Depois de "The Handmaid's Tale", Margaret Atwood voltou para avisar: o perigo ainda não passou /premium

Trinta e quatro anos depois, a muito aguardada sequela. "The Testaments" não é "The Handmaid's Tale", mas está perto o suficiente para deixar um aviso e a possibilidade de um final mais feliz.

Desde que saiu o último livro de Harry Potter que não se via uma coisa assim. A multidão em frente à livraria Waterstones de Piccadilly, em Londres, enchia a rua. O evento de lançamento do novo romance de Margaret Atwood, a aguardada sequela de The Handmaid’s Tale, na noite de 9 de setembro, estava há muito esgotado. Não era de admirar — a expectativa era muita, sobretudo porque tinha sido anunciado que a própria Margaret Atwood estaria presente e que leria excertos de The Testaments, o livro que, ainda sem ser publicado, já se encontrava entre os favoritos a vencer o prestigiado Booker Prize em 2019. Um prémio que parece já tão certo que uma livraria britânica o expôs como sendo o vencedor. “Isso não será decidido até os jurados se reunirem a 14 de outubro”, teve o painel de clarificar. Só na primeira semana, foram vendidos mais de 103 mil exemplares, número suficiente para a editora Vintage garantir que a edição em capa dura (a única por enquanto disponível) é a mais vendida em 2019 no Reino Unido. O livro da autora canadiana ocupa atualmente no número 1 do top de vendas britânico, para onde entrou diretamente.

Esta “loucura” em torno do novo romance de Margaret Atwood (que só deverá ser publicado em Portugal em 2020) deve-se em parte à famosa e galardoada série da Hulu, que se estreou em 2017. Uma nova temporada — a quarta — foi anunciada em julho, a menos de dois meses da publicação de The Testaments, a sequela de uma história sobre um regime totalitarista e teocrata, estabelecido nos Estados Unidos da América depois de um golpe de Estado levado a cabo por fanáticos religiosos que acreditam que as mulheres se estavam a afastar da sua verdadeira função — a maternidade — em prol de uma carreira e de relações pecaminosas com mais do que um homem. Na sua opinião, esta é a principal causa da taxa de natalidade cada vez menor, uma das justificações para o ataque ao governo democrático dos Estados Unidos e à criação de uma sociedade onde os indivíduos estão distribuídos por diferentes grupos e se vestem de acordo com a função que desempenham.

Margaret Atwood leu excertos de "The Testaments" no lançamento na livraria Waterstones, em Londres. A plateia estava cheia

Na República de Gilead, as mulheres podem ser Handmaids, Marthas, Wifes, Econowifes ou Aunts — ou seja, concubinas, empregadas domésticas, esposas de homens importantes ou simples trabalhadores ou religiosas. Nada mais, nada menos. As primeiras, com os seus vestidos vermelho-sangue, desempenham um papel fundamental no novo regime segregacionista — o de engravidarem quando outras mulheres não o conseguem. A justificação está na Bíblia, na história de Jacob e de Raquel que, como não podia ter filhos, sugeriu ao marido que engravidasse a sua criada. Não tem quaisquer direitos, apenas uma função. Para a desempenhar, as Handmaids são enviadas para a casa de Wifes, mulheres casadas com homens importantes, que não conseguem ter filhos e violadas todos os meses pelos seus maridos, os Commanders.

Depois de darem à luz, os bebés são-lhes imediatamente retirados porque, de acordo com as leis de Gilead, não lhes pertencem. Cumprida a sua função — e caso tenham sobrevivido, o que nem sempre acontece porque não existe qualquer tipo de acompanhamento médico –, são enviadas para um novo lar e para um novo ciclo de violações. The Handmaid’s Tale, como o próprio nome indica, segue a história de uma dessas mulheres, Offred (nome formado a partir do nome do seu Commander, porque as Handmaids não têm direito a usar o seu nome próprio), arrancada da sua vida anterior depois da queda do governo norte-americano e obrigada a tornar-se numa espécie de “concubina parideira”, como lhe chamou a escritora Jia Tolentino.

A utilização política do imaginário da escritora canadiana terá começado antes da estreia da produção da Hulu, quando um grupo de mulheres compareceu numa manifestação contra a proibição do aborto no Texas vestidas como Offred.

