, não foi?
Quando ela soube, fechou-me em casa, sim. Para eu não ir à tal escola. Ser atriz não era ter uma boa reputação. Então, resolvi ter uma conversa com o papá e com a mamã. E disse-lhes: “Vocês podem fazer-me isso porque eu ainda sou menor, mas quando chegar aos vinte e um anos volto para lá!” Então eles perceberam que eu não estava a brincar, que tinha as ideias muito claras na minha cabeça. E a partir daí a minha mãe nunca mais me incomodou. Até me chegou a acompanhar nas gravações de um filme.

O facto de ser boa aluna possibilitou-lhe ir ao Festival de Veneza em 1963. Aí conheceria, por exemplo, Pier Paolo Pasolini e participaria num filme dele, o “Comizi d’Amore”.
E não só filmei com o Pasolini, como fui contratada para fazer um filme [“Louca Juventude”] em Espanha com o Joselito, que naquela altura era uma vedeta. Foi o empresário Cesareo Gonzalez — o mesmo da Lola Flores — que me convidou. E foi também em Veneza que o conheci. Veneza para mim foi uma cidade mágica.

"A Cinemateca fez uma retrospectiva do Pier Paolo Pasolini. E vi que o 'Comizi d'Amore' também seria exibido. Então disse: 'Epá, tenho que ir ver...' Quando me vi nem queria acreditar! Não sabia que estava lá, a minha participação era uma coisa tão pequena que o realizador podia ter perfeitamente cortado. No fim, levantei-me e disse: "Desculpem, sou a Io Appolloni e entro no filme, aquela com a touca na cabeça era eu!" E recebi uma grande salva de palmas."

Um filme a que só mais tarde, em Portugal e na Cinemateca, assistiria…
Foi extraordinário. Não tive tempo de ir ver o filme do Pasolini em Itália — aquele filme foi muito importante, porque era um documentário sobre a sexualidade dos italianos — porque entretanto fui para Espanha e nunca mais voltei a trabalhar em Itália. Aqui em Portugal fizeram, muito mais tarde, uma retrospectiva absolutamente fabulosa do Pier Paolo Pasolini e vi que o “Comizi d’Amore” também seria exibido nessa retrospectiva. Então disse: “Epá, tenho que ir ver!” Mas a sessão estava completamente esgotada. Felizmente o director da Cinemateca na altura conseguiu-me dois lugares. Quando me vi nem queria acreditar! Não sabia que estava lá, a minha participação era uma coisa tão pequena que o realizador podia ter perfeitamente cortado. Mas não. No fim, levantei-me e disse: “Desculpem! Sou a Io Appolloni e entro no filme, aquela com a touca na cabeça era eu!” E recebi uma grande salva de palmas da plateia. Foi um dia de grande felicidade para mim.

Mas antes de ter gravado o filme e de se mudar para Espanha, estreou-se no teatro em Itália, no Piccolo dell’Eliseo, numa peça em que contracenou com o Tino Scotti. Curiosamente, essa foi a última vez que se apresentaria com o nome Giuseppina. A mudança para Io partiu de um produtor de cinema, não foi?
Ele era um produtor de cinema muito importante em Itália, o Lino Haggiag. Não me lembro bem como é que o conheci, mas ficámos muito amigos. E ele disse-me assim: “Tens que mudar de nome, não podes ficar Giuseppina!” E então ele lá andou a estudar nomes e, de repente, chegou-se à frente com este e eu respondi-lhe: “Se achas bem, sim senhora”. Um dia vou a Pádua, na altura o meu irmão vivia lá, e fui à igreja de Santo António de Pádua. E o que é que eu vejo lá escrito? “Ioseph”. Assim mesmo, com “I”. Não acreditava, foi espantoso. Afinal era mesmo o meu nome, em latim.