O sucesso da série não chega para explicar o sucesso desta história brutal, mais de 30 anos depois da sua publicação. É preciso olhar mais fundo, para a situação social e política que se vive, não só nos Estados Unidos, mas também na Europa. Numa altura em que o populismo e o extremismo são uma ameaça cada vez mais real, o romance distópico de Margaret Atwood e, em especial, a figura da Handmaid, tem-se vindo a transformar num símbolo de resistência. Segundo a revista The New Yorker, a utilização política do imaginário da escritora canadiana terá começado antes da estreia da produção da Hulu, na primavera de 2017, quando um grupo de mulheres compareceu numa manifestação contra a campanha para a proibição do aborto no Texas vestidas como Offred. Desde então, surgiram Handmaids em protestos em países tão distintos como Inglaterra, Irlanda, Argentina e Croácia, e também à porta da Waterstones, em Londres.

Passaram 34 anos. Porque é que Margaret Atwood esperou tanto tempo?

Margaret Atwood nasceu em 1939. É uma “criança da guerra”, como ela própria admite, e foi durante a guerra que ganhou consciência, ainda muito nova, que “as ordens estabelecidas podiam desaparecer do dia para a noite. A mudança também podia ser tão rápida quanto um trovão”. Foi isso que teve em mente quando criou o mundo de The Handmaid’s Tale, sem nunca imaginar que a história “arriscada” estaria um dia muito próxima da realidade. “As possibilidades tornaram-se verdades”, escreveu no capítulo de agradecimentos de The Testaments. “Os cidadãos de muitos países, incluindo os Estados Unidos, estão sob um stress muito maior do que estavam há três décadas.”

[Trailer da primeira temporada de “The Handmaid’s Tale”:]

Atwood pensou em escrever uma sequela de The Handmaid’s Tale logo nos anos 90, mas rapidamente afastou a ideia por considerar que “nos estávamos a afastar” dos eventos que tinha narrado em 1985. A possibilidade de os Estados Unidos se virem a transformar numa ditadura teocrática, a premissa principal do livro, parecia demasiado distante. Como lembrou a escritora Julie Myerson num artigo publicado no The Guardian: “A recém nascida República de Gilead, com os seus abusos e abominações, o seu vocabulário horrivelmente misógino e racionalmente constrito, ficava suficientemente longe do nosso mundo para parecer distante, mas suficientemente perto para ser uma chamada de atenção”. Para quê dar-se “ao trabalho” de regressar a Gilead, pensava Atwood. Não havia necessidade disso.

O tempo mostrou-a errada. Desde 1985, a ideia de uma sequela voltou-lhe à cabeça em diferentes alturas e momentos-chave — depois do 11 de Setembro, quando nos tornámos “muito mais medrosos”, depois da crise económica de 2008 e finalmente em 2016, durante a campanha eleitoral que colocou Donald Trump na Casa Branca. Não que Donald Trump tenha sido uma inspiração para alguma das personagens de The Testaments. O presidente não é, na opinião de Atwood, “um líder de Gilead” (“existem algumas pessoas na cena política norte-americana que seriam mais parecidos com essas figuras, mas ele não é desse género”, admitiu), mas os tempos que vivemos são. “Chegou a altura de me preocupar. Não podemos ignorar o facto de que existe um número de regimes que chegaram ao poder que têm este tipo de ideias. O que todos têm em comum é o facto de quererem retirar direitos às mulheres”, disse em entrevista à PBS, acrescentando que alguns estados norte-americanos estão cada vez mais próximos da teocracia que é Gilead.

Atwood pensou em escrever uma sequela de "The Handmaid’s Tale" logo nos anos 90, mas rapidamente afastou a ideia por considerar que “nos estávamos a afastar” dos eventos que tinha narrado em 1985.

Recentemente, foram vários os estados que aprovaram leis (que ainda não estão em vigor) a restringir ou a proibir o aborto. No Alabama, a intenção é proibi-lo sob qualquer circunstância, incluindo nos casos de violação; além deste estado, existem pelo menos outros seis que pretendem bani-lo após as seis semanas. No Indiana, pretende-se ainda obrigar ao enterro ou cremação dos fetos que tenham sido abordados de forma assistida ou espontânea. Esta realidade não tem passado despercebida a Atwood, que tornou os direitos reprodutivos das mulheres numa peça central da sua distopia. Foram, contudo, os leitores e as perguntas que estes lhe enviaram ao longo dos anos que a levaram a tomar a decisão de se sentar à secretária e escrever The Testaments. “Uma questão sobre The Handmaid’s Tale que aparecia constantemente era: como é que Gilead caiu?”, admitiu a autora. “The Testaments foi escrito para responder a essa pergunta.”