A ida para Espanha dá-se quando tem apenas dezoito anos. Mas tinha à sua disposição, naquele contrato que assinou com o Cesareo Gonzalez, um ordenado mensal de trezentas mil liras, um quarto num hotel de cinco estrelas e motorista privado. Isso não sobe à cabeça de alguém tão novo?
Oh se sobe, meu Deus. Para uma rapariga de dezoito anos, a viver num pais estrangeiro em que tudo é novidade — eu fiquei doida com o flamenco, por exemplo! –, aquilo foi a descoberta de um mundo novo. Estás a perceber? Fiquei muito entusiasmada. E o filme, ao invés de durar vinte dias, durou três meses. Depois do fim das rodagens, andei na escola de canto, andei na escola de flamenco, tudo em Espanha, estreei-me como cantora no Casino de Gibraltar, fiz um filme com o Bardem — que é tio do Javier Bardem –, fiz também umas aparições em televisão, e tinha um agente artístico — que em Portugal não se usava muito, mas em Espanha sim. Também conheci uma jornalista, a Magê, que era correspondente da revista Plateia em Espanha. E ela fez uma reportagem comigo. A partir daí o [produtor] Eduardo Damas entrou em contacto com o meu agente e ele disse-me que tinha uma proposta para eu fazer uma revista em Portugal, em Lisboa. E como eu queria fazer teatro em Madrid, pensei que se calhar não era má ideia aproveitar essa oportunidade, que podia ser um “trampolim” para mim. Cheguei a Portugal e só sabia dizer a palavra “Obrigada”. Pensava que o português e o castelhano fossem parecidos. Afinal, chego cá e não percebo nada de nada! [Risos]

E a recepção no aeroporto, lembra-se?
Estava lá a RTP para me receber, vê tu bem! Quando quarenta e tal anos depois vejo numa reportagem a minha chegada a Lisboa, no aeroporto, onde estavam à minha espera o Camilo [de Oliveira], o Eduardo Damas, a Florbela Queiroz, fiquei parva. Nunca tinha visto.

"Em Madrid, no café Gijón -- que era uma espécie de Brasileira do Chiado, um café de tertúlia entre artistas --, conheci o Miró. Um belo dia estávamos sentados na mesma mesa e ele agarra num papel, desenha-me e depois dá-me o retrato. E guardei-o até hoje. No outro dia emoldurei-o."

Antes da falarmos sobre a peça “Sopa no Mel” e esse primeiro trabalho em revista cá, há uma coisa que não quero deixar escapar sobre a estadia em Espanha: sei que tem um retrato seu pintado por Miró, não é?
Está aqui! [Volta-se para trás e aponta para uma moldura] Quando fiz o filme com o Bardem, o Salvador Dali todos os dias aparecia lá no café que eu frequentava e um dia disse-me assim: “Usted tiene uns ojos muy bonitos!” Nunca mais me esqueci disso. Em Madrid, no café Gijón — que era uma espécie de Brasileira do Chiado, um café de tertúlia entre artistas –, conheci o Miró. Um belo dia estávamos sentados na mesma mesa e ele agarra num papel, desenha-me e depois dá-me o retrato. E guardei-o até hoje. No outro dia emoldurei-o.

O retrato que Joan Miró fez de Io Appolloni no café Gijón em 1964 (Créditos: D.R.)

Bem, falando da primeira revista que a Io fez, “Sopa no Mel”. O Camilo de Oliveira era a dita “primeira figura”, enquanto a Io era a “atração internacional”. Pode dizer-se que foi amor à primeira vista entre os dois?
O Camilo era um homem muito mulherengo, sabes?

E era casado.
Sim, era casado. Mas era um homem com um magnetismo… [Pausa] Isso é uma coisa que ou se tem ou não se tem. É como uma mulher que tem sex appeal: ou tem ou não — não é algo que se constrói. E um belo dia, talvez por brincadeira, talvez por sei lá o quê, acabámos os dois na cama. Ainda durante essa revista. E “rebentou” entre nós uma paixão de caixão à cova, pronto. Porquê? Porque foi a descoberta sexual na minha vida. Até parece feio falar-se disto, mas já tenho idade para o fazer e vou contar-te. Há muitas mulheres casadas que nunca souberam e continuam sem saber o que é um orgasmo. Na minha ignorância — porque também não havia educação sexual naquela altura, a minha mãe nunca me falou de nada relacionado com sexo — ter descoberto que o orgasmo se pode ter todas as vezes é uma descoberta absolutamente fabulosa. Com aquela idade, como sabes, as hormonas andam para aí a pular que não é brincadeira nenhuma! Há um livro de que gosto muito, do Francesco Alberoni, que diz que nós podemos evitar a paixão, mas quando já estamos apaixonados não depende de nós livrarmo-nos disso. Estás a perceber o que quero dizer? Aquilo foi grande, muito grande. E o que é que aconteceu depois? O Camilo, apesar de estar casado há doze anos, saiu de casa, a mulher só lhe deixou cinco contos no banco, e ele foi viver para um quarto. Estas são coisas que nunca mais se podem esquecer na vida, meu querido. É uma prova de amor muito grande.

Estreou-se em 1965 na revista em Portugal ao lado de Camilo de Oliveira com a peça "Sopa no Mel" (D.R.)

À época o Camilo não estava mais com a mulher, estava com a Io, mas certo dia a mulher dele apresentou queixa contra si na PIDE e a Io recebeu um ultimato: tinha que deixar o país.
Tive quarenta e oito horas para sair do país! Por desencaminhar um homem casado, vê tu bem. A mulher dele sabia que ele era mulherengo, mas também sabia que eu era um grande “perigo”. Portanto, sabia que comigo a conversa era completamente diferente, era séria. Essa coisa de ter saído de casa, que era a primeira vez que tinha acontecido num casamento que durava há doze anos, foi uma coisa séria.

Foi graças ao Aníbal Nazaré, o autor de “Sopa no Mel”, que acabou por não deixar o país, não foi?
O Aníbal felizmente era amigo do Silva Pais [director da PIDE]. Aquilo na altura não era brincadeira nenhuma e se não tivesse sido o Aníbal tinha mesmo abandonado Portugal. Todas as pessoas que nasceram depois do 25 de Abril não têm a verdadeira noção do que é a liberdade. Eu que vivi sem ela, e aqui em Portugal sentia-se e de que maneira a ditadura, quando chega o 25 de Abril quase rebentei por dentro de felicidade.

"Nessa altura não quis ter o filho porque, antes de mais, seria um filho de pai incógnito -- o Camilo era casado. Não queria passar por essa vergonha. Nem eu, nem os meus pais. Foi a primeira vez que fiquei grávida na minha vida e resolvi abortar. Foi um aborto clandestino. Acabei no hospital um mês e três dias."

Uma coisa que era impensável sequer falar-se antes do 25 de Abril era a interrupção voluntária da gravidez. Mas a Io engravidaria do Camilo nessa primeira fase do vosso relacionamento e escolheria não ter o filho.
Na altura não quis ter o filho porque, antes de mais, seria um filho de pai incógnito. Porque o Camilo era casado. Não queria passar por essa vergonha. Nem eu, nem os meus pais. Foi a primeira vez que fiquei grávida na minha vida e resolvi abortar. Mas a coisa correu muito mal. Foi um aborto clandestino, acabei no hospital um mês e três dias.

Mas não deixaram de ser ver no hospital…
Ai sabes dessa história, é? Eu fico parva, pá: vocês jornalistas não têm vergonha nenhuma na cara! [Risos] Mas é verdade, pá! O Camilo ia-me visitar e certa vez, era quase meia noite, estávamos num quarto privado do hospital de Santa Maria, e olha, pronto: fizemos amor.

Voltando ao teatro. A terceira revista que faz é com aquele que foi provavelmente o maior produtor teatral da época, o Vasco Morgado: “Esta Lisboa que eu Amo”, em 1966. E novamente com o Camilo como “primeira figura”. Mas essa revista, apesar de ser um sucesso — o Monumental esgotava todas as noites, segundo sei –, durou muito pouco tempo. Porquê?
[Risos] Dois meses e meio. Naquela altura eu ainda não dominava muito bem o português, não sabia muito bem as tramóias que andavam por aí. Passavam-se muitas coisas nos bastidores que ainda não percebia. O elenco era o Camilo, a Maria Dulce, a Aida Baptista, a António Calvário, a Simone [de Oliveira], o Nicolau Breyner, eu, enfim, um elenco que… minha Nossa Senhora! Era uma revista fabulosa, meu Deus. Mais uma vez eu era a estrangeira que vinha visitar Lisboa. E houve tricas entre as vedetas e não-sei-quê… e andou tudo à porrada! [Risos] Ao fim de dois meses e meio acabou a revista.

No ano seguinte vai estrear uma peça no Capitólio — uma peça “importada” da Broadway — onde é pela primeira vez a “vedeta”. “Como Vencer na Vida sem Fazer Força”, chamava-se assim.
Fiquei sempre eternamente grata ao Vasco [Morgado] por acreditar em mim. A peça tinha estado no Brasil, também, e quem fazia lá o papel era a Marília Pêra. Portanto, a responsabilidade era muito grande para mim. Mas até que enfim, para além de ser a mulher bonitinha, também era actriz e fazia uma composição, um papel em que não era só o corpo a mandar. Também havia representação. E fazia muito bem, fica sabendo. Fiquei muito, muito contente com esse papel. Foi a primeira vez que em Portugal fui realmente actriz. Mas onde fiquei verdadeiramente contente foi no “Vison Voador”.