O final de The Handmaid’s Tale deixa muitas questões em aberto. O que é que aconteceu a Offred? Para onde levaram a sua filha? Como é que o regime caiu? — são algumas das perguntas que ficam sem resposta, ainda que fique claro nas últimas páginas que os tempos negros da ditadura de Gilead tiveram um fim. Surpreendentemente, esta falta de clareza é um dos pontos fortes da obra de Margaret Atwood, que deixou espaço para o leitor refletir sobre todas as possibilidades e imaginar o desfecho mais provável (ou sonhar com o mais feliz possível). Mas esta opacidade é uma faca de dois gumes — impede o leitor de colocar um ponto final da história, e ninguém gosta de deixar pontas soltas. Mas talvez The Handmaid’s Tale não seja um livro para deixar esquecido na prateleira (e não o é) — e nunca ninguém disse que é mau voltar uma e outra vez à mesma obra à procura de respostas. Além disso, a profundidade do enredo criado por Atwood garante que, sempre que isso aconteça, surjam novos pormenores, novas perspetivas. A boa literatura é assim.

Margaret Atwood escreveu "The Handmaid's Tale" nos anos 80. Muita coisa mudou desde então

Getty Images

The Testaments não é The Handmaid’s Tale, mas a sua mensagem permanece

The Testaments começa 15 anos depois do final de The Handmaid’s Tale. A história é contada na primeira pessoa por três mulheres de gerações e meios diferentes: a implacável Aunt Lydia, líder de Ardua Hall; a filha de um comandante, Agnes Jemima, nascida e criada em Gilead; e Daisy, uma adolescente canadiana. A primeira sobrepõe-se às outras, não só pela sua posição — é a mais poderosa de todas as Aunts, responsáveis por doutrinar as outras mulheres numa vida de subjugação –, mas também pelo seu papel nesta história. É Lydia, que aqui se revela em toda a sua intimidade, que esclarece os leitores acerca do modo de funcionamento de Gilead, conduzindo-os ao coração de um regime que, apesar da sua aparente virtude, está podre por dentro, e ao seu passado fundacional. É ela que apresenta quem são os principais peões neste jogo de poder, que cargos ocupam e quais as suas verdadeiras intenções.

Chegada ao fim da vida, a Aunt, uma das quatro responsáveis por criar o conjunto de regras que restringem a vida das mulheres e a sua divisão por grupos, está a escrever as suas memórias, conhecidas para a posteridade como “The Ardua Hall Holograph”. Ao longo das suas páginas, vai contando como chegou onde chegou e como se associou a um regime que destruiu tudo o que conhecia (antes da formação da República de Gilead, era juíza). “Será que ela é realmente má? Será que é totalmente má? Como é que as pessoas acabam naquelas posições?”, estas foram algumas das perguntas às quais Atwood tentou responder ao inscrever Lydia neste romance, como ela própria admitiu em entrevista à PBS.

[Imagens do lançamento de The Testaments, em Londres:]

“Nasci em 1939, era uma criança da guerra, então sempre me interessei por aqueles totalitarismos, como é que as pessoas entravam para eles, subiam dentre deles, como é que se tornavam membros da hierarquia mais alta.” A personagem parece, aliás, reunir algumas das preocupações que a autora mantém. Logo no início, Lydia explica que o faz para “edificação” dos seus eventuais futuros leitores, que a saberão julgar melhor do que ninguém. A frase parece sintetizar a intenção da própria Margaret Atwood: “Ao longo dos anos, enterrei muitos ossos; agora estou inclinada a desenterrá-los outra vez — apenas para tua edificação, meu leitor desconhecido”.