Porquê?
Porque, até que enfim, não trabalhava mais com o Camilo. Antes as pessoas diziam: “Pois, pois, ela só está aqui porque está com o Camilo! Está-se mesmo a ver…” No “Vison Voador” fui escolhida por ser a Io e não por ser mulher do Camilo. Hoje em dia, quarenta e tal anos depois, as pessoas ainda se lembram dessa peça.

Mas está aqui a saltar uma coisa que eu não quero saltar. É que antes do “Vison Voador” vai para Espanha. A Io chamou-lhe uma “fuga”. O Camilo chegou a tentar impedi-la de ir, na estação de Santa Apolónia, quando estava prestes a embarcar no comboio, não foi?
Eu preparei tudo às escondidas. E foi uma “fuga”, porque eu não tinha coragem de dizer ao Camilo que ia trabalhar para Espanha…

Mas estava no auge em Portugal. Porque é que resolveu ir-se embora?
Porque achava que para a minha carreira era importante sair. Não vim para Portugal à procura de marido, é importante entender isso. Vim para trabalhar. E achava que não deveria perder a oportunidade de fazer a revista [“La Rompelatos”] em Madrid. Se eu dissesse ao Camilo que ia trabalhar em Madrid ele era bem capaz de não me deixar ir. Não te esqueças que o machismo naquela altura não era brincadeira nenhuma. Só que houve alguém que lhe contou e ele ainda me conseguiu apanhar na estação. Mas percebeu, felizmente percebeu. E a gente telefonava-se quase todos os dias. Ele foi lá ver a estreia. A ligação com Portugal mantinha-se.

O seu primeiro filho, e filho do Camilo de Oliveira, nasceu em Portugal mas, segundo a Io conta, foi “feito” num dia muito específico e num lugar muito específico.
[Risos] Foi no Hotel Madrid, a 27 de maio de 1968 — o meu filho Cami foi o meu “Maio de 68”. [Risos] Ele [Camilo] esteve lá três dias e esse foi o único em que tivemos relações sexuais. É engraçado eu saber quando é que o Cami foi “feito”, mas é verdade.

O nascimento do Cami não foi fácil: a Io acabaria por contrair broncopneumonia após o parto, depois uma anemia. O que é que correu mal?
Sei que entrei no hospital de Santa Maria já com bronquite. Eu tinha feito a preparação do parto psicoprofilático e estava preparada para ter um parto bonito, sem dores. Só que a coisa correu mal, o Cami não deu a volta, tive que fazer cesariana, e como já estava com bronquite, a bronquite depois do parto virou uma broncopneumonia dupla. Mais tarde descobri que tinha anemia em último grau. Os meus colegas do Maria Vitória, e isto é algo de que nunca me esquecerei na vida, deram-me dois litros e meio de sangue. Eu podia ter morrido. Só não morri porque tinha vinte e quatro anos. São as tais coisas da vida.

Vamos falar outra vez do “Vison Voador”. O convite foi do Raul Solnado?
Não tenho a certeza. Acho que foi o Vasco [Morgado]. Porque naquela altura o Vasco também era o empresário do Teatro Villaret. Mas evidentemente que foi tudo com a aprovação do Raul. Dei-me sempre muito bem com o Raul.

O que é interessante é que esse espectáculo — estávamos em 1969 quando estreou no Villaret — foi um sucesso de bilheteira, mas a Io, que se queria “desligar” do Camilo em palco, deixa o “Vison Voador” a meio para voltar a trabalhar… com o Camilo, no “Alto Lá com Elas”. Porquê?
Eu naquela altura era famosíssima, sabes?

Era a “Mulher Bilheteira”, não é?
Exactamente. Não sei quem é que me deu a alcunha, só sei que quando entrava em cena era um burburinho na plateia. Sabias que em Madrid esta peça [“Vison Voador”] só esteve vinte dias em cena? E nós estivemos até 1971. Fizemos mais de mil representações!

Mas voltando à minha pergunta: porque é que deixou tão precocemente o “Vison Voador” para voltar a trabalhar com o Camilo?
Porque fui convidada para fazer a revista, que tinha o Camilo, mas também a Ivone Silva, o Tony de Matos e eu. Foi um sucesso inacreditável aquela revista. Fazemos a revista em Lisboa, vamos em tournée ao Porto e o Raul diz-me: “Agora, se fizeres o favor, voltas ao ‘Vison’…” E volto. Então no Porto. E seguiu-se uma tournée por África: Angola, Moçambique. E o Vasco Morgado faz-me uma surpresa que nunca esquecerei e leva o meu filho, então com dezassete meses, a visitar-me a Angola.

Foi uma mãe tão presente como queria? A verdade é que o primeiro filho nasceu numa altura em que a Io tinha muito trabalho.
Era complicado estar presente. Lembro-me que tinha uma empregada fixa, ou “interna” como se dizia naquela altura. Hoje em dia reconheço que a minha noção de maternidade não foi a mesma de quando tive o último filho. O último, o Bruno, tive-o aos trinta e oito anos. Aos vinte e quatro anos a maternidade era um deslumbramento. “Meus Deus, consegui ter um filho, consegui fazer um filho!” Mas não tinha, de facto, muito tempo para passar com ele.

Mas era uma mãe — apesar do pouco tempo — educadora, certo? Há aqui uma história no livro que fala do “enxerto de porrada” que deu ao Cami quando soube que ele faltava às aulas.
Tu não me digas que vem aí essa história?! A história da porrada…

Vem, vem.
No que respeita à educação dos meus filhos nunca fui rígida, mas não admitia mentiras: têm que ter noção da responsabilidade e fazer pela vida. Pouca coisa, estás a ver? E quando a professora me disse que ele andava a faltar às aulas… bem, passei-me por completo. E ele nunca mais se esqueceu desse dia.

Em 1970, no teatro Villaret, integrou o elenco da peça "Vison Voador" ao lado Artur Semedo, Maria Paula ou Raul Solnado (Créditos: D.R.)

Estávamos a falar há pouco do “Vison Voador” e da ida a África em tourneé. O espectáculo teve sempre casa cheia. Mas não é disso que a Io mais se recorda, mas do “constrangedor estado físico e psicológico” dos soldados com quem contactou na altura. Porquê?
A certa altura nós fizemos uma visita a um hospital e vi um rapaz, muito novinho, com as pernas cortadas, por exemplo. Naquele hospital é que me dei conta do que foi a Guerra Colonial. Nós actores não sentíamos a guerra, éramos levados de um lado para o outro, fazíamos espectáculos para os soldados, mas era tudo muito cuidado para não termos contacto com realidade da guerra. Foi no hospital que dei conta que o que se estava a passar em África não era brincadeira nenhuma, pá. Ao ver aquela rapaziada nova naquele estado… quer dizer, é duro.

Quando volta dessa tournée corta de vez a relação que mantinha com o Camilo. Isto depois de o encontrar com outra mulher num camarim do Monumental…
Não acredito que isso venha no livro!

Mas vem. E vem a história do machado com que arrombou ou quis arrombar a porta…
Não te vou contar essa história, desculpa.

"Vou ao camarim e o camarim está trancado. Agarrei num machado para deitar a porta abaixo. Antes de derrubar a porta, baixei-me, espreitei e em lugar de ver duas pernas, vi quatro. Eu tinha o machado na mão quando a porta se abriu. E encontrei o Camilo, o pai do meu filho, com outra mulher."

Quer passar à frente, é?
Sabes: uma das coisas com que tive muito cuidado nessa biografia foi em não colocar os nomes dos homens que amei. Porque eu estive apaixonada por eles todos. Pelo primeiro, pelo segundo, pelo terceiro e pelo quarto. Foram sempre grandes paixões, grandes amores. Mas eles portaram-se muito mal comigo. Quase todos. E este primeiro… Tu queres que eu conte, não é? [Pausa] Então vou-te contar. Pronto, vou lá ao camarim e o camarim está fechado à chave. Na altura estava grávida de oito meses. E agarrei num machado para deitar a porta abaixo. [Risos] Hoje dá-me vontade de rir ao contar-te isto, mas na altura não teve graça nenhuma, pá. Antes de derrubar a porta, baixei-me, espreitei e em lugar de ver duas pernas, vi quatro. Eu tinha o machado na mão quando a porta se abriu. E encontrei o pai do meu filho com outra mulher.

Há pouco falávamos sobre a censura. E a verdade é que anos mais tarde, em 1972, fez um filme chamado “Sofia e a Educação Sexual”. Esse filme foi proibido. Foi o primeiro quid pro quo que teve com a censura?
Foi, foi. O problema foi o tema. Era um filme “dissolvente” — acho que foi a palavra que os censores usaram para o descrever. E não deixaram estrear. Só estrearia depois do 25 de Abril. E é o filme que eu mais gostei de fazer.