Agnes Jemina representa a geração de mulheres nascidas e educadas em Gilead. Ao contrário de Lydia, que conheceu um mundo diferente antes da queda do governo dos Estados Unidos, Agnes não sabe o que existe além das fronteiras da República de Gilead. Não sabe ler nem escrever (os livros são coisas demoníacas), nunca viu um mapa e nunca ouviu nenhuma língua além daquela que fala. Educada numa das melhores escolas do regime, que pertence a uma rede de ensino coordenada pela Aunt Vidala, responsável pela doutrina religiosa, Agnes aprendeu desde cedo qual é o seu lugar, como se deve comportar, que deve falar o menos possível e pensar ainda menos. A inteligência, ao contrário da piedade religiosa, não é uma característica apreciada nas mulheres em Gilead, onde se ensina que estas têm “cérebros mais pequenos” do que os homens e que são “incapazes de ter pensamentos profundos”. Ensinar uma mulher a pensar, “seria como tentar ensinar um gato a fazer crochet”, diz Vidala às suas alunas. Bordar ou jardinar são os passatempos mais aconselhados.

Atwood pensou em escrever uma sequela de "The Handmaid’s Tale" logo nos anos 90, mas rapidamente afastou a ideia por considerar que “nos estávamos a afastar” dos eventos que tinha narrado em 1985.

Daisy, a irascível adolescente canadiana, é o oposto de Agnes. O seu papel é contrastar e mostrar que, para lá dos muros de Gilead, existe um lugar onde é possível respirar em liberdade. Daisy é uma lufada de esperança, um sentimento que parece mais ou menos conduzir toda a narrativa. É que, apesar de todos os elos de ligação que existem entre The Handmaid’s Tale e The Testaments, os dois romances são muito diferentes, sobretudo no tom. O primeiro é muito mais negro, pesado. Gira em torno de uma única personagem (a narração é também feita na primeira pessoa), que vive enclausurada na casa de um homem de quem tem de engravidar. Offred pouco ou nada sabe sobre o que passa, e os leitores acompanham-na até ao fim nessa ignorância. Quando alguma informação é transmitida, é-lo por meio de insinuações, sugestões, uma palavra que é dita ali, um gesto feito acolá. É um livro de sombras que se passa no tempo de todas as sombras, sufocante e desconcertante. Até o final é ambíguo — não é feliz nem é triste — e não deixa muito espaço para a esperança. Existe a frase “Nolite te bastardes carborundorum”, raspada no chão do quarto pela Handmaid que Offred substituiu, e pouco mais do que isso.

Para The Handmaid’s Tale, Atwood teve em mente a rapidez assustadora com que os regimes democráticos podem cair e a facilidade com que os ditatoriais podem emergir, atraindo para si pessoas que sempre pensaram que nunca se associaram a algo assim. Para este novo romance, a autora parece ter avançado um pouco no tempo e tomado mais atenção ao modo como o jogo pode voltar a mudar, muito em parte graças ao trabalho de ilustres desconhecidos cujo nome acaba sempre por se perder nos anais da História (a história da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, está cheia de casos destes). The Testaments é um livro de resistência e é, por essa razão, também um livro de esperança. Há uma luz ao fundo do túnel que no final de The Handmaid’s Tale ainda não era possível vislumbrar. No meio da maldade e do terror, é sempre possível encontrar bondade, e essa parece ser uma das mensagens que a escritora canadiana quis deixar. The Testaments mata muitas curiosidades, mas é um bocadinho mais do que isso.

A edição em capa dura de "The Testaments", a única por enquanto disponível, chegou às livrarias no dia 10 de setembro

AFP/Getty Images

Livro viciante, escrito com mestria, The Testaments fica, contudo, muito aquém de The Handmaid’s Tale. As características que tornam o romance anterior de Margaret Atwood tão interessante, como a subtileza com que a realidade que envolve Offred é desvendada, não podem ser encontradas aqui. Em termos de temática, The Testaments não oferece nada de novo — os temas tratados são essencialmente os mesmos, ainda que Atwood dê uma piscadela de olho a questões mais atuais, como os refugiados e o fecho de fronteiras — e o seu enredo é demasiado óbvio para poder ser considerado um clássico instantâneo como o seu predecessor. Este passou o teste do tempo — a sua leitura continua a ser tão essencial como era em 1985, quando foi publicado –, o que dificilmente acontecerá com The Testaments. Mas isso não tira força à sua mensagem.

Na entrevista à PBS, Atwood afirmou que este livro pretende ser um aviso — um aviso para que certas escolhas não sejam tomadas, para que determinado caminho não seja seguido. Quando a escritora canadiana criou a República de Gilead, em meados dos anos 80, nunca pensou que esta poderia tornar-se real. Hoje, passados 34 anos, já não tem tanta certeza.

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