Antes já se tinha estreado em cinema, ao lado do Tony de Matos.
Sim, tinha feito o “Derrapagem”. E em Itália tinha feito mais dois filmes, que não se acabaram por falta de dinheiro e não-sei-quê.

Faz em 1973 no Teatro Variedades “A Cama dos Comuns”. Em 1974, “Dois no Guarda-Vestidos”. Todos os espectáculos em que entrava, ou quase todos, tinham uma carga sexual à sua volta: a Io era uma espécie de femme fatale. Isso aborrecia-a?
Por exemplo, no caso concreto de “A Casa dos Comuns”, o elenco era: Ruy de Carvalho, Canto e Castro, Simone de Oliveira, Manuela Maria, Fernanda Borsatti e eu. Era um elenco que… aguenta-te aí! E o meu papel, mais uma vez, era o da mulher sensual. Mas fazia-o muito bem. E a peça era um sucesso. Mas o encenador escolheu um bocado o papel segundo o cliché que estava estabelecido na altura.

Mas é precisamente isso que pergunto: cansava-a esse cliché?
Oh se me cansava! Porque como actriz bem podes imaginar que eu queria fazer outras coisas. Quanto à outra peça de que falaste, “Dois no Guarda-Vestidos”, aceitei fazê-la com o Badaró porque precisava de trabalhar. Mas foi um espectáculo que detestei. Mas que fazia primorosamente bem, porque sou actriz e sou profissional, entendes? E depois dá-se o 25 de Abril…

Quando se dá o 25 de Abril, a Io estava em tourneé precisamente com o “Dois num Guarda-Vestidos”. Estava em Elvas, não é?
Hmmm… lembro-me que no dia 25 de Abril, eram onze da manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço e estava a ler o “Portugal e o Futuro” do [António de] Spínola. O Pedro Pinheiro entra-me pelo quarto dentro e diz: “Io, Io, aconteceu uma revolução em Lisboa!” Então, eu, o Pedro Pinheiro, a Guida Maria — a Guida queria vir logo para Lisboa! –, o Carlos Coelho, aquilo foi uma coisa empolgante para nós: corríamos para os cafés, para ouvir o telejornal e saber o que é que se passava. Nessa noite fizemos um espectáculo, em Vila Viçosa, e que foi como se não tivesse acontecido nada. Portanto, o público ainda estava desconfiado, estás a perceber? Quase que não acreditavam no que se estava a passar. Mas depois, é a tal coisa, no 1º de Maio viemos para Lisboa e foi uma euforia. E há um pormenor de que nunca mais me esqueço: o meu companheiro a abraçar-se a mim e a chorar por causa do 25 de Abril. Ele era de esquerda e chegou a ter visitas da PIDE lá em casa quando estive em tourneé.

A Io sempre se assumiu como sendo de esquerda. E tal como o seu companheiro de então, Eduardo Geada, também foi do Partido Comunista.
Sim, sim. Entrei no partido pelas mãos do Rogério Paulo. Mas o meu companheiro acabaria por sair do partido antes de mim, porque entrou para o Movimento de Esquerda Socialista. E eu continuei no PCP durante muitos, muitos anos. E a minha madrinha de casamento era a Maria Alda Nogueira, que eu considerava a minha mãe portuguesa. Portanto, só sai do partido depois de ela morrer, porque não queria dar-lhe esse desgosto de maneira nenhuma.

Quando o seu companheiro se muda para a Guarda, a Io teve um papel político mais activo: participou nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA. O que é que fazia exactamente?
Portanto, naquele período o que é que nós queríamos fazer? Queríamos incentivar — falo do meu caso particular — as pessoas a fazer teatro, nomeadamente na Guarda, em Manteigas. Depois tinha contacto com os soldados no quartel da Guarda, também. A certa altura proibiram-me de entrar no quartel, porque diziam que andava a “sublevar” os soldados. O que não era verdade! Mas apanhei-me com a fama e nunca mais me livrei dela. Nós vivíamos nessa ilusão maravilhosa de estar a construir um país novo. E nós que tínhamos consciência política, que queríamos ser úteis, é natural que andássemos nessas campanhas.

O pós-25 de Abril é também uma altura em que a Io procura deixar o trabalho no teatro dito ligeiro, mais comercial… mas as companhias de teatro experimentais não a aceitam.
Sempre fui conotada como sex symbol, mulher escultural e não sei que mais, o meu lado de actriz estava sempre posto de lado. Talvez por isso, não me aceitaram. Não sei. Mas sei que durante os quinze anos seguintes fiz espectáculos sobre a temática da mulher, espectáculos que ajudaram as mulheres — que não são parvas nenhumas! — a aprender o que é a libertação sexual, a ser independentes, o que é trabalhar, o que é ter direitos. E esse período foi muito importante para mim. Fui adquirir, eu própria, mais auto-confiança, mais auto-estima. Estás a perceber? Vivo sozinha há vinte e dois anos e não sei o que é a solidão. Porque sinto-me muito bem comigo própria. E sinto-me bem porque resolvi muitas questões que tinha por resolver. Sabes: depois de o meu último companheiro me deixar, quando eu tinha já cinquenta anos, em lugar de cair no fosso, ou de suicidar-me, como fez a Cândida Branca Flor, andei numa psicoterapeuta e conquistei-me, conquistei-me mesmo. Concluí que toda a minha vida pensei na carreira, nos filhos, na casa, nos maridos… E eu? Eu ficava sempre em último lugar. Estás a perceber? E afinal não tem que ser assim: posso cumprir as “obrigações” todas, mas tenho que me amar. E isto não tem nada a ver com egoísmo; o que tem a ver é com amor próprio.

A Io sente-se um exemplo para as mulheres — precisamente por causa do discurso de emancipação feminina que tem. Mas houve um período durante o qual foi vítima de violência doméstica…
Tu leste a merda do livro todo, porra! [Suspira]

"Nós não denunciamos os homens que nos batem porque temos vergonha. Nós não deixamos os homens que nos batem porque temos medo da vida. Quantas e quantas mulheres não deixam os homens por causa dos filhos? Ou porque não têm para onde ir se saírem de casa? Mas tem que se adquirir coragem e amar a vida. E tentar perder o medo. Porque o medo perde-se!"

Na altura teve “vergonha” — o termo é seu — de denunciar o caso. Porquê?
Ouve: isto é um discurso muito importante e que quero que seja útil. A minha experiência pessoal, quero que seja útil. Nós não denunciamos os homens que nos batem porque temos vergonha. Nós não deixamos os homens que nos batem porque temos medo da vida. Ouviste? Portanto, nós, mulheres, temos que aprender a ser corajosas. A enfrentar a vida. Porque a vida só é vivida uma vez e estamos aqui para ser felizes. E só não somos felizes porque somos ignorantes, ignorantes no sentido de não saber viver. Hoje em dia, tanto em Portugal como em Itália, há muitas instituições que ajudam as mulheres a libertar-se destas situações… dolorosas. Quantas e quantas destas mulheres não deixam os homens por causa dos filhos? Ou porque não têm para onde ir se saírem de casa? Mas tem que se adquirir coragem e amar a vida. E tentar perder o medo. Porque o medo perde-se! É só trabalhar sobre ele.

O teatro serviu também para a Io se aproximar dessas mulheres para quem agora fala. Há um espectáculo em particular, o “Guilherme e Marinela”, que era uma crítica social ao comportamento dos homens — e estávamos no pós-25 de Abril — perante as mulheres, homens que as tomam como um objecto. Mas a Io chegou a ter que depor na PJ porque alguém apresentou queixa desse espectáculo. Foi acusada de “ofensa à integridade das mulheres”. Porquê?
Era precisamente o oposto, pá. Ao que sei quem me denunciou foi um homem, um médico. Ele considerava aquele espectáculo uma ofensa às mulheres. Estás a ver a fotografia que vem na capa do livro? A certa altura eu estava de joelhos em palco, nua, tal e qual como na fotografia, e o outro actor, o Pedro Pinheiro, com um garfo e uma faca grandes, ao som daquela música da tourada, ta ta ra tan tararan ta ta tararan, cortava-me pedaços — quase como se fosse uma vaca: costela, acém… — e comia-me. Isso acontecia e ainda hoje acontece. “Epá, vou comer aquela gaja e tal!” E os homens não perceberam isso. Ou não quiseram perceber. Aliás, vou-te dizer: a peça foi gravada pela RTP na altura e não foi para o ar, não porque eu estava nua — porque não se via nada, estava em contra-luz –, mas por ser uma peça anti-machista por excelência. E havia muitos senhores da RTP que tinham as suas amantes, não é? Isso não convinha ir para o ar. Estás a perceber?

Essa peça não conveio. Uma que conveio foi escrita pela Maria Teresa Horta, com canções do Ary dos Santos e do Fernando Tordo: “Viver Mulher”. Estreou no Teatro da Comuna.
Foi maravilhosa. Fabulosa! No final do espectáculo havia uma conversa com os espectadores, um colóquio. Com o “Viver Mulher” — o título é o de uma canção do Ary e do Tordo — eu fiz mais de duzentos espectáculos pelo país fora. E gravei também para a televisão. Esta foi emitida. [Risos] E deu-me imenso prazer.

Magoou-a de alguma forma que nos anos seguintes tenha tido cada vez menos trabalho em teatro? Sentiu-se esquecida pelo público? Ou pelos seus pares…
Não me senti nada esquecida! Vou-te dizer o que é que se passou: depois de fazer o “Socorro Sou uma Mulher de Sucesso” em 1987, que foi uma comédia musical fabulosa, estive dois anos desempregada. Sabes porquê? As verdades têm que ser ditas: porque naquela altura o secretário de Estado da Cultura, o Santana Lopes, passou-lhe pela cabeça retirar o apoio às “produções pontuais”. Isso foi o mesmo que cortar-me as pernas. Se nos atribuíam mil contos de subsídio, era o suficiente para poder trabalhar. Ou começar a trabalhar. Não pedia mais. Entendes? Sem esse subsídio, como é que a gente fazia? Não fazia. Portanto, estive dois anos sem trabalhar. Um artista que se considera como tal estar dois anos sem trabalhar é quase de enlouquecer. E não me faltava comida em casa, porque estava casada e muito bem casada. O problema não estava aí. Foi nessa altura que o meu Anjo da Guarda — ou a minha intuição, que é a mesma coisa — me disse: “Sempre fui boa cozinheira, vou dar a conhecer o meu tiramisù!” Eu fazia as compras, eu fazia o tiramisù, eu procurava os clientes e eu entregava as encomendas. Parti absolutamente do zero. Um cliente, dois, três. Depois felizmente o Casino Estoril, em 1993, abre-me as portas para ser a fornecedora deles — e fui-o durante vinte anos. Tudo o que tenho hoje, esta casa, absolutamente tudo, devo-o ao tiramisù. Não foi ao teatro, porque no teatro não se ganha dinheiro a sério. Só fechei a empresa quando descobri que andavam a falsificar o meu tiramisù. Aquilo foi uma facada muito grande que me deram. E disse: “Não quero aturar mais filhos-da-puta!” E nunca mais, já lá vão quatro ou cinco anos, fiz doces na minha vida. Mas o teatro continuava a fazer-me falta, sabes?

Mas voltaria ao teatro. Eu vi-a no Festival de Teatro de Almada, em 2011, num espetáculo sobre a commedia dell’arte em que a Io partilhou o palco. E logo com quem…
E com quem! Foi uma honra para mim, uma honra tão grande. O convite foi do Joaquim Benite. Eu conhecia o Joaquim desde que ele era jornalista. O Festival de Teatro de Almada é, hoje em dia, o terceiro mais importante da Europa, só atrás de Avignon e Edimburgo. Mas pronto, nesse ano foi lá o Ferruccio Soleri, o arlequim mais famoso do mundo, “Leão de Ouro” em Veneza, e eu dividi o palco com ele. Meu Deus! Foi uma honra. E aprendi muito com ele, muito, muito. Quem estava na plateia em Almada a assistir era o Mario Mattia Giorgetti, que a partir daí me convidou para fazer uma peça em Itália.

Em 2011, ao lado de Ferruccio Soleri no Festival de Almada com a peça "Ritratti di Commedia dell'Arte" (Créditos: D.R.)

Quase cinquenta anos depois voltaria a representar em Itália…
Quarenta e nove! Olha: foi um prazer tão grande voltar a representar [na peça “Esta Noite, Arsénico”] em Itália e em italiano, que senti-me mesmo com o papinho cheio. [Risos]

Última pergunta: foi uma vedeta do teatro em Portugal, fez o que queria, como queria, continua com um espectáculo de poesia, “Canções na Minha vida”… O que é que ainda gostaria de fazer?
Esse espectáculo. Vou fazer esse espectáculo até morrer, meu querido! E até o vou gravar para televisão em breve. A poesia é um alimento para o espírito, para o meu espírito, extraordinário. Só há uma coisa que lamento na vida: é morrer sem poder ler todos os livros que queria.

Texto de Tiago Palma, grafismo de Maria Gralheiro, vídeo de Hugo Amaral e Michael Matias, edição vídeo de André Marques.
